OK CORRALL, por JEAN-PAUL BRIGHELLI

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Selecção, tradução e nota de introdução por Júlio Marques Mota

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OK CORRALL

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Jean-Paul Brighelli, OK Corrall

Revista Causeur.fr, 5 de Dezembro de 2016

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Apesar das exortações de Jean-Christophe Cambadélis (mas haverá ainda alguém para ouvir o que diz Cambadelis?), Emmanuel Macron e Jean-Luc Mélenchon irão às Presidenciais sem passar pelas primárias: “Quando se pretende presidir ao destino de um país, nós não estamos disponíveis para nos fecharmos nos feudos dos clãs”, explicou o líder de En marche, ao Journal de Dimanche, JDD, no fim-de-semana. E acrescentou: “estas primárias, Okay Corral”!

Uma rápida sondagem junto dos meus alunos das classes preparatórias permitiu-me ver que a referência lhes escapava. Okay Corral? Eles sentem que há aqui uma referência, mas qual? Nenhum deles viu as várias adaptações do duelo que em 1881 viu o confronto em Tombstone, Arizona, entre os Earp e os Clanton. Nem lei nem ordem, (Edward L. Cahn, 1932), um pouco esquecido, ou a Paixão de Fortes (My Darling Clementine, John Ford, 1946, com um Henry Fonda de fino bigodaço e terrivelmente paciente face a Linda Darnell – e Victor Mature no papel de Doc Holliday um pouco contra corrente, porque ninguém poderia acreditar que Mature, quase tão largo de ombros como eu, estava com tuberculose). Nem Ajuste de contas a Okay Corral (John Sturges, 1956, no auge da parceria Lancaster-Douglas, com Denis Hopper e Lee Van Cleef nos papéis secundários – Lee Van Cleef, já visto quatro anos antes em O comboio apitou três vezes (High Noon),  onde era abatido por Gary Cooper, ainda não contratado por Sergio Leone em Por alguns dólares a mais – 1965 – ou em O bom, o mau e o vilão no ano seguinte), ou em Duelo de Morte (John Sturges, 1967, onde Jason Robards fez um grandioso Doc Holliday), ou mesmo Tombstone (George Pan Cosmatos, 1993, onde Kurt Russell tinha como bigode enxertado o que teria sido o bigode real de Wyatt Earp de 1881) ou Wyatt Earp (Lawrence Kasdan, 1994) onde Kevin Costner desperdiça os seus esforços.

Macron, aparentemente sabe do que fala. “A esquerda é eliminada à segunda volta desde há dezoito meses! Não há ninguém que fique para a segunda volta! Nem um! Embora esta mesma eleição primária se passe bem, o vencedor não saíra daí. Se Arnaud Montebourg ganhar as primárias, acha que Valls o irá apoiar?

Se Manuel Valls ganha, acha que os apoios de Arnaud Montebourg ou de Benoît Hamon, irão apoiar Valls? “Eu tenho a ideia que não há aqui quem se faça de ilusões sobre a vontade dos Cowboys da rua Solferino para apoiar outro campeão que não sejam eles próprios. Isto já não existe o reino dos Colt’s  é o reino da falta de lealdade.

Que aconteceu com a cultura do western? Dantes, andávamos a brincar aos Cowboys e aos índios à saída da escola – eu era invariavelmente o índio, e eu morria com alguma graça, arrasado pelas balas das Túnicas azuis. Acabou-se.

Os meus alunos têm como (uma pobre) desculpa o facto que todos estes filmes, mesmo os mais recentes, saíram antes de terem nascido e que a televisão já nem sequer os passa — e é uma falta que seria bom analisar, talvez volte ao tema. Mas hoje há qualquer coisa que já não corresponde mais à estética violentamente kantiana do western, onde se faz o que tem de fazer, quaisquer que sejam as consequências. E quem quer que seja  — um agricultor crivado de dívidas, como em 3h10 para Yuma, primeira versão, ou os malfeitores vindos de qualquer lado com  A Quadrilha  Selvagem: “Vamos embora-Porque não?” E partem na última das fornalhas mexicanas. Sim, o western era um género moral, onde o herói só o era porque se enquadrava sob as forcas caudinas da ética mais rigorosa.

Hoje, o individualismo levado ao extremo matou o heroísmo (o verdadeiro herói já não é um grande homem, é por si-mesmo um coletivo). A sermos rigorosos, restam-nos ainda os super-heróis ou os aprendizes de feiticeiros, uns e outros desembaraçados de qualquer relação face ao real, mas os duelos de homem a homem (ver o duelo final de Tiros na Sierra , um dos primeiros western de Peckinpah), onde se pode uma bala bem enfiada num sítio sensível, já não existem, acabou-se — e Macron é disso testemunha

Longe da tentação de dar ou levar uns tiros e bem certeiros: bem ao abrigo nas fortalezas que lhe construíram os banqueiros que o apoiam, não vai correr o risco de se deixar partir os dentes por Gérard Filoche, que é bastante entroncado para poder torcer três como Macron e com uma só mão. As primárias da direita fizeram-se à custa de rendilhados, a partir do final da noite na primeira volta onde todos saltavam de contentes e diziam “venha daí um abraço, Folleville[1]”. Evidentemente, Labiche é menos sanguinário que Sturges. E a alusão venenosa é menos decisiva que um calibre 45. Os foliculares sublinham as pequenas frases, da mesma forma que os coveiros enterram os cadáveres.

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Não somente o western é um tipo arrumado nos cacifos das cinematecas — e é efetivamente lamentável, era a nossa última relação com a epopeia —, mas a partir de agora contornam-se com cuidado os conflitos, enviesa-se, pactua-se, evita-se. Tentam de nos fazer crer que se trata de habilidade, quando se trata, no máximo, de covardia. E se debatemos, os conselheiros para a imagem pública estripam-se, para conseguirem que o seu candidato esteja posicionado à direita ou à esquerda, e não sob os projetores. Uma atmosfera de tons aveludados. Sob pretexto de uma cortesia amarga, elimina-se o que fazia o sal da política — a possibilidade de aí deixar a própria pele. É sem dúvida porque eles se entendem muito bem, entre eles, para esfolar a nossa.

Jean-Paul Brighelli

Acabo de questionar Bertrand Tavernier, um admirável especialista do cinema americano, sobre a questão. E este diz-me: “os primários, é o contrário de OK CORRAL onde dois clãs se enfrentavam, os Clanton e os Earp — de acordo com Burnett, os Democratas e os Republicanos —, sem que em nenhum dos clãs se ande aos tiros uns aos outros Tratava-se de duas famílias em que não havia traições. Agora já não é a lógica do clã que prevalece: é a lógica de cada um por si, do somente por si-próprio,  porque o resto não interessa.

Jean-Paul Brighelli, Revista Causeur, OK Corral. Texto disponível : http://blog.causeur.fr/bonnetdane/

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[1] Embrassons-nous, Folleville ! é uma peça de Eugène Labische.

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