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MEMÓRIAS – Por José Fernando Magalhães (4)

 

 

BEIJINHOS

 

Há recantos que nos convidam a parar. A contemplar. Este era, em tempos de outrora, um deles. Praia pequena, de areia fina e de muitas rochas que a abrigavam do vento e de olhares indiscretos.

Beijinhos, havia-os na praia. De uma espécie e da outra. A uns, apanhava-os e guardava-os com carinho, às centenas. A outros enfiava-os na areia, para, para sempre, lá ficarem.

 

Desde catraio que, em dias mais especiais, os meus pais saíam de Leça Sul e nos levavam à Foz do Douro Norte. A nossa praia de eleição foi sempre a de Gondarém, muito por via de laços familiares, e esta saída constituía bem mais do que um escape da areia grossa. Configurava uma outra vida. Atravessar a ponte móvel representava um acontecimento que nos excitava. Umas vezes ficávamos em Fuzelhas, outras na Boa Nova. Os meus primos e nós, a minha irmã e eu, passeávamos amiúde em direcção à dos Beijinhos. Era um entretenimento, a cata das minúsculas conchinhas. De quando em vez, nos dias grandes (como dizia o meu pai), passávamos o dia na Piscina das Marés, ainda uma novidade.

Mais tarde, e sempre que podia e tinha a competente companhia, lá ia até à dos Beijinhos. E, compreensivelmente, só dessa eu gostava, na altura.

Os anos passaram e a minha paixão pelas praias e a marginal de Leça, foram-se cimentando. Era para ali que ia quando queria escrever, ou pensar, ou lavar os pés e a alma na água do mar. Por lá escrevi alguns dos mais bem conseguidos poemas que me foi dado fazer. Para lá ia dias inteiros. Vivi alguns dos mais difíceis tempos da minha vida, e curei-os contemplando o mar, meditando e escrevendo, em solidão. Num dado período, mais tardio, adorava ir até à Casa de Chá do Boa Nova. Raramente acompanhado, lia e relia, através das enormes janelas e por entre a espuma das águas batidas com estrondo, o poema do poeta Nobre; “Na praia lá da Boa Nova, um dia…”; e eu escrevia, escrevia…

Actualmente, fujo de por lá passar durante o Verão. Prefiro os passeios em tardes soalheiras no Outono e nas manhãs de Primavera.

Há uma gravidade antiga, um apelo físico a que a minha memória nunca soube resistir, no ar de Leça da Palmeira.

O casario mais antigo, a casa onde viveu Guiomar de Menezes, perto do Forte e do porto, é mais do que isso. É atracção. Quero voltar uma e outra vez, olhar as janelas, as portas, os telhados. E sonhar com o tempo em que ainda havia beijinhos na praia e na minha vida.

 

 

 

 

 

 

 

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