15. Carta aberta àqueles que passaram do Coletivo Mao para o Rotary Club- Prefácio de Serge Halimi; Parte I

Esta obra de Guy Hocquenghem que tem mais de quinze anos (escrita em 1986)  não ganhou até hoje  a mínima ruga.  O autor fala-nos já de Finkielkraut, Bernard-Henry Levy, Cohn-Bendit, de Bruckner. E para  já, diz-nos o essencial. Ignora-se o que Hocquenghem teria escrito deles hoje, sabe-se contudo que ninguém  o escreveria como ele.

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 15 – Parte I

MAO_1968

(Prefácio à obra por Serge Halimi, 29/05/2008)

Antes de morrer, com 41 anos, Guy Hocquenghem disparou um tiro de pistola sobre a missa das renegações. Foi um dos primeiros a explicar-nos que, por detrás do rastejar dos “arrependidos” socialistas e esquerdistas para o cimo  da pirâmide, não havia desprezo,  mas sim autorrealização,  que um exercício prolongado do poder lhes tinha revelado mais do que este os tinha traído. Sabe-se doravante qual foi o preço – desemprego, reestruturações selvagens, dinheiro louco, entusiasmo louco pelos patrões – que foi pago para um percurso que Serge July resumiu um dia em três palavras: “Ganhei com tudo. ”

Esta obra que tem mais de quinze anos (escrita em 1986)  não ganhou até hoje  a mínima ruga.  O autor fala-nos já de Finkielkraut, Bernard-Henry Levy, Cohn-Bendit, de Bruckner. E para  já, diz-nos o essencial. Ignora-se o que Hocquenghem teria escrito deles hoje, sabe-se contudo que ninguém  o escreveria como ele. Ele que pertencia à sua muito incómoda “geração” – a de Glucksmann, de  Goupil, de Edwyn Plenel e de Kouchner – rapidamente realçou : “Geração: durante anos, tinha jurado a mim-mesmo de não pronunciar esta palavra; por instinto, detesto utilizá-la.  Não gosto da ideia de pertencer a este bloco coagulado de deceções e favoritismos, que não se realiza e não se ressente como tal no momento da massiva traição da idade madura. ”  O autor teria desejado que  esta se tivesse menos  comprometido, em bloco, pelos  comportamentos pedantes,  reacionários e moralistas, da pequena corte que parasitou jornais e “debates”. Gostaria que se tivesse  impedido de associar  ” apenas esta “geração aos  contestatários  que abriram um plano de poupança na contestação com a esperança de embolsarem mais tarde  os dividendos da recuperação.

Renunciando às aparências da decência, da suavidade burguesa, própria daqueles que monopolizam os instrumentos da violência social, Guy Hocquenghem usou da truculência, da desmedida. Opôs o seu clamor ao torpor dos tempos de derrota. O seu livro esclarece a vertente intelectual da era das restaurações. As forças sociais que a dirigiam há vinte anos mantêm ainda o seu controlo ; as resistências, embora ascendentes, permanecem dispersas e confusas. Não estamos ainda por conseguinte a atingir o limite dos nossos males. Os arrependidos envelheceram e a sociedade envelheceu com eles.

O hedonismo deu lugar ao medo, o culto “da empresa” deu lugar ao “culto” da polícia. Favorecidas pela ganância dos rendimentos e dos lucros e pelo exibicionismo mediático, novas renegações irão ocorrer. Ler Guy Hocquenghem arma-nos pois para aí responder, em conjunto,  com aqueles que sabem doravante para onde nos querem levar.

 (A segunda parte deste texto será publicada amanhã, 20/07/2017, 22h)


Texto original aqui

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