Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.
Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 6– Parte II
(In blog NICO, 22/02/2014)
4) VLC marca o momento charneira do fim da polarização direita-esquerda e o início do discurso sobre o necessário regresso “ao realismo” económico, o realismo naturalmente de direita.
Montand: “A crise, que crise? Todos à nossa volta falam como se falem de um desastre. Sem demagogia, penso que as pessoas de condições modestas, sentem efetivamente que é difícil, que há qualquer coisa que não vai bem, que não são as ideologias que podem resolver os problemas, eles sabem que isso é uma piada, uma mentira. Obrigado, meu Deus, as pessoas começam a compreendê-lo. ”
Rimbert: “Para Montand, efetivamente, não há nenhuma crise. Desde há alguns meses, é a estrela dos meios de comunicação social. O que é mais surpreendente é que a intervenção de Yves Montand se faz em nome do fim das ideologias. É um tema que reencontramos diversas vezes ao longo de todo o programa VLC, como seja um instrumento para afastar
Halimi : “Esta ideologia que consistiu, na verdade, para a esquerda importar o liberalismo está, de facto, muito presente nos meios intelectuais e jornalísticos da época, e terá como principal veículo a Fundação Saint-Simon. Fundada no final do ano de 82, Alain Minc será o tesoureiro e aí se reencontrará com Furet, Rosanvallon, Julliard, ou Ockrent, bem como com um grande número de industriais e é, em certa medida, neste cenáculo que se vão
5) A mensagem central veiculada por VLC é a seguinte: a crise pode ser uma oportunidade de retoma e de modernização da sociedade se as pessoas (as pessoas modestas, certamente) estiverem prontas para fazer esforços e renunciarem nomeadamente a uma grande parte dos seus acervos sociais que passaram agora a serem considerados arcaicos.
Montand: “E se até agora, graças aos Trinta gloriosos, se pôde viver esta crise a crédito, o certo agora é que vai ser necessário pagar. Deixemos pois de sonhar, porque o momento é realmente grave. A Europa hoje está via de subdesenvolvimento. Para a maior parte das pessoas, a crise é ainda apenas uma palavra. Estamos de boa saúde, comemos à nossa vontade, não há fome, e apesar de nos depararmos com algumas desigualdades beneficiamos de privilégios incríveis. O problema é que estamos de tal modo habituados a estes privilégios que nós já nem damos por eles.
Michel Albert: “A crise, somos nós que a fizemos, pelas nossas incapacidades de organização, pela nossa inconsciência, pelo atraso com o qual iniciamos as inevitáveis reestruturações industriais. ”
Rimbert: “Um dos temas de VLC é que esta grande crise não é realmente uma crise, é uma mutação. Se consentirmos esforços suficientemente poder-se-á sair da crise e evitar tornarmo-nos um país em desenvolvimento. Para isso é necessário aceitar fazer sacrifícios, vai ser necessário pagar diz-nos Montand, e esta é a condição para se poder passar de um
Montand: “Todos reclamam, o 13º, o 14º mês, às vezes o 17º mês, a segurança do emprego, mais feriados, mais férias, menos preocupações, etc., etc., etc. Por vezes, tem-se razão, mas frequentemente exagera-se…”
Rimbert: “Na televisão, mostram-se então dois casos de privilegiados, e é bastante sintomático do tom da emissão. O primeiro, é um médico que se indigna das consequências da crise sobre o seu nível de vida dado que vai ser obrigado a separar-se do seu empregado doméstico. Segue-se então um segundo caso de privilegiado, um trabalhador de EDF que tem a eletricidade quase de graça como elemento do seu poder de compra. O método é realmente grotesco, mas é uma das técnicas de VLC para fazer passar a pílula do rigor. Porque uma vez esta operação realizada, colocar sobre o mesmo plano pessoas muito ricas e trabalhadores, para os declarar como privilegiados, vai-se atribuir a estes supostos privilegiados, mas sobretudo às classes trabalhadoras, a responsabilidade da crise e, em especial, o desemprego. A ideia central de VLC e dos seus arquitetos, é dizer que os funcionários, os trabalhadores, os pequenos empregados, pelos seus acervos sociais são os responsáveis do desemprego. Trata-se aí de colocar os dominados uns contra os outros. É uma técnica ainda hoje utilizada. ”
Laurent Joffrin: “Desde 10 anos, a parte dos rendimentos de que o Estado se apropria sob a forma de impostos e contribuições sociais é quase de 50%. Este dinheiro serve, na sua maior parte, para financiar os salários da função pública. Mas este dinheiro faz falta
Rimbert: “O que se ouve é Laurent Joffrin, jovem jornalista económico no Libération, hoje diretor da redação de Nouvel Obs, que mais tarde se diz arrependido de VLC dizendo que se tinha ido demasiado longe. Em 1998 terá nomeadamente dito: “Pensávamos que a diminuição dos acervos sociais se faria a favor dos mais excluídos”. É necessário despojar os assalariados das suas conquistas para salvar os desempregados do desemprego, aí está a lógica absurda destas pessoas. De uma maneira mais geral, estas soluções viram as costas ao programa sobre o qual a esquerda foi eleita em 1981, e as propostas destas pessoas passam sempre por menos Estado, por menos funcionários e por mais iniciativas individuais. O suplemento de Libération lembra que se as pessoas que trabalham se contentam em estender a mão, isso, com efeito, faz deles assistidos o que é perigoso para eles.
(A terceira e última parte deste texto será publicada amanhã, 25/06/2017, 22h)
.

