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Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado: uma exposição e uma análise crítica Parte IV – A titularização como meio para continuar na trajetória da crise – 9. Propostas de reforma dos bancos da UE que são ligeiros retoques do sistema bancário existente. Por Myriam Vander Stichele

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640
Jan Brueghel the Younger, Satire on Tulip Mania, c. 1640

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota  

Parte IV – A titularização como meio para continuar na trajetória da crise

9. Propostas de reforma dos bancos da UE que são ligeiros retoques do sistema bancário existente.

 

Por Myriam Vander Stichele

Publicado por   em 19 de abril de 2017

Este artigo é baseado numa análise feita por Finance Watch, que pode ser vista aqui.

A nível internacional e ao nível da UE, as novas reformas bancárias estão a ser introduzidas para evitar as práticas que contribuíram para a crise financeira de 2008, mas na verdade até agora não essas práticas não foram reformadas. No geral, as medidas propostas parecem ser ligeiros retoques da legislação vigente que, na verdade, não protegem os cidadãos da instabilidade financeira e dos resgates bancários, como passaremos a explicar.

Ao mesmo tempo a proposta de reforma feita pela UE, que já vem de longa data, para garantir que os bancos demasiado grandes para poderem falir nunca devem ser resgatados com dinheiro dos contribuintes, a diretiva sobre a Reforma Estrutural do Setor Bancário (BSRD), tem pouca possibilidade de ser aceite. Os Ministros das Finanças da UE e o Parlamento Europeu não conseguiram chegar a acordo sobre o modo como os serviços bancários básicos deveriam ser separados das atividades especulativas dos bancos (dividir os bancos nunca foi uma opção política). Alguns países introduziram a sua própria legislação, mais fraca (França, Alemanha) ou mais forte (Reino Unido) do que a da UE.

O pacote de reformas

A finalidade principal de um novo pacote de reformas do setor bancário da UE, que tem estado em discussão desde novembro de 2016, é a de assegurar que: (1) os maiores bancos que possam potencialmente pôr o sistema financeiro em risco tenham reservas prudenciais de capital mais elevadas e (2) que os bancos tenham menos meios para manipularem o nível das reservas prudenciais a que estão obrigados. Em 2008, a crise financeira agravou-se rapidamente porque os bancos tinham reservas prudenciais de capital baixas, porque contraíam demasiados empréstimos e concediam demasiados créditos (“poder de alavancagem alto”). Uma vez que os bancos europeus ainda não têm reservas prudenciais de capital suficientemente altas — embora estejam em conformidade com a lei vigente — eles têm praticado um lóbi fortemente agressivo para se reduzirem as novas exigências de capitais próprios mais elevados.

A questão fundamental para os bancos é: quanto mais baixo puderem ter as reservas de capital para acompanhar os empréstimos que concedem, mais poderão emprestar e aumentar os seus lucros. Os atuais níveis de reservas prudenciais de capital dos bancos da UE significam que estes não são ainda suficientemente robustos para suportar a instabilidade financeira e ultrapassar o problema de terem cerca de um milhão de milhões em concessão de empréstimos de má qualidade que os impedem de concederem mais empréstimos. As discussões políticas começaram sobre como é que estes bancos se podem desfazer e vender estes maus créditos.

Os elementos principais das propostas de reforma bancária na União Europeia são:

A proposta legal da UE que inclui os elementos acima mencionados (o “pacote bancário”) está a ser revista atualmente em paralelo pelo Conselho de Ministros (ECOFIN) e pelo Parlamento Europeu (comité de ECON), e poderia acabar por ficar ainda mais enfraquecida se for finalizada num texto legal de compromisso mais tarde em 2017. Este pacote de reformas bancárias insere os novos elementos nas leis existentes (Diretiva relativa aos requisitos de fundos próprios/Regulamento relativo aos requisitos de fundos próprios (CRD IV/CRR), a Diretiva de Recuperação e Resolução Bancárias (BRRD), o Regulamento do Mecanismo Único de Resolução (SRM). Para explicações adicionais, veja, entre outros, este comunicado de Financial Watch intitulado EU Banking Reform: The worrying “sotto voce” of the European Commission (A reforma bancária da UE: a preocupante “voz em sussurro” da Comissão Europeia).

Discussões sobre a reforma bancária a nível internacional e nos EUA

A nível internacional, o Comité de Basileia de Supervisão Bancária está a ponderar como limitar a utilização dos modelos dos próprios bancos para calcular os riscos dos empréstimos futuros (isto é, a abordagem baseada nos “ratings internos dos bancos” – IRB).

Muitos estudos oficiais mostraram que os bancos abusaram na utilização dos seus próprios modelos de avaliação de risco para minimizarem o capital que seria necessário reter contra vários tipos de créditos concedidos, isto é, que cada banco avaliava de modo diferente o mesmo tipo do empréstimo.

Isto conduziu a um enorme conflito UE-EUA sobre os padrões de referência potenciais/novos padrões de referência internacionais para limitar a diferença entre o modelo padrão da avaliação de risco e os modelos usados internamente pelos bancos. Os bancos europeus temem que se venham a tornar menos competitivos porque terão que deter mais largas reservas de capital para as hipotecas do que os bancos americanos, que podem liquidar os seus créditos hipotecários a instituições oficiais. Contudo, o verdadeiro problema é que os bancos da UE ainda não detêm suficientes reservas em capital. O perigo é que os bancos da UE aumentem as operações de titularização, que neste momento ainda não estão a ser reguladas, embora elas tenham sido determinantes no provocar da crise financeira em 2008!

Nos EUA, a administração Trump e os grandes bancos americanos como JP Morgan estão a propor medidas para mudar as leis americanas existentes de modo a que aos bancos seja exigido deterem menos reservas em capitais. Eles argumentam que isto resultará em mais concessão de empréstimos às empresas e criará novos postos de trabalho, o que levantou já um enorme debate. Como vimos no G20 em Baden-Baden, os EUA mostraram-se igualmente relutantes em desenvolver reformas financeiras a nível internacional.

 

Texto disponível em https://www.somo.nl/light-touch-reform-proposals-eu-banks/

 

 

 

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