
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Pais de merda? Grandeza e decadência do país das Luzes
Jean-Paul Brighelli, Pays de merde? Grandeur et décadence du pays des Lumières
Revista Causeur.fr, 23 de Março de 2015
“País de merda”, disse Zlatan — o homem que ganhou uma alcunha que genuit nominem (“zlatanarias”) que genuit um bom pacote de magistrais bestialidades. Anteriormente citava-se Hugo, agora cita-se Zlatan. Sic transit.
(Não sei se tenho que falar latim esta noite. Por reacção sem dúvida: desde que Najat Vallaud-Belkacem decidiu fazer da cultura clássica uma nota de pé de página nos programas escolares, repensados estes de acordo com a lei da Santa Interdisciplinaridade e do Bem-aventurado desprezo total sou levado a acariciar esta obra-prima em perigo – as humanidades clássicas).
A Marine Le Pen aproveitou para recriar o velho slogan sarkozysta — com uma variante: “Os que consideram que a França é um país de merda podem ir-se embora”, foi o que ela terá dito. Como se Zlatan fosse deixar um país que lhe assegura um rendimento (fora os ganhos em publicidade) de cerca de 18 milhões de euros por ano — em 2014.
“País de merda”: e imediatamente os meios de comunicação social (que decididamente não têm nada de melhor a fazer (no momento em que o Estado islâmico fazia mais de 140 mortes no Iémen em atentados-suicídio no centro das mesquitas chiitas) para se embalarem, a França que passa a chilrear os seus protestos, e os políticos com a função de os difundirem, incluindo o Primeiro ministro convidado para esta cimeira do pensamento que é o Grande Jornal: “Um grande jogador de futebol deve ser um exemplo”, blablablá, respondeu ele a uma pergunta inteligente de Antoine de Caunes (careta absolutamente carregada de pesar de Polony, durante estas declarações bem sentidas — a França compreendeu, certamente, o que a Comunicação quer dizer, na linguagem destas cabeças ocas, mas visivelmente não se mostra levar em conta).
A revista sueca Fokus (aparentemente uma excelente revista, que dispara tanto à direita como à esquerda – o modelo do que poderia ser Marianne com um pouco mais de combatividade) agarrou esta ocasião:
Falo a língua sueca como De Gaulle falava as línguas estrangeiras, e traduzo: “Crescimento zero, 10% de desempregados, Frente Nacional a caminho de uma vitória eleitoral. Não é um país de merda? ”
Os suecos são fixes, puseram um ponto de interrogação, embora se sinta que é mesmo um tanto retórico. Há maneiras de responder aos Suecos.
Primeiro, que todos os países, num ou noutro momento, passaram por um crescimento zero — e às vezes negativo. Que a Grécia pode estar com dificuldades mas continua a ser a Grécia. Que às virtudes luteranas opomos a amabilidade e a delicadeza mediterrânica. Que a Academia sueca, como se diz, premiou já bem mais Franceses do que Suecos, e em todos os domínios. Que os seus vigaristas não têm nada a invejar aos nossos. Que há neonazis escandinavos bem mais radicais do que os nossos nostálgicos de OAS, como diria Anders Behring Breivik… E que quando se veio procurar um general republicano em França para gerar a cepa de uma linhagem dos reis suecos…
E que… e que…
Certamente, certamente…
Mas os Franceses eles mesmos esqueceram, nestes últimos tempos, de quanto é que nós todos foram grandes. No momento em que o desemprego se comporta muito bem, [em alta] deveria reacender-se a tocha das velhas glórias francesas. Em vez disso, passa-se o tempo a bater com a mão no peito, mea culpa, mea culpa, a acusarem-se dos crimes do colonialismo, a deixarem descaracterizar a sua cultura por um conglomerado de cantores de rap. E consolam-se olhando TF1, subscrevendo-se na Djihad ou chilreando no vazio sobre a última das zlatanarias. De repente, vai-se levar Marine Le Pen ao poder, sem ilusão — e um país que perde as suas ilusões está muito perto de se afundar .
Resumidamente, decadência.
Mas nada não foi fatal. Não estamos a ser vítimas de nenhuma vingança divina — contanto que Deus, hein… Fomos nós que fizemos pouco a pouco, ponto a ponto, a nossa pequena decadência, no nosso cantinho mesmo e ao alcance da nossa mão. Os Franceses não esqueceram nada: apagou-se-lhes a memória
Desmantelaram-nos uma escola que foi a primeira no mundo, em qualidade, em importância altamente reconhecida. Chegamos a acreditar que BHL é filosófico e conselheiro militar, que os enarcas (os quadros saída da escola de altos quadros – ENA) são necessariamente competentes, que Sarkozy poderia regressar, por falta de concorrência ou por culpa de excesso de concorrência, que Hollande é de esquerda e Macron também. Querem-nos fazer crer , de resto, que há ainda uma direita e uma esquerda, enquanto que todos vêem que é blanc bonnet, bonnet blanc, [ que é tudo semelhante] como dizia o PC da época quando ainda havia um Partido Comunista.
A nossa decadência é uma decadência imposta — da mesma maneira que nos é imposta uma Frente Nacional a 30% ou mesmo 40%, nada que possa salvar um PS em debandada, ou que se tente converter-nos ao comunitarismo, exactamente para apanhar uma parte dos votos dos muçulmanos, em conformidade com as directivas de Terra Nova, o think tank do PS (estas pessoas são incapazes de dizer “Círculo de reflexão”: porque dizer em inglês think tank é melhor), que pensam que os filhos dos imigrantes podem utilmente substituir, nas urnas, o voto dos trabalhadores e dos empregados, que estes bobos Rive Gauche –Droite pensam doravante como estando já mortos.
O peixe morre pela cabeça — no Eliseu e em Matignon, e numa multidão de instâncias europeias para as quais não existimos. A decadência está no topo do Estado — não necessariamente nas camadas populares, porque existe ainda um povo em França que um destes dias decapitará de novo os seus reis.
Um dia.
Daqui a dez mil anos ou amanhã, cantava Leo Ferré.
Jean-Paul Brighelli, revista Causeur, Pays de merde? Grandeur et décadence du pays des Lumières.
Texto disponível em :
http://www.causeur.fr/pays-de-merde-31970.html
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