6. O dia 22 Fevereiro de 1984, “Viva a Crise!” – PARTE II

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 6– Parte II


(In blog NICO, 22/02/2014)

4) VLC marca o momento charneira do fim da polarização direita-esquerda e o início do discurso sobre o necessário regresso “ao realismo” económico, o realismo naturalmente de direita.

Montand: “A crise, que crise? Todos à nossa volta falam como se falem de um desastre. Sem demagogia, penso que as pessoas de condições modestas, sentem efetivamente que é difícil, que há qualquer coisa que não vai bem, que não são as ideologias que podem resolver os problemas, eles sabem que isso é uma piada, uma mentira. Obrigado, meu Deus, as pessoas começam a compreendê-lo. ”

Rimbert: “Para Montand, efetivamente, não há nenhuma crise. Desde há alguns meses, é a estrela dos meios de comunicação social. O que é mais surpreendente é que a intervenção de Yves Montand se faz em nome do fim das ideologias. É um tema que reencontramos diversas vezes ao longo de todo o programa VLC, como seja um instrumento para afastarROSANVALON as ideologias em geral, mas no contexto da época, isso quer dizer afastar as ideologias de esquerda para retornar ao real. O social-liberalismo que se vai preconizar em VLC por Alain Minc, Joffrin ou Rosanvallon, não tem nada a ver com ideologia, é apresentado como sendo o realismo económico. Evidentemente, com a distância que nos confere o tempo passado, compreendeu-se que o tema do fim das ideologias é ele mesmo uma ideologia. Mas VLC marca o momento em que o último dique vai ceder. Este último dique é a polarização do campo político francês: havia uma direita de direita e uma esquerda de esquerda e que até agora se enfrentavam. Esta confrontação era insuportável para as pessoas que se diziam modernistas, e que teriam preferido uma República do centro. Reencontram-se quase todos estes em VLC. ”.

Halimi : “Esta ideologia que consistiu, na verdade, para a esquerda importar o liberalismo está, de facto, muito presente nos meios intelectuais e jornalísticos da época, e terá como principal veículo a Fundação Saint-Simon. Fundada no final do ano de 82, Alain Minc será o tesoureiro e aí se reencontrará com Furet, Rosanvallon, Julliard, ou Ockrent, bem como com um grande número de industriais e é, em certa medida, neste cenáculo que se vãopierre-rosanvallon-cover eliminar as clivagens. Estão aí muitos dos que se consideram da direita moderna ou que se consideram ser da esquerda inteligente, e tentam-se favorecer relações mais estreitas entre os mundos da intelectualidade, da imprensa e do mundo empresarial. VLC, é o intelectual e o jornalista que celebram a empresa capitalista, como criador de eficácia, de modernidade, de dinamismo.

5) A mensagem central veiculada por VLC é a  seguinte: a crise pode ser uma oportunidade de retoma e de modernização da sociedade se as pessoas (as pessoas modestas, certamente) estiverem prontas para fazer esforços e renunciarem nomeadamente a uma grande parte dos seus acervos sociais que passaram agora a serem considerados arcaicos.

Montand: “E se até agora, graças aos Trinta gloriosos,  se pôde  viver esta crise a crédito, o certo agora é que vai ser necessário pagar. Deixemos pois de sonhar, porque o momento é realmente grave. A Europa hoje está via de subdesenvolvimento. Para a maior parte das pessoas, a crise é ainda apenas uma palavra. Estamos de boa saúde, comemos à nossa vontade, não há fome, e apesar de nos depararmos com algumas desigualdades beneficiamos de privilégios incríveis. O problema é que estamos de tal modo habituados a estes privilégios que nós já nem damos  por eles.

Michel Albert: “A crise, somos nós que a fizemos, pelas nossas incapacidades de organização, pela nossa inconsciência, pelo atraso com o qual iniciamos as inevitáveis reestruturações industriais. ”

Rimbert: “Um dos temas de VLC é que esta grande crise não é realmente uma crise, é uma mutação. Se consentirmos esforços suficientemente poder-se-á sair da crise e evitar tornarmo-nos um país em desenvolvimento. Para isso é necessário aceitar fazer sacrifícios, vai ser necessário pagar diz-nos Montand, e esta é a condição para se poder passar de um GUYmundo arcaico, o dos Trinta Gloriosos onde os assalariados dispunham de diversos direitos, a um mundo moderno. É pois em grande parte o contexto intelectual do início dos anos 80 que torna possível esta emissão. Desde 1982, que as livrarias estão pejadas de montanhas de ensaios político-económicos, que vão muito no mesmo sentido. Em 1982, de Closets vende mais de um milhão de exemplares de “Toujours Plus”, um bestseller antisindical, que critica os benefícios adquiridos. Dois anos depois, Sorman propõe para se sair da crise “La solution libérale”. Trata-se de pessoas classificadas à direita, mas as pessoas classificados à esquerda vão dizer exatamente a mesma coisa. Entre elas,está  Michel Albert que  publica “Le Pari Français”. É um alto funcionário, figura emblemática de tecnocrata, Comissário no plano sob Raymond Barre, e VLC inspira-se diretamente neste seu livro, mas também no de Alain Minc, já lá, que já publicado “L’après-crise est crise2commencée ” em 1982. Com sempre com tanta clarividência, explicam-nos que a crise é uma possibilidade para se ter êxito e conseguir a mutação da sociedade francesa, e o seu livro será elogiado nas colunas de Libération por um jovem colunista económico, Pierre Rosanvallon, igualmente interveniente na emissão VLC. Estas pessoas têm por ponto comum saudarem com entusiasmo a austeridade e há algo de impressionante nesta convergência dos intelectuais na defesa do rigor económico: nos anos 50-60, estes intelectuais, viam-se muito frequentemente ao lado dos trabalhadores, prevaleciam-se da sua proximidade à classe operária, porque esta era forte, organizada. Eles seguiram-na tanto quanto esta poderia servir-lhes de promontório. Mas no início da década de 1980, no momento em que e o desemprego e a precariedade começam aoccasion-le-pari-francais-michel-albertaumentar,  os intelectuais viraram as costas ao mundo do trabalho e passam-se para os media, onde defendem soluções económicas que atingirão, em primeiro lugar, os trabalhadores,  precisamente estes.

Montand: “Todos reclamam, o 13º, o 14º mês, às vezes o 17º mês, a segurança do emprego, mais feriados, mais férias, menos preocupações, etc., etc., etc. Por vezes, tem-se razão, mas frequentemente exagera-se…”

Rimbert: “Na televisão, mostram-se então dois casos de privilegiados, e é bastante sintomático do tom da emissão. O primeiro, é um médico que se indigna das consequências da crise sobre o seu nível de vida dado que vai ser obrigado a separar-se do seu empregado doméstico. Segue-se então um segundo caso de privilegiado, um trabalhador de EDF que tem a eletricidade quase de graça como elemento do seu poder de compra. O método é realmente grotesco, mas é uma das técnicas de VLC para fazer passar a pílula do rigor. Porque uma vez esta operação realizada, colocar sobre o mesmo plano pessoas muito ricas e trabalhadores, para os declarar como privilegiados, vai-se atribuir a estes supostos privilegiados, mas sobretudo às classes trabalhadoras, a responsabilidade da crise e, em especial, o desemprego. A ideia central de VLC e dos seus arquitetos, é dizer que os funcionários, os trabalhadores, os pequenos empregados, pelos seus acervos sociais são os responsáveis do desemprego. Trata-se aí de colocar os dominados uns contra os outros. É uma técnica ainda hoje utilizada. ”

Laurent Joffrin: “Desde 10 anos, a parte dos rendimentos de que o Estado se apropria sob a forma de impostos e contribuições sociais é quase de 50%. Este dinheiro serve, na sua maior parte, para financiar os salários da função pública. Mas este dinheiro faz faltalaurent às empresas. Desde há 10 anos que o investimento industrial deixou de progredir, a Europa conta hoje 12 milhões de desempregados. ”

Rimbert: “O que se ouve é Laurent Joffrin, jovem jornalista económico no Libération, hoje diretor da redação de Nouvel Obs, que mais tarde se diz arrependido de VLC dizendo que se tinha ido demasiado longe. Em 1998 terá nomeadamente dito: “Pensávamos que a diminuição dos acervos sociais se faria a favor dos mais excluídos”. É necessário despojar os assalariados das suas conquistas para salvar os desempregados do desemprego, aí está a lógica absurda destas pessoas. De uma maneira mais geral, estas soluções viram as costas ao programa sobre o qual a esquerda foi eleita em 1981, e as propostas destas pessoas passam sempre por menos Estado, por menos funcionários e por mais iniciativas individuais. O suplemento de Libération lembra que se as pessoas que trabalham se contentam em estender a mão, isso, com efeito,  faz deles assistidos o que é perigoso para eles. 


(A terceira e última parte deste texto será publicada amanhã, 25/06/2017, 22h)


Texto original aqui

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