A responsabilidade da esquerda na trajetória de ascensão do neoliberalismo – algumas grelhas de leitura: 9. A leitura de Edward Luce – A era Clinton-Obama termina, uma vez que os democratas americanos procuram uma nova voz radical

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

9. A era Clinton-Obama termina, uma vez que os democratas americanos procuram uma nova voz radical

O partido tem uma dívida de gratidão para com Donald Trump, pois afasta para longe uma mentalidade cautelosa e calculista.

Edward Luce Por Edward Luce

Publicado por Financial Times em 13 de janeiro de 2019

Republicado por Gonzallo Raffo InfoNews em 22 de janeiro de 2019

texto 2 são os russos os culpados pela eleição do monstro político donald trump 6

 

Ouçam com atenção e poderão ouvir a recuo do establishment democrata. O incrementalismo serviu os seus objetivos: tornou os democratas novamente elegíveis e seguros para Wall Street. Mas isto já teve a sua época. A geração de democratas que minimizou as preocupações com a desigualdade e defendeu os mercados globais está a ser substituída por uma voz política muito mais ousada. Independentemente de quem assuma a nomeação democrata em 2020, eles falarão por um partido radicalizado em busca do novo New Deal.

Eles têm uma dívida de gratidão para com Donald Trump. Por mais que muitos renascidos liberais detestem o 45º presidente dos Estados Unidos, eles podem agradecer-lhe pelo facto de os ter levado a eliminar a mentalidade de cautela e de calculismo sistemático que tem hipnotizado os líderes democratas de toda uma geração.

Este tipo de comportamento agora sacudido começou com os Novos Democratas de Bill Clinton no final da década de 1980. Terminou em 2016, quando Hillary Clinton perdeu para Donald Trump. Entre eles, Al Gore, o candidato perdedor de 2000, John Kerry, que perdeu em 2004, e Barack Obama, cujo legado de oito anos está agora a ser destruído por Trump.

Donald Trump serviu tanto como um apelo às armas como um exemplo de como os establishments podem ser derrotados. No primeiro caso, Trump demoliu tudo o que restava da ideia de que os Democratas têm de se preparar para sempre para uma terra prometida de amizade bipartidária. Na prática, muitos pensavam que essa posição já tinha sido desacreditada por Newt Gingrich, o implacável Presidente Republicano da Câmara dos Representantes da época de Clinton. Outros pensavam que a capacidade demolidora que o Tea Party trouxe face aos planos orçamentais de Obama tinha finalmente resolvido o argumento.

Por muito que os democratas se tenham virado para o centro, as recompensas por esta virtude nunca chegaram. Os republicanos simplesmente deslocaram-se sempre mais para a direita. Os presidentes democratas, como Clinton, criaram excedentes orçamentais. Os republicanos, como George W. Bush, gastaram-nos completamente em reduções de impostos. A desigualdade é hoje muito pior do que em 1992, apesar de os democratas terem detido a Casa Branca durante mais de metade desse tempo. Entretanto, os rendimentos médios mal se alteraram. A raiva inicial pela crise financeira de 2008 foi captada pelo Tea Party. No entanto, é difícil acreditar que o autoproclamado socialista Bernie Sanders alguma vez teria quase derrotado a Sra. Clinton se esta não tivesse desenvolvido fortes laços financeiros com Wall Street.

Mas foi Trump que mudou o tempo. Ele mostrou que qualquer um de nós poderia enganar um establishment hostil e ainda ganhar-lhe uma eleição. Depois, ele trocou de cavalo e prosseguiu uma agenda republicana agressiva. Desde cortes de impostos e desregulamentação financeira até aos direitos de posse de armas e juízes anti-aborto, Donald Trump agora tem legisladores republicanos a virem comer à sua mão. Aqueles que ainda acreditavam que seria possível trabalhar com as pessoas politicamente do outro lado – e que esperavam ainda pelos dias dos republicanos de Rockefeller – foram privados animicamente de toda e qualquer disponibilidade que ainda lhes restava. Donald Trump prestou um bom serviço à esquerda americana.

A realidade também lhe deu uma ajuda. Independentemente da sua ideologia, os números de hoje pintam um quadro austero. Dez anos após a recuperação dos EUA, os rendimentos médios das famílias são, em termos reais, muito semelhantes ao que eram em 1999. O grupo dos 1% dos agregados familiares de topo possui mais riqueza do que os 90 por cento de base. A esperança média de vida na América começou a diminuir.

Donald Trump agravou a desigualdade. Mas não é ele o seu autor. Os números eram quase tão sombrios no final dos dois mandatos de Obama. Por isso, remendar já não é muito apelativo.

Muita da atenção está em quem deve ser o candidato democrata para desafiar Donald Trump. Isso é obviamente importante. Mas o importante é que o centro de gravidade do partido mudou. Seja quem for o candidato, seja Joe Biden, o antigo vice-presidente, Elizabeth Warren, a populista em economia, Beto O’Rourke, o optimista solarengo, ou Sanders, a sua plataforma terá de refletir essa mudança. Posições como “Medicare for all”, ou um “Green New Deal”, e o financiamento de eleições públicas terão de fazer parte do pacote. Assim também irão aumentar os impostos.

Também foi dada atenção a Alexandria Ocasio-Cortez, a democrata socialista de 29 anos e o elemento mais jovem do Congresso. Mais notável é o respeito que as suas ideias, nomeadamente uma taxa máxima de imposto de 70 por cento, inspiram nos democratas estabelecidos. “A congressista tem razão”, disse Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro de Clinton, na semana passada. Lawrence Summers personificou o consenso de Washington da década de 1990. Como Keynes, porém, ele diz que muda de ideias quando os factos mudam. Elas não se encaixam mais no arco de história que os democratas costumavam narrar. “As falsas doutrinas do sacerdócio neoliberal estão a perder o seu domínio”, escreve Nick Hanauer, o empresário que fez fortuna com a Amazon.

A esquerda americana está a transformar-se numa fábrica de novas ideias. Algumas delas, como um rendimento básico universal, podem ser questionáveis. Outras, como o desmantelamento dos monopólios, são mais promissoras. De qualquer forma, pela primeira vez em décadas, a energia intelectual da América está agora à esquerda. Alguns comparam o fermento à “ousada experimentação persistente” de Franklin Roosevelt, autor do New Deal dos anos de 1930. Os céticos comparam a atual situação com o falso amanhecer de George McGovern, que perdeu por esmagadora maioria em 1972 a favor de Richard Nixon. Qualquer que seja o ponto de vista que se revele correto, a era Clinton-Obama está a chegar ao fim. Uma nova era está apenas a começar.

Ver aqui o texto original.

O autor: Edward Luce (1968-), é um jornalista inglês e comentador chefe para os EUA do Financial Times, sediado em Washington D.C. Licenciado em Filosofia, Política e Economia pelo New College, Oxford. É autor dos seguintes livros: In Spite of the Gods: The Strange Rise of Modern India (Little, Brown, 2006,); Time To Start Thinking: America and the Spectre of Decline (Little, Brown, 2012, publicado com título diferente na América do Norte: Time to Start Thinking: America in the Age of Descent);The Retreat of Western Liberalism, (Little, Brown, 2017.

 

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