

Terminámos a série de textos sobre A CRISE DA FINANÇA – O CASO ITALIANO. Esta série surgiu da minha indignação quanto aos argumentos apresentados por Mário Centeno em defesa da altíssima remuneração de António Domingues e do quadro de exceção legal que para ele foi criado. Uma vergonha e um desrespeito total por um país em crise. A adicionar a isto temos a intervenção extraordinariamente infeliz de António Costa em torno do caso e dos altos salários a pagar pelo Estado, sem qualquer paralelo na Administração Pública. Equiparando a atividade bancária, mesmo pública, a uma equipa de futebol. Para se ter uma boa equipa de futebol, tem de se pagar bem, foi esse o argumento levantado[1]. Não me quero prender por aqui, mas uma coisa é certa, uma sociedade não é em nada, comparável a uma equipa de futebol, salvo na lógica de Margaret Thatcher, segundo a qual não há sociedade, mas indivíduos. Mas então a sociedade não existe e o argumento cai por terra. A menos que a sociedade para Costa sejam os espectadores, os passivos da bancada, que podem no máximo gritar de raiva ou de alegria pelas atitudes dos jogadores, os bem pagos de Costa, ou pelas decisões dos diversos árbitros, os nossos políticos! Mas garantidamente, António Costa não tem nada a ver com o ícone de referência do neoliberalismo puro e duro que é a Dama de Ferro nem com a crítica subjacente ao que acabo de escrever. O mesmo não posso eu garantir quanto a Mário Centeno . Margaret Thatcher, esta esperava-se estar a enferrujar em paz mas com comportamentos destes deve estar a rebolar-se de alegria no túmulo imaginário constituído pelas mentes (talvez dementes) dos neoliberais de hoje. Os socialistas em período de forte crise a defender os valores mais absurdos do neoliberalismo, a querer uma conciliação de classes assente numa intensificação da exploração daqueles que vivem em maior precariedade!
Um socialista, a dizer então que a sociedade pode ser encarada como equipa de futebol, coisa nunca vista. E acusando o PSD de ter inviabilizado a aceitação de António Domingues por causa de uma lei por este partido apresentada e depois aprovada na Assembleia da República. E a lei, simplesmente exigia a transparência nos rendimentos auferidos, exigia a declaração pública dos rendimentos. Ora, o PSD não tem a maioria absoluta na Assembleia, logo é mentira o que disse o primeiro- ministro português. Trata-se de uma lei aprovada pela maioria dos eleitos da Assembleia e nada mais que isso. Se alguma coisa de grave havia nisto, é a posição do primeiro-ministro que pressupõe portugueses de primeira e portugueses de segunda e terceira. Como portugueses de primeira, teríamos os homens da finança com direitos especiais, com leis especiais. Como portugueses de segunda, teríamos a classe política, leais servidores destes últimos, e como portugueses de terceira teríamos então o sobrecarregado de sempre para arcar com os custos de tudo isto: aqueles que na verdade produzem o PIB, os trabalhadores da economia real.
O que é estranho em tudo isto, é que se trata de uma argumentação produzida por socialistas e não no reino da abundância mas da precariedade, já com uma crise de 6 anos em cima do corpo e da alma. Nesta atitude, estranha de um governo socialista, seguem-se então os piores exemplos no mundo da finança De resto um dos mais espetaculares exemplos dos homens que se consideram deuses e a quem tudo deve ser permitido é-nos dado por Mario Draghi em pleno período de austeridade. Um exemplo de alguém acima das normas, das normais douradas para eles, a Finança, e das normas espartanas para os outros. Como sublinhou o então senador Elio Lanutti numa interpelação ao Ministro das Finanças sobre o comportamento de Mario Draghi e este ganhava como Governador do Banco de Itália, (Banco independente como também é o Banco de Portugal onde trabalha esse especialista em bancos afundados, Carlos Costa) a pequena soma de cerca de 700.000,00 euros anuais sem os adicionais de reformas que também recebia enquanto pregava a imposição de austeridade e exigia a redução das reformas de pensão para os outros[2]. Lembram-se da caça às reformas dos mortos em nome da austeridade? Mas a austeridade é apenas para os outros, como mostra o comportamento de Mario Draghi, não para os homens da Finança.
Em matéria de austeridade, e para se perceber melhor a ganância de Draghi num contexto de forte tensão, devemos aqui referir que a Itália entre 2001 e 2015 perdeu relativamente à média europeia 20 pontos de capacidade de consumo por família, quando a Grécia perdeu 14 pontos e Portugal perdeu 6 pontos. Isto mostra a austeridade pura e dura a que a Itália tem sido sujeita. É neste quadro que deve ser analisado o comportamento de Mario Draghi, agora o grande regulador do sistema financeiro, a ganhar 700.000 euros por ano e ainda a acumular reforma do setor público enquanto exigia que políticas duras em termos de austeridade. Também aqui não podemos esquecer que Draghi é o homem que em 1992 terá negociado com a grande banca internacional a privatização do património produtivo italiano a quando da reunião dos 30 no iate Britannia da rainha Isabel II, quando era um alto funcionário do Tesouro italiano. Como se assinalou no texto nº 6 desta série intitulado Como é que a Itália foi vendida, no iate estavam alguns dos que pertencem à elite do poder anglo-americano, como a realeza britânica e os principais dirigentes dos grandes bancos a quem o governo italiano iria recorrer durante a fase de privatização (Merrill Lynch, Goldman Sachs, Salomon Brothers). Curiosamente este trabalho está por concluir e é assim que o jornal Fatto Quotidiano de 29 de Setembro de 2016 noticiava:
“Cai o véu sobre o fracasso das receitas esperadas resultantes das privatizações e estas descem de uma perspetiva de receitas no montante de 8 mil milhões para 1,6 milhões: – o ponto muito sensível é o rácio dívida / PIB, que “refletindo a menor intensidade de recuperação e a fraca dinâmica dos preços coloca o rácio da dívida pública relativamente ao PIB em 132.8% em 2016. Uma vez mais está a promessa de que este ” rácio vai diminuir a partir de 2017″. Pena é que por enquanto o programa de alienação de bens imobiliários públicos e as privatizações tenhas sido “travados pela alta volatilidade nos mercados financeiros e pela necessidade de valorizar adequadamente as empresas controladas pelo Estado através de planos industriais ambiciosos”. Segue-se a revisão em baixa das receitas estimadas para este ano em 0,5% do PIB (8 mil milhões) que descem assim para 0,1% do PIB, ou seja, para um quinto das receitas esperadas. O objetivo volta a ser de novo a que as receitas alcancem 0,5 do PIB, em 2017 e 2018.” Por outras palavras, é necessário acelerar o programa das privatizações em 2017 e 2018, no fundo a significar que está por concluir o trabalho de Draghi iniciado em 1992. E este trabalho deve ser aceleradamente concluído, ou seja, devem-se continuar com os preços de saldo dos bens que constituem o património público italiano[3].
Vejamos então a interpelação de Elio Lannutti ao Ministro da Economia e Finanças Giulio Tremonti, do PdL, do PDL, ministro da Economia e Finanças do IV Governo Berlusconi:
Texto de Elio Lannutti:
“O blog “Dagospia” publicou em 29 de setembro de 2011, um grande trecho do livro “Altre sanguisughe” – “Outros sanguessugas” de Salvatore Cannavò onde se lê: “a Itália orgulha-se da nomeação de Mario Draghi como presidente do Banco Central Europeu. Um cargo de prestígio, obtido através duma negociação complexa, apoiado pelo governo de Berlusconi e secundado por todas as outras instituições. Entre outras coisas, o governador do Banco da Itália também começou a mudar de posição, porque dos 757.714,00 euros que recebia pelo Istituto di via Nazionale iria descer para um valor que era menos da metade, cerca de 350 mil euros, que é a remuneração do Presidente do BCE, Jean-Claude Trichet. Além disso, Draghi é uma figura de autoridade, expressão de muito bom funcionário, uma qualificação para aqueles que se esforçam por servir o seu país e que nunca se poupou em defender a redução das despesas com as pensões, em aumentar a idade requerida para deixar de trabalhar, a ser contra os desperdícios e os privilégios. “Reduzir a dívida pública e garantir a sustentabilidade do sistema de segurança social deve ser o primeiro investimento do Estado em nome dos jovens e das gerações futuras”, disse ele durante uma audição na Comissão de Orçamento do Senado, em julho de 2007.
Draghi exortava então o governo de Prodi a agir com firmeza para completar a consolidação das contas públicas e para lançar a reforma do sistema de pensões, começando com o aumento gradual “da idade média efetiva para passar à reforma. Se não se interviesse, a despesa tornar-se-ia insustentável: é necessário escolher que taxa fiscal deverão pagar os jovens de hoje nos próximos 10 -15 anos para sustentar o sistema de pensões”. Bem dito. Draghi, intervinha naquela audição com pleno conhecimento do problema. Só no ano precedente, em junho de 2006, o Inpdap consignava-lhe o valor mensal da sua pensão: um valor bruto mensal em 14.843,56 como diretor da administração pública, e um valor líquido e limpo de 8.614,68. E ele estava com a veneranda idade de 59 anos, uma vez que Mario Draghi nasceu em 1947. Se com uma mão o novo Presidente do Banco Central Europeu estava a assinar documentos e relatórios técnicos, tudo sob a bandeira da crise das pensões, com a outra fazia que lhe entregassem uma quantia mensal que a nossa Maria não consegue receber nem sequer no espaço de um ano inteiro. Ainda que se trate de um direito adquirido, que não pode ser eliminado. Draghi aquele cheque ganhou-o ele. Justo. Mas será que não é possível entender que a acumulação de benefícios pagos pelo mesmo cofre, no caso pelo Estado, por conseguinte pelo dinheiro público, constitui uma flagrante injustiça? Especialmente quando se trata de cargos públicos, e em particular de figuras responsáveis por manter as despesas sob controlo e pela boa gestão das finanças públicas? Com efeito, será que Mário Draghi não está consciente deste massacre?”
Vale ainda a pena lembrar que, tanto quanto sabe o interpelante, no Banco da Itália sempre foram aplicadas com muito menos rigor as regras de ferro que em contrapartida são exigidas a todos os italianos. Tanto é verdade que as remunerações aumentam e em 2011 eram já 56 pensionistas baby com reformas de ouro que, uma vez obtida a rica renda vitalícia com todas as cláusulas de ouro, continuaram a exercer todo o tipo de atividades, pública e privada, acumulando rendimentos, com total desprezo pelo rigor defendido pelo respetivo organismo.
No livro citado, que é dedicado aos “políticos e parasitas do Estado que nunca faltam”, destaca-se como os frequentes apelos ao rigor feitos por Draghi estão em contradição com o estado e proveniência dos seus rendimentos;
Na opinião do interpelante, e no âmbito das políticas orçamentais restritivas, é escandalosa a exigência contínua de mais sacrifícios feita ao país e aos italianos pelo governador interino do Banco de Itália, enquanto ele, como governador do banco da Itália, tem ganho remunerações bem superiores às dos seus colegas de outros países europeus, juntamente com uma baby pensão dourada, e os funcionários do Instituto recebam em média uma remuneração bem acima dos 104.000,00 euros por ano e sejam financiados, às custas do contribuinte, nas suas atividades recreativas pós laborais. Na opinião do interpelante, são, portanto, incompatíveis, incoerentes e estranhos, à luz dos dados orçamentais, os apelos à ética da responsabilidade e ao “aperto do cinto”, para todos os outros trabalhadores do sector público, sobre os quais recairão os custos da crise económica e das manobras do governo”
Face ao que se acaba de ler, nada de espantar quanto ao comportamento de António Domingues, nada de espantar quanto à tomada de posição do governo português e do seu ministro das Finanças que teve o descaramento de vir defender salários deste tipo no contexto financeiro do nosso país. Seguem-se as pegadas do grande banqueiro Mario Draghi, que alguém já alcunhou de o Grã-Banqueiro da Europa. Nada de espantar portanto, com a nomeação de António Domingues ou outro, estamos pois numa situação de continuidade! Talvez de espantar, isso sim, seja o comportamento de muitos socialistas, incomodados por não ter passado a solução Costa-Centeno. Nenhuma questão quanto à lógica desta solução, nenhuma reflexão política ou laboral sobre o tema, nenhuma reflexão sobre os cerca de dez mil trabalhadores da Caixa que pelos vistos não terão ninguém com qualidades para fazer parte da nova Administração. Mas mais, na lista longa do Governo, tão longa que mais parecia um grupo fechado de amigos, havia gente tecnicamente tão boa ou tão má que parte dela foi rejeitada pelo BCE com o argumento espantoso: façam um curso de formação bancária. E já agora num escola neoliberal, o INSEAD, a escola outrora sob direção de um outro sanguessuga do país, o falecido António Borges. Sobre isso, sobre a crítica a tudo isto, dos socialistas nada ouvi. Incomodados apenas porque a opção não passou e porque essa aprovação era o fundamental e tudo o resto seriam assim velharias de um velho esquerdismo. O mesmo é dizer que validaram o discurso Costa-Centeno sobre a finança, sobre as elites, sobre a ignorância dos milhares de trabalhadores na Caixa. Pague-se à alta finança parece então ser o lema.
A opção não passou, depois de um vergonhoso folhetim. Indigência política pura. Escolhe-se pois um outro nome, uma outra solução, mas sempre à margem dos milhares de trabalhadores da Caixa, o mesmo é dizer escolhe-se uma outra opção de entre os homens que estão acima de todos nós, homens de exceção, que podem exigir leis de exceção, que podem exigir ordenados de exceção: o nicho de homens da alta finança. Na lógica pura do sistema, portanto. E escolhe-se então um homem que foi ministro bandeira do governo anterior, que fez a defesa mais acirrada da austeridade, para além do ministro das Finanças e do ignorante Nuno Crato que nunca ninguém viu falar num debate mais que escassíssimos minutos. Se o Nuno Crato destruiu das Universidades o que restava delas, se o ministro das Finanças Vítor Gaspar ajudou e muito a destruir a próxima década deste país, não é menos verdade que o novo Grande Gestor da Caixa Geral dos Depósitos ajudou a destruir o sistema de saúde deste país e de uma forma que levará possivelmente mais de uma década a refazer! Competências desfizeram-se, foram-se, levam anos a reconstituir.
Nada de espantar, portanto. Escolheu-se pois uma outra opção para a direção da Caixa mas uma opção determinada por dentro da lógica do sistema que nos levou à crise. Nessa opção o governo português seguiria pela mão do ministro Mário Centeno o comportamento de Mario Draghi, que alguém já alcunhou, como se disse, de O Grã-Banqueiro da União Europeia.
Os portugueses que não se espantem pois de outras coisas piores que depois terão de aceitar como inevitabilidades, se continuamos a mantermo-nos na mesma rota, ou seja que os homens da finança são homens de exceção. Inevitavelmente assim será.
Este foi o quadro que nos levou à edição da série A crise da Finança: o exemplo italiano. Pensámos acabar a série com o nº 31. Porém, os últimos três números da série, nºs 29,30 e 31, de títulos respetivamente:
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A banca no paraíso, os contribuintes no inferno: os resgatados pelo Estado enganam o fisco
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MONTE DEI PASCHI DI SIENA / Eis a bomba que nos chega da City de Londres
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O grande boom da maçonaria – assim muda a Maçonaria
constituíram para nós uma leitura trágica da situação italiana pela ilustração brutal de que a sociedade italiana ( e será só ela? ) vive prisoneira de um triângulo de forças que funciona com uma verdadeira tenaz sobre as sociedades: a Máfia, a Finança e a Maçonaria numa interligação que tem como efeitos, a captura da liberdade e o domínio imposto da precariedade[4]. Ferdinando Imposimato dias antes de eu ter concluído esta série tinha chamado a atenção para a inexistência de saída política da crise fora do Movimento M5S, porque a Itália navega num beco quase sem saída. Em oposição ao M5S temos Forza Italia, extrema-direita e apenas um pouco mais ao centro temos os partidos (ou apenas um partido com dois líderes?) de Berluscuoni e o de Renzi, possivelmente uma cópia um do outro. À esquerda deste lote, cujos líderes representam hoje o que são as hienas e os chacais no livro de Lampedusa, há apenas o Movimento 5 S de Beppe Grillo. No fundo, uma tragédia, é o que é hoje a situação politica italiana.
Por tudo isso, decidimos editar um texto como epílogo, como um olhar sobre a série e escolhemos um olhar de um homem de direita, o olhar de Eugenio Scalfari que escreveu o texto O Leopardo de Salinas é parecido com a Odisseia de Homero, tomando como base o filme de Visconti e o livro de Lampedusa. Um texto que nos fala de deserdados.
“O Leopardo é a força do poder ontem, hoje e sempre, mas especialmente nos tempos em que irrompe em toda a força o conflito entre o interesse privado e o da comunidade. Citei muitos nomes mas há um deles em falta e este é o personagem mítico que contém a modernidade. Homero, um nome também ele mítico que talvez nunca tenha existido, que a criou e Dante que a colocou no Inferno e lhe confere um destino dominado por duas forças: a coragem e a curiosidade: é a Odisseia, é Ulisses. O personagem é o herói moderno por excelência, a coragem, a curiosidade e a moralidade. O verso em que tudo isto mais se distingue é a exortação com que Dante o faz exprimir-se diretamente aos seus companheiros, quando por ele guiados num navio à procura de um futuro que paira ainda desconhecida no oceano onde ele e todos os seus companheiros se vão frente a uma misteriosa montanha: “não fui feito para viver como bruto / mas para prosseguir a virtude e o conhecimento”.
Veem A Odisseia dantesca abre para a modernidade que alterna a aventura à procura de um futuro com a tradição que nos liga, a todos nós, ao passado, onde as nossas raízes alimentam a árvore da nossa vida.”
Um fim comum também os une. Ulisses e Salinas ambos desaparecem, saíram para o desconhecido, deixaram-nos deserdados, é o que nos diz Scalfari.
Ulisses que depois da guerra de Troia voltou a Itaca e depois de ter vencidos os que aí lhe usurparam o poder, partiu e nunca mais voltou. Eis pois o lendário Ulisses da Odisseia que nos fala das nossas vidas, no bem e no mal, e no destino que está escrito nas nossas almas.
O conde Salina que depois de um jantar faustoso, rejeita o carro de aristocrata para regressar e vem a pé. No caminho encontra um padre e um sacristão que vão dar a extrema-unção a um camponês. Uma casa, um casebre, a luz amarela, a lembrar a cena final de Morte em Veneza. Um pobre a morrer, como muitos pobres agora morrem por esse Europa fora em nome da austeridade, em nome do pecado de terem vivido acima das suas posses, como nos dizem os alemães, mas simplesmente a morrerem como pobres de recursos, o que é bem diferente. Salinas ajoelha-se, levanta-se e tem como saída, como caminho o sentido da miséria do pobre a viver na casa para onde acabou de entrar o padre e a rua escura, uma viela que o leva talvez para muito longe, como Ulisses, isto é, a nenhures. Fixamos o olhar e aparece-nos a palavra FIM.
No contexto europeu presente em que o texto é escrito, diz-nos Scalfari: somos os deserdados de Ulisses da Odisseia que nos fala das nossas vidas, no bem e no mal, e no destino que está escrito nas nossas almas. Somos os deserdados de Salinas quando Salcafari nos diz:
“O Príncipe de Salina tinha dito que as pessoas como ele eram descendentes dos deuses e guardiães da sabedoria, da prudência, da autoridade, do poder e de uma visão do bem comum. Infelizmente não havia ninguém a quem deixar estas qualidades. O Príncipe de Salina não deixou testamento. Carregou com ele a nobreza e as contradições que esta contém.”
À direita do caminho por onde segue Salinas está uma casa banhada por uma luz amarela que vem de dentro, onde estarão simbolicamente os que estão a sofrer, para a frente está a viela escura, o desconhecido, o desconhecido por onde desaparece o Principe Salina, deixando-nos, e para trás, ficam no baile as hienas e os chacais, fica a burguesia nascente ou a aristocracia decadente, ficam os ambiciosos sem fronteiras e sem limites, de quem Salina se despediu. Estes vemo-los hoje representados pelos Renzi, pelos Berluscioni, pelos Napolitano, pelos Davide Serra, (principal financiador de Matteo Renzi e diretor de um Hedge Fund, um fundo especulativo com sede na City) pelos Roberto Nicastro do banco Unicredit, Federico Ghizzoni de Unicredit, Samuel Sorato do banco Popolare di Vicenza, pelo bando do banco MPS, ou seja, pelos Mussari, pelos Vigni, pelos Baldassarri ou de tantos outros mais, para não falar dos homens da Maçonaria, como Gustavo Raffi, como o Grã-Mestre atual que é, Stefano Bisi, companheiro de trabalho do supostamente assassinado David Rossi, como Riccardo Fusi, Denis Verdini, Licio Gelli e muitos outros mais. Falamos apenas de gente citada nesta série de textos.
Destes, das hienas e dos chacais deixados para trás pelo Principe Salina não tem a civilização nada a receber. Não esqueçamos porém que Eugenio Scalfari é um conservador. Para ele, e nisto é claro, os Garibaldi, da revolução e da identidade nacional, estão “ a manter vivo o sentido da revolução, mas em que ele pagou um preço que não esperava; o transformismo oportunista da classe dirigente.” Por outras palavras, a revolução também ela morreu, foi traída pelos seus dirigentes maiores ou menores, pelos sociais-democratas ou socialistas de pacotilha em nome do politicamente possível ou de um prato de lentilhas cujo valor monetário aparecerá inscrito num qualquer offshore.
Nada mais há a fazer, por este lado, na opinião de Scalfari, daí o peso dado ao conservador Principe Salina, com cujo modelo económico e social adaptado aos tempos de hoje Scalfari parece ainda estar a sonhar e a desejar. Por isso lamenta a morte do Príncipe Fabrizio Salina ou do que ele representa! Uma outra versão do fim da História tão perigosa como a primeira, como a de Francis Fukuyama cujas teses nos conduziram à situação presente. E as teses de Scalfari, por seu lado, levariam a perenizarão da situação presente, porque como definitivamente deserdados estaríamos desarmados dos instrumentos capazes de nos levar a responder ao estrangulamento económico e social presente e a libertarmo-nos das amarras a que Scalfari se refere, as hienas e os chacais de hoje que não são nada diferentes das de ontem, do que existia no tempo do Princípe Fabrízio Salina[5] .
Contrariamente a Scalfari, pensamos que não estamos deserdados nem de Homero nem de Lampedusa, nem de Ulisses nem de Fabrizio Salina, e muito menos dos valores que a estes personagens são atribuídos. Destes valores fomos apenas temporariamente saqueados, uma vez que os princípios a que se refere como estando na mão do Príncipe Salina são património da Humanidade, nascem e renascem continuamente com o homem, nascem e renascem com a vida de todos nós, nascidos ontem, hoje ou amanhã, e estão seempre, em termos do tempo na História, longo portanto, ao abrigo dos sistemas que os chacais e as hienas possam criar e recriar para os destruir definitivamente. Nunca foram, não são e nunca serão, portanto, uma propriedade dos senhores feudais ou a estes equiparados. E como é agradável saber que essa ideia nos vem dos Gregos, nos vem de Antígona, nos vem de Sófocles, que nos vem de um dos mais martirizados países do século XXI. Não estamos deserdados dos valores da sabedoria, da prudência, da autoridade, do poder e de uma visão do bem comum, o que pressupõe uma situação definitiva, estes valores estão é transitoriamente confiscados e os seus verdadeiros guardiães, os povos, estão politicamente silenciados e enganados por um simulacro de democracia instalado pelas elites europeias. Contra Scalfari, penso que estas características estão tão ancoradas na essência do homem que acabam por constituir o combustível da História e que, de tempos a tempos, as circunstâncias da história, dão coletivamente origem às revoluções, aos Spartacus, à força dos enciclopedistas franceses, aos homens da Revolução Francesa, aos Marx, às Rosa Luxemburgo, aos revolucionários de 1917 e a tantos outros que preenchem a memória viva dos movimentos de libertação do Homem. E estamos cada vez mais perto de uma dessas irrupções violentas e positivas da História, se soubermos agarrar as circunstâncias e evitar assim uma grande tragédia para a Europa, a Terceira em apenas um século.
Entre o pessimismo por opção política, o de Scalfari, e o idealismo como imperiosa necessidade de Ferdinando Imposimato, prefiro sempre este último. Estamos é certo numa curva trágica da História em que a própria consciência de classe parece estar a morrer, mas o homem é o que são as circunstâncias e com o agudizar da crise económica não podemos esquecer Hegel para quem muitas vezes o conhecimento, a consciência de si, vêm do próprio sofrimento. E a crise aí está, a tornar cada vez imperiosa a necessidade de mudança, afinal as circunstâncias e os efeitos por estas gerados, a poderem gerar uma outra consciência de classe capaz de varrer do mapa político os partidos de esquerda corruptos. E estes são tantos! Um longo trabalho é necessário. E há gente capaz de o fazer, é só uma questão de circunstâncias históricas.
Intelectuais como Domenico Mario Nuti[6], Fausto Pellecchia, Alberto Burgio, Alessandro Somma, Guglielmo Forges Davanzati, Gaetano Bucci, Michele Martelli, Giorgio Cremaschi, Nadia Urbinati, Gaetano Bucci, que destruíram a argumentação de Scalfari e de Renzi-Boschi a favor do Referendo de Renzi, hão-de crescer como cogumelos. Contra o fatalismo de Scalfari, tenhamos consciência de que o tempo de todos nós é curto e corre contra os novos Garibaldi’s. Saibamos protegê-los na sua capacidade de transformismo real é a nossa missão, saibamos assim evitar uma tragédia que de outra maneira se realizará, a da Terceira Morte da Europa, é então essa a nossa obrigação. Se o não fizermos, as lojas P3, P4, P5 (…)[7], verbalizadas por Corrado Guzzanti, tornar-se-ão uma realidade e dar-se-á razão a Scalfari e ao seu fatalismo, sendo então a morte do Ocidente enquanto Civilização que iremos presenciar. Inversamente, se apoiarmos com a toda a nossa força, os novos Garibaldi, se o fizermos, poderemos então fazer com que a paz e o progresso sejam realidades palpáveis e dizer então como disse Dickens em os Tempos Difíceis:
“Caro leitor: depende de ti e de mim que estas coisas aconteçam ou não, dentro das nossas áreas de ação. Pois bem, que aconteçam. Sentiremos o coração mais leve quando, sentados à lareira, a olhar para as brasas do nosso lume, as virmos transformarem-se em cinzas e a extinguirem-se”.
Falámos de Itália durante 31 longos textos. Porém, poderíamos estar a falar de França. Espanha, Portugal ou um qualquer outro país na Europa. É só mudar os nomes. A realidade é a mesma.
E assim com o texto seguinte de Scalfari concluímos a série sobre A crise da finança- o caso italiano. Espero que tenham apreciado.
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Em forma de conclusão
Segue o texto de Eugenio Scalfari :
O Leopardo de Salinas é parecido com a Odisseia de Homero
O principe de Salina e o herói de Homero não têm nada em comum, mas ambos falam do nosso destino

Há alguns dias atrás vi o filme “O Leopardo”, de Luchino Visconti, de que sempre gostei não só como espetáculo mas ainda como o espelho histórico do nosso Renascimento. Tudo está lá: a casta militar, o Piemonte, que conquistou a Itália, Garibaldi com os seus voluntários a manter vivo o sentido da revolução, mas em que pagou um preço que não esperava; o transformismo oportunista da classe dirigente. E depois há o desejo de conservação que incentiva a apetência pela tomada do poder, mas sem que se sujem as mãos. ” Somos eternos como os Deuses”, diz a certa altura no filme o Prince de Salina que é o protagonista de toda a história. Ele expressa a força do establishment que governa de longe e é o próprio espírito do poder.
Esta é a beleza do filme e a sua força: o poder, sempre e em toda parte, o comando dos poucos sobre muitos, a política como a têm visto e descrito os grandes homens de cultura, literatura, poesia e política, de Dante a Maquiavel, a Guicciardini, a Montaigne, Cervantes, Shakespeare. E depois há o Iluminismo de Diderot, Voltaire, Mazzini, Cavour. Mas a lista não termina aqui, é infinitamente mais rica, é a escola inglesa de Adam Smith, isto é, Hobbes, Hume e Rousseau. Estamos no final do século XIX e do chamado século curto, mas, na realidade, longuíssimo, é o século XX de Rilke a Pessoa e a Thomas Mann.
O Leopardo é a força do poder ontem, hoje e sempre, mas especialmente nos tempos em que irrompe em toda a força o conflito entre o interesse privado e o da comunidade. Citei muitos nomes mas há um deles em falta e este é o personagem mítico que contém a modernidade. Homero, um nome também ele mítico que talvez nunca tenha existido, que a criou e Dante que a colocou no Inferno e lhe confere um destino dominado por duas forças: a coragem e a curiosidade: é a Odisseia, é Ulisses. O personagem é o herói moderno por excelência, a coragem, a curiosidade e a moralidade. O verso em que tudo isto mais se distingue é a exortação com que Dante o faz exprimir-se diretamente aos seus companheiros, quando por ele guiados num navio à procura de um futuro que paira ainda desconhecida no oceano onde ele e todos os seus companheiros se vão frente a uma misteriosa montanha: “não fui feito para viver como bruto / mas para prosseguir a virtude e o conhecimento”.
Veem A Odisseia dantesca abre para a modernidade que alterna a aventura à procura de um futuro com a tradição que nos liga, a todos nós, ao passado, onde as nossas raízes alimentam a árvore da nossa vida.
Poderemos todos nós perguntar neste momento o que tem a ver a Odisseia com o Leopardo de Salina? Para mim, tem muito a ver um com o outro. O Ulisses de Dante não coloca a questão do poder, mas a Odisseia de Homero coloca-a e essas são as suas raízes. Itaca, a ilha de onde saiu como um guerreiro para conquistar Troia, o cavalo falso com os seus companheiros escondidos na sua barriga e em que, quando dela saíram abriram então as portas da cidade para os camaradas gregos dirigidos por Aquiles desencadearem um massacre total sobre os troianos. Dez anos durou a guerra, dez anos durou a sua viagem de ida, dez anos durou a de volta. A chegada a Itaca começou com outro massacre que exterminou todos aqueles que na sua ausência se tinham instalado no poder, usurpando-o. Mas alguns dias depois, ele partiu e nunca mais voltou. Eis pois o lendário Ulisses da Odisseia que nos fala das nossas vidas, no bem e no mal, e no destino que está escrito nas nossas almas.
O Leopardo fala-nos, também ele, do nosso destino, a do Príncipe de Salina, do seu sobrinho Tancredi e da sua mulher Angélica, o da Itália unida e das contradições que cada um comporta em si-mesmo. Nós somos um país que é descendente de um império mundial, que começou há mais de dois mil anos atrás, quando a Roma republicana derrotou Cartagena, conquistou a Grécia e dela absorveu a cultura e até mesmo a língua de que nasceu o latim. Um império que durou meio milênio, um legado muito pesado, através de múltiplos acontecimentos que constituíram a premissa da nossa modernidade e a da Europa e do Ocidente.
Outros impérios se lhe sucederam e destes, dois deles são bem particulares. O Império Britânico e o americano. As classes dominantes sucederam-se, umas às outras, e é aqui que está a origem das contradições da modernidade. A nossa riqueza e o nosso tormento.
O Príncipe de Salina, no retorno de um faustoso jantar e de ter dançado com a sua nora Angelica, crê estar perto do fim da sua vida. Vê passar à sua frente, no caminho a pé para a casa e a meio da noite, um pequeno grupo composto por um sacerdote vestido de preto e um jovem sacristão que o acompanha, para levar a extrema-unção a um moribundo. O Príncipe ajoelha-se e, depois, levanta-se seguindo por uma ruela escura de onde deixamos de o ver. Aparece a palavra FIM.
O Príncipe de Salina tinha dito que as pessoas como ele eram descendentes dos deuses e guardiães da sabedoria, da prudência, da autoridade, do poder e de uma visão do bem comum. Infelizmente não havia ninguém a quem deixar estas qualidades. O Príncipe de Salina não deixou testamento. Carregou com ele a nobreza e as contradições que esta contém.
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