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A CRISE DA FINANÇA – O CASO ITALIANO – INTRODUÇÃO por JÚLIO MARQUES MOTA

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Iniciamos hoje uma série de textos sobre a crise da finança tomando basicamente como exemplo a Itália, intitulada A Crise da Finança – O Caso Italiano, onde podemos ver pelo retrovisor o que se passou em Portugal ou ainda o que se irá passar em breve. A Caixa Geral dos Depósitos aí está a lembrar isso mesmo.

O caso Monte dei Paschi de Siena aí está, o caso da Caixa Geral de Depósitos igualmente. A bibliografia sobre a crise italiana é imensa e genericamente a escapar à atenção do eleitor português. Olhemos então para Itália mas sempre com um olho em Portugal e a partir de Itália podemos estar a ver o filme de Portugal. Ou talvez não, porque talvez os banqueiros em Portugal sejam de uma seriedade a toda a prova e o nosso sistema financeiro ele também blindado contra toda e qualquer tentação de ganância.

Um vigarista da alta finança de um offshore e possivelmente indiciado pela justiça italiana por pertencer a uma associação de malfeitores de tipo mafioso acusava um dos elementos de que se servia para as suas operações ilegais e que andava cheio de medo de estar a fazer operações ilegais, de que este último vivia no mundo dos sonhos. Talvez também eu viva nesse mesmo mundo de sonhos ao admitir que os nossos banqueiros podem ser bem diferentes dos crápulas italianos de que ao longo da série iremos falando.

No que diz respeito aos nossos banqueiros não é de admirar a posição de António Costa ou de Mário Centeno, tanto mais quanto estas lamentáveis posições  vêm de gente socialista, por criarem então as condições legais de exceção  a estes homens também de exceção. Como contraponto, cito um dos autores de referência na minha área, Piketty, que no seu livro, possivelmente o livro mais citado do ano de 2014, O Capital, gasta páginas e páginas à procura da justificação teórica para estes ordenados de exceção. Uma vergonha intelectual. Face a um texto destes, aclamado internacionalmente, as declarações de António Costa e Centeno sobre o gestor António Domingues poderiam ser consideradas insignificantes, se elas não colidissem com questões de princípios, de ética e de respeito por um país em dificuldade, em que uma das razões de fundo dessas dificuldades foi, é e continuará a ser, a ganância dos banqueiros. Além do mais o desprezo mostrado pelo atual executivo pelos milhares de funcionários da Caixa é altamente lamentável e indigno. Do ponto de vista global e de estratégia face a evolução política e face à dinâmica dos mercados, tudo isto encarado não apenas do ponto de vista meramente técnico, o comportamento de António Domingues pareceu mais o de um boy (a caminho de uma reforma dourada) mais obcecado por ganhar dinheiro do que outra coisa. Portanto, incompetente para o cargo proposto. E do ponto de vista técnico e global referido seria capaz de jurar que haverá na Caixa dezenas de profissionais que tecnicamente lhe poderão ser superiores, vindos ou não das salas de mercados mas com profundo conhecimento do que nestas se faz ou se deve fazer. [1]

Numa época em que respeitar alguém é uma exceção, António Domingues não foge à regra e só se respeita a si próprio. Assim, aceita que um governo seja insultado na praça pública e numa situação em que este precisa do máximo apoio social, para defender o direito a esconder do público quando tem ganho como homem de exceção. Uma vergonha, a significar que o seu discernimento do que é “politica e socialmente relevante” é praticamente nulo. E se assim é nem sequer vemos nenhum mérito para o cargo a que estava vocacionado, até porque este exige uma grande visão “ao largo”, quanto mais para os 400 mil euros anuais que iria ganhar.

Mas curiosamente quase tudo o que se dissemos acima se aplica ao novo Presidente, Paulo de Macedo, o homem que cega ou intencionalmente desmantelou o serviço nacional de saúde. Que o digam as dezenas de idosos que morreram há dois anos. Ah, os mortos não falam. Que o digam os profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, paramédicos com as suas carreiras profissionais destruídas, e que o digam sobretudo os doentes. E nestes sobretudo os que passaram pelas urgências dos Hospitais Centrais, mesmo em dias normais. Inversamente, que o digam os hospitais estrangeiros a captarem turmas inteiras de enfermeiros ao acabarem os seus cursos. Que o digam os diretores dos hospitais estrangeiros, satisfeitos, por neles trabalharem médicos portugueses que se recusaram a salários de mulheres-a-dias sob a tutela de Macedo em Portugal, o grande gestor da falta de saúde! Sobre tudo isto Centeno e Costa passaram ao lado. É pena!

Tenho um profundo respeito pela geringonça pelo que não discuto mais esta questão. Saúdo aqueles que no Executivo e contra ventos e marés sucessivamente procuram salvar o principal perdendo no acessório, embora esta questão, a da Gestão da Caixa Geral dos Depósitos, não seja acessória, mesmo que o possa parecer. Uma outra questão, também não acessória aparece a seguir, com a subvenção ao patronato da taxa social única de modo a compensá-lo mesmo que parcialmente do leve aumento do salário mínimo. Pacheco Pereira tinha razão quando a seguir às últimas eleições declarava numa claramente alusão à falta de classe da classe média portuguesa, que é o suporte político do aparelho do PS, escreveu que os resultados eram relevantes porque a Direita caceteira tinha perdido a maioria e não menos importante, porque o PS a não tinha ganho também. Entenda-se …

Desta série começamos por um artigo de Jean- Luc Gréau sobre a necessidade da Itália sair do euro e este autor, nunca é demais sublinhá-lo, foi durante anos o conselheiro do patronato francês, através do MEDEF. Seguem-se depois dois textos dos falcões alemães, Schäuble, ministro das finanças da Alemanha, e Jens Weidmann, o Presidente do Bundesbank. Em seguida e para se perceber bem o pensamento de Weidmann, antigo conselheiro de Merkel, editaremos uma peça escrita por nós há dois anos sobre a noção de pecado em economia, de acordo com o nº 1 do Bundesbank.

Depois deste enquadramento, republicaremos uma peça nossa sobre os cães da minha infância atualizada com dados recente para Itália.

Depois, depois, sejam bem vindos ao mundo da Máfia Financeira, em que serão publicados mais de 15 artigos e cuja entrada serão três artigos sobre Mario Draghi, o chefe da Finança Europeia, escritos, um pelo senador Elio Lannutti, outro por um antigo colaborador de Enrico Mattei, Benito Li Vigni e o terceiro por Roberto Casalena.

Já agora, quem se lembra do filme O Caso Mattei, de Francesco Rosi? A pergunta aqui fica. Se o não viu, aconselhamo-lo a ver, sobretudo depois de ler os três textos sobre Mario Draghi.

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[1] Sobre este assunto leia Carta ao meu camarada António Costa, de António Gomes Marques, texto publicado em A Viagem dos Argonautas, e acessível clicando no link:

https://aviagemdosargonautas.net/2016/11/29/carta-ao-meu-camarada-antonio-costa-de-antonio-gomes-marques/

 

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