APRESENTAÇÃO DO ARGONAUTA ANTÓNIO SALES

António Sales nasceu em 1936 em Torre Vedras. Diz sobre a infância e adolescência: «Naquele tempo crescia-se nas ruas jogando a bola, andando de bicicleta, rodando o pião, manobrando a fisga como arma de defesa e ataque».(…). Torres Vedras ensinou-me a ver e viver o mau e o bom, praticar ambos e escolher depois o meu caminho. Nos cafés aprendi a jogar bilhar e xadrez, fiz teatro nas colectividades, dancei paso-dobles e tangos, pratiquei desportos inclusive de pancadaria.» (…) « Iniciei-me a escrever no jornal da terra (Badaladas) com o cinema por temática, a colaborar no teatro, a imaginar cultura. Estudava pouco do que devia e muito do que não devia. Meu pai, coitado, não entendia esta anacrónica atitude. Concluído o quinto ano do liceu pedi-lhe para ir trabalhar em vez de gastar o seu dinheiro sem resultado. Foi uma decisão séria, tomada a sério, pelo acabei com o folclore. Estava escolhido o meu caminho».

Começou a escrever com 17 anos, foi colaborador de revistas, escrevendo sobre cinema. Em 1956, foi um dos fundadores do Cineclube de Torres Vedras. Diz: «O momento era o dos cineclubes com quem o Secretariado Nacional da Informação (SNI) não simpatizava, mas engolia. Eu andava a escrever em revistas de cinema como a “Visor”, “Imagem”, etc. e fazia crítica na “Vértice”. Fui conhecendo gente da área, uns já se foram das canetas e outros arrastam por aí a velhice. Foram eles (José Ernesto de Sousa, Henrique Espírito Santo, José Fonseca e Costa, Vitoriano Rosa) que me entusiasmaram a fundar em Torres Vedras um cineclube ».Entre 1961 e 1964, coordenou um “Suplemento Cultural” no jornal “Badaladas”. Interessou-se também por teatro e levou à cena “O Doido e a Morte” de Raul Brandão. «Pelo caminho editara o primeiro livro: “Diário de um Espectador de Cinema” (1961), ingénuo e fraquito. Enfim, um devaneio… Em seguida o pequeno caderno de contos “A Primeira Manhã”(1964), Publicações Imbondeiro (Sá da Bandeira – Angola), dirigidas por Garibaldino de Andrade e Leonel Cosme. Neste entretanto casei-me e fui pai de uma menina. »

Em 1964 trabalhou numa editora de Lisboa, Em 1972 criou, com dois sócios, uma agência publicitária, actividade em que, a partir de então, se profissionalizou: «Farto de me chatear com patrões decidi eu próprio tornar-me um deles juntando-me com dois colegas e montando uma agência de publicidade. Teso que era, fui pedir dinheiro emprestado para realizar a quota e entrar na aventura. Quando chegou o 25 de Abril de 1974 a empresa levava seis anos e estava a dar o salto para subir a outro patamar. Trambolhou mas não morreu pelo que após o 11 de Março camaradas do ramo (camaradas é o termo exacto) planearam nacionalizar as agências substituindo-as por uma única (método Lenine). Era o capitalismo na agonia, diziam quando me procuraram e me ofereceram um lugar de topo se aderisse com a minha empresa. Patrão fui, patrão sou, patrão serei».

Durante 15 anos, publicou crónicas semanais no diário «A Capital». «O meu primeiro romance “Uma longa e Estranha Pausa” (1970) surgiu aos 34 anos, narrativa desenvolvida ao estilo de visualização cinematográfica».(…) «em 1972 apareceu “Barcelona, Cidade na Catalunha”, modesta homenagem à cidade e aos catalães., Requiem pelos fiéis defuntos, (1976), contos inspirados nos que viveram os tempos do fascismo. Recorramos mais uma vez ao testemunho de Sales: «Assim fui vivendo e guardando emoções e ideias, numa gaveta do cérebro, como se fossem latas de conserva. Um dia o raio da gaveta abriu-se e escrevi de uma pernada “Corpo Enigmático” (1993), logo de seguida o segundo romance, “Uma Mulher no Papel” (1996), há mais de 20 anos a passear dentro de mim como um fantasma. Por esta altura o destino aplicou-me um golpe que me levou ao tapete. Surge-me então, vinda do fundo dos tempos da adolescência, a memória das poesias do António Botto e o livro que me havia de ajudar a recomeçar tudo de novo: “António Botto, real e imaginário”(1997).(…)«Passei em seguida a escrever avulso por aqui e por ali, mas havia ainda um livro cabeça que exigia grande e demorada pesquisa e desejava concretizá-lo nos primeiros anos do século XXI. Tratava-se de escrever a memória humana da minha cidade com as alegrias e os dramas de sucessivas gerações, os actos que marcaram o seu desenvolvimento, a história das grandes polémicas, rivalidades, fortunas e misérias que ditaram tragédias. A feira, o cinema, o teatro, a fé, a política, a imprensa, a luz eléctrica, a vida que teria percorrido a minha terra natal durante todo o século XX. Foi deste modo que nasceu “Os Guardadores do Tempo” (2007) e depois o “Roteiro Turístico de Torres Vedras (2008)».

E António Sales termina assim o seu texto auto-biográfico: «Deste modo simples um homem vivera os dias da sua vida exterior podendo através deles traçar o seu auto-retrato. Este era o publicável porque o outro, interior, aquele que é meu companheiro secreto, desconheço onde se guarda: no cérebro, no coração ou na alma. Mas existe. Reside em mim e em mim viverá até ao fim dos meus dias.»

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