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Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado: uma exposição e uma análise crítica Parte IV – A titularização como meio para continuar na trajetória da crise – 4. Dez anos depois – O pacote legislativo de 2017 sobre o sistema bancário: um passo à frente, dois passos atrás (2ª parte). Por Christian M. Stiefmüller (Finance Watch)

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640
Jan Brueghel the Younger, Satire on Tulip Mania, c. 1640

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota 

Parte IV – A titularização como meio para continuar na trajetória da crise

4. Dez anos depois – O pacote legislativo de 2017 sobre o sistema bancário: um passo à frente, dois passos atrás (2ª parte).

 

 

 

Por Christian M. Stiefmüller, Analista

Publicado por Finance Watch, em junho de 2017

 

(2ª parte)

B. Observações gerais

1. O particularismo europeu: uma narrativa questionável

A proposta legislativa da Comissão Europeia incorpora importantes novas normas internacionais no direito europeu. No entanto, em vários casos, a redação proposta desvia-se do padrão internacional ou contém importantes exceções. A Comissão propõe, por exemplo, ajustamentos quanto ao âmbito ao cálculo e à calibração do rácio de alavancagem, do rácio de financiamento liquido estável e das regras de risco de mercado, argumentando que estes ajustamentos são necessários para responder às especificidades das instituições da União Europeia e da sua economia. O objetivo declarado desses ajustamentos é “apoiar maiores empréstimos à economia e atenuar potenciais desincentivos relacionados com o funcionamento eficiente dos mercados de capitais(1). Esta é, naturalmente, a linha que foi colocada com enorme pressão pelo setor bancário nos últimos meses, mas não tem nenhuma base de sustentação face aos factos:

 

Já hoje a UE é a única jurisdição que foi considerada “materialmente não conforme ” com os padrões internacionais pelo Comité de Basileia (10). Afastar-se e diluir os padrões acordados internacionalmente, somente levantaria mais dúvidas sobre as condições atuais e sobre a resiliência do setor financeiro na Europa e enfraqueceria a posição da UE nas negociações multilaterais atuais e futuras. Os legisladores da UE devem resistir à pressão para recuar nos compromissos internacionais em nome de questionáveis vantagens de curto prazo.

Finance Watch partilha o objetivo da Comissão de promover empregos, crescimento e investimento. Mas o crescimento a curto prazo não pode, e não deve, ser feito à custa da estabilidade financeira a longo prazo. No seu recente relatório sobre a estabilidade financeira global, o FMI adverte que apenas um forte quadro internacional “sustentará a estabilidade financeira e garantirá que o sistema financeiro possa apoiar a economia real nos bons e maus momentos… A não conclusão da agenda global de reformas poderia corroer o consenso já alcançado. E isso poderia encorajar uma míope reversão e acelerar a concorrência para flexibilizar a regulação com o argumento de que o crescimento continua a escapar a muitas das economias avançadas (11).

 

(continua)

Texto disponível em http://www.finance-watch.org/ifile/Publications/Reports/Finance-Watch-Policy-Brief-June-2017.pdf

 

Notas

(1) European Commission, Frequently Asked Questions: Capital Requirements (CRR/CRD IV) and Resolution Framework (BRRD/SRM) Amendments (MEMO/16/3840), 23 November 2016; http://europa.eu/rapid/pressrelease_MEMO-16-3840_en.htm

(2) European Central Bank, Euro Area Bank Lending Survey: Fourth Quarter of 2016, 17 January 2017; https://www.ecb.europa.eu/stats/pdf/blssurvey_201701.pdf

(3) European Central Bank, Survey on the Access to Finance for Enterprises (SAFE): April to September 2016, 30 November 2016;  https://www.ecb.europa.eu/pub/pdf/other/accesstofinancesmallmediumsizedenterprises201611.en.pdf

(4) Since October 2014 access to finance has been, on average, the least important concern of Euro area SMEs. In the latest SAFE survey (April – September 2016), SMEs confirmed, for the fourth time in a row, a net increase in the availability of bank loans and the willingness of banks to provide credit at lower interest rates.

(5) European Systemic Risk Board, Vulnerabilities in the EU Residential Real Estate Sector, 28 November 2016; https://www.esrb.europa.eu/pub/pdf/reports/161128_vulnerabilities_eu_residential_real_estate_sector. en.pdf

(6) OECD, Interim Economic Outlook – March 2017,07 March 2017; http://www.oecd.org/eco/outlook/Willrisks-derail-the-modest-recovery-OECD-Interim-Economic-Outlook-March-2017.pdf

(7) e.g. European Systemic Risk Board, Market Liquidity and Market-Making, October 2016; www.esrb.europa.eu/pub/pdf/reports/20161005_market_liquidity_market_making.en.pdf; Autorité des Marchés Financiers, Study of Liquidity in French Bond Markets, November 2015; http://www.amf-france.org/en_US/Reglementation/Dossiers-thematiques/Societes-cotees-et-operations-financieres/Marches-obligatoires/Etude-marche-obligataire.html; see also: Adrian, Tobias, et al., Market Liquidity after the Financial Crisis, Federal Reserve Bank of New York Staff Report No. 796, October 2016 (rev. January 2017); https://www.newyorkfed.org/medialibrary/media/research/staff_reports/sr796.pdf?la=en; International Organization of Securities Commissions, Examination of Liquidity of the Secondary Corporate Bond Markets: Consultation Report CR01/2016, August 2016; https://www.iosco.org/library/pubdocs/pdf/IOSCOPD537.pdf; Bank for International Settlements, Fixed Income Market Liquidity, CGFS Publications No 55, January 2016; http://www.bis.org/publ/cgfs55.pdf

(8) European Commission, Accelerating the Capital Markets Union: Addressing National Barriers to Capital Flows, Report from the Commission to the Council and the European Parliament, COM (2017) 147 final, 24 March 2017; https://ec.europa.eu/info/files/170227-report-capital-barriers_en

(9) Fender, Ingo / Lewrick, Ulf, Adding It All Up: The Macroeconomic Impact of Basel III and Outstanding Reform Issues, BIS Working Papers No. 591, November 2016;  http://www.bis.org/publ/work591.pdf

(10) Basel Committee on Banking Supervision, Regulatory Consistency Assessment Programme (RCAP): Jurisdictional Assessments, April 2017; http://www.bis.org/bcbs/implementation/rcap_jurisdictional.htm; Non-compliance with the Basel framework relates primarily to CRR capital adequacy rules for derivatives and certain other credit exposures; cf. Basel Committee on Banking Supervision, Regulatory Consistency Assessment Programme (RCAP): Assessment of Basel III Regulations – European Union, December 2014; http://www.bis.org/bcbs/publ/d300.pdf

(11) International Monetary Fund, Global Financial Stability Report: Getting the Policy Mix Right, Washington D.C., April 2017, pg. 43  http://www.imf.org/external/pubs/ft/gfsr/2016/01/

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