Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.
Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 6– Parte III
(In blog NICO, 22/02/2014)
6) Conclusão de Halimi e Rimbert
Halimi: “Há muitas emissões televisivas ou de livros que contam a história do totalitarismo, seria bom que, ocasionalmente, fizéssemos a história do neoliberalismo, e
Rimbert: “Não se vê bem retrospetivamente a violência desta emissão quando a escutamos hoje. É necessário recordar que ela se passa num contexto de crise económica muito aguda. É necessário imaginar a reação de certos telespectadores quando vêem aparecer no telejornal às 21:00 um quarteirão de inspetores das finanças, pessoas pagas pela coletividade para gerir o Estado e que se propõem reduzir a importância do Estado, ou veem aparecer os jornalistas para quem a crise se vai tornar uma fonte de notoriedade, que escreveram já livros sobre as costas dos pobres e se permitem dar-lhes ordem de apertarem o cinto. Havia uma muito grande violência ali dentro. ”
Comentários anexos:
Não me vou estender-se sobre a terrível proximidade entre os discursos ouvidos em VLC e aqueles com que nos massacram hoje, dia após dia, durante estes trinta anos. Salvo que, no intervalo, a maior parte das recomendações dos intervenientes de VLC foi aplicada: a liberalização financeira e comercial, as privatizações, a flexibilização e precarização do mundo do trabalho, a baixa das cargas sociais e dos impostos sobre as sociedades, etc.… Sem estar a falar da construção europeia, relançada em 1984 e evocada em VLC como a solução de futuro para a França, o que lhe vai permitir reencontrar de
1984 no Libération : “Durante muito tempo, no entanto, os Franceses têm-se recusado em encarar a situação de crise em que nos encontramos. Durante quase uma década, cultivaram a ilusão do fim do túnel, recusando-se a aceitarem qualquer baixa do poder de compra, continuando na sua procura sem fim do bem-estar material, negligenciando o investimento; como se a redução do ritmo do crescimento e a subida do desemprego devessem esfumarem-se como se tenham sido apenas um mau sonho sobre a situação económica. Uma “outra política”, uma “outra lógica” deviam permitir libertar a produção, criar empregos, salvaguardar o poder de compra. Na verdade, acreditavam eles que havia uma outra política? Em todo caso, queriam estar descansados quanto a isso. Foi o desafio do 10 de maio. Uma vontade nacional de dizer “resistimos” aos que se manifestam desde há muito tempo nas margens da História. Por não se ter analisado a profundidade da crise, por não se ter percebido a amplitude da reversão histórica, os socialistas normalmente cheios de certezas falharam este encontro. “A outra lógica” quebrou-se não sobre o muro do dinheiro, mas sobre o da realidade. Seja o que for que tenham feito durante este
2014 no l’Obs : François Hollande hesita, obviamente, sobre o futuro da sua relação afetiva. Por outro lado faz uma escolha política clara: abre uma nova etapa na história da esquerda francesa. Por isso, foi necessário dirigir um “sinal forte” para se conciliar com os mercados, com os grandes empresários. A baixa nas despesas com a segurança social, especialmente pela transferência das contribuição das família, uma velha reclamação de Medef, controlo sobre as subidas de impostos, redução de despesas e sanear as contas da Segurança Social : é todo um catálogo muito patronal que foi
É um espanto, não? No final, poderíamos pensar que a dimensão das medidas liberais tomadas por Hollande tranquilizou Joffrin & associados pelo facto de que a esquerda francesa definitivamente se tem entregue ao realismo de direita. Mas não acredito nisso, as medidas tomadas nunca irão suficientemente longe para eles e encontrarão sempre um país mais avançado e mais moderno, de que a França faria muito bem em se inspirar sob pena de declinar.
Em conclusão, refira-se o recente relatório do Tribunal de Contas (criticado aqui), que, tal como VLC, estigmatiza as vergonhosas vantagens adquiridas dos privilegiados da SNCF ou de EDF, bem como o último livro do defensor do declínio, Nicolas Baverez, intitulado “Lettres béninoises ” que imagina, como Michel Albert antes dele, uma França que se tornou num país em desenvolvimento porque não soube fazer as reformas liberais indispensáveis.
[1] O autor refere-se aqui ao texto por nós editado na série de uma crise a outra com o titulo Hollande terá ele mudado de campo político ? Não, de modo nenhum, e isto é seguro. Vale a pena relê-lo com muito cuidado para se perceber bem como é que a mensagem é transmitida, sobretudo para as classes médias e altas.
[2] Ambos os textos agora citados foram já por nós publicados.
(O sétimo texto desta série será publicado amanhã, 26/06/2017, 22h)
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