Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte I – O básico na finança de hoje – 1. Finance Watch, os transfugas rebeldes da finança, por Sandrine Warsztacki.

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte I – O básico na finança de hoje

1. Finance Watch, os transfugas rebeldes da finança

Por Sandrine Warsztacki, em 11/02/2013

 

Recentemente ouvida sobre o projeto de reforma do setor bancário do governo, esta associação sediada em Bruxelas encarna o contra-poder do lobi financeiro. Com uma equipa composta essencialmente por antigos profissionais que um dia decidiram mudar-se para o outro lado…

parte I rebeldes finance watch

Os escritórios da organização Finance Watch estão situados no terceiro andar de um destes edifícios de arquitetura modernista que rodeiam a Praça de Meeûs em Bruxelas, às vezes referida como os “Champs-Élysées dos lobis”. No fim da rua de Luxemburgo, a dois passos dali, ergue-se a silhueta maciça do Parlamento europeu. Os poucos bares e restaurantes chiques, frequentados tanto por muitos dos funcionários europeus como pelos representantes dos grupos de pressão, trazem um toque de animação a este bairro administrativo.

Estima-se entre 700 e 1.000 o número de pessoas instaladas em Bruxelas para defender os interesses do sector bancário e financeiro. Fundada na sequência de um apelo lançado em junho de 2010 por 22 deputados europeus, por iniciativa do eurodeputado Pascal Canfin dos Verdes, que depois se tornou ministro delegado do Desenvolvimento do governo Ayrault, Finance Watch, com os seus onze membros permanentes, constitui o único contrapeso a este potente lobi.

De um lado, uma associação financiada pela União europeia, pelas contribuições dos seus membros (ONG, sindicatos, associações de consumidores…) e de donativos de particulares, dispondo de um orçamento total um pouco acima de 2 milhões de euros. Do outro, a indústria financeira, que gastaria 300 milhões de euros anuais para influenciar os debates a seu favor.

“Greenpeace da finança”

Com as suas tomadas de posição para a substituição do sistema atual de notação, sistema de rating, pelo enquadramento da negociação em alta frequência ou, mais recentemente, na defesa de uma regulação apertada sobre os índices de referência, Finance Watch começa a fazer que se fale cada vez mais dela nos meios de comunicação social, que a rebatizaram “a Greenpeace da finança”

Um título que se lhe adequa apenas por metade. Não se encontrará aqui nem os banqueiros convertidos à anti-globalização nem ativistas prontos para se acorrentarem nos degraus que dão à Bolsa.

Aparentemente, nada distingue estes peritos de fato-gravata de qualquer vizinho lobista  e os longos relatórios, redigidos à força de horas suplementares, constituem o seu principal modo de ação, frequentados por responsáveis políticos: o secretário geral de Finance Watch, Thierry Philipponnat, foi, de resto, ouvido na Assembleia nacional em Paris, no âmbito do exame do projeto de lei bancária, que chega ao hemiciclo deste Parlamento no dia 12 de fevereiro.

À semelhança deste último, que tem atrás de si uma carreira de vinte anos que vão desde as salas de mercados (O’ Connor e Associates) à criação de produtos estruturados (Exane, UBS), a equipa de Finance Watch compõe-se quase exclusivamente de antigos profissionais da finança. A única maneira válida, na sua opinião, de reunir a capacidade técnica e a credibilidade requeridas para fazer oposição aos argumentos deste sector muito, muito técnico.

No percurso dos empregados de Finance Watch, geralmente não houve uma mudança repentina, um clique, um momento decisivo de acontecimentos privados ou profissionais que os teriam feito balançar para o “bom” lado da finança. Como muitos dos seus antigos confrades, eles terão sido à partida atraídos por um ofício intelectualmente estimulante, por um sector dinâmico ou, mais prosaicamente, por aí terem encontrado um meio para ganhar confortavelmente a sua vida.

Ao passarem a ser corretores, vendedores, analistas, pensavam trabalhar para uma finança ao serviço da economia real e rapidamente se desencantaram, como testemunha Benoît Lallemand, dez anos de experiência nas infraestruturas de mercado em Euroclear antes de se tornar analista de topo em Finance Watch:

“No início, quando se trabalha na finança, diz-se que se não se compreende a utilidade de tudo aquilo, é sem dúvida porque ainda nos deve faltar experiência. Depois, os anos passam. E essa experiência a explicar a utilidade nunca aparece!

No fundo, a finança deveria ser simples e fastidiosa. O seu objetivo não é criar valor enquanto finança, mas sim ser o combustível do motor económico. Finance Watch não é contra a finança, mas defende que a finança deve ser posta ao serviço do interesse geral.”

“Toda a gente faz o seu pequeno truque no seu canto”

Antes de ser contratado por Finance Watch, Adriaan Bayer, o jovem responsável das operações, trabalhou como analista no BNP Paribas Investment Partners. Não lhe foi necessário muito tempo para compreender que se os gestores de fundos oferecem rendimentos mais elevados que o mercado, não é tanto o resultado da sua elevada capacidade técnica mas sim devido à sua tomada de riscos nem sempre bem medida.

Mas a verdadeira deceção chegou quando tomou consciência de que os vendedores não compreendiam mesmo nada dos produtos estruturados que andavam a tentar colocar no mercado:

“A finança, é uma grande máquina. Tornou-se de tal forma especializada que todos fazem o seu pequeno truque no seu canto sem se interrogarem sobre os efeitos do sistema. As pessoas não são maldosas, fazem apenas o seu trabalho.”

Numa outra vida, Frédéric Hache, analista senior de Finance Watch, teria podido ser monitor de windsurf ou professor universitário. Depois de uma breve experiência como operador, especializou-se na venda de produtos derivados no BNP Paribas, no Credit Suisse e no banco belga KBC.

Este antigo banqueiro de investimento viu o seu salário dividido por cinco quando se juntou à Finance Watch, mas não se arrepende:

Há uma espécie de esquizofrenia. Pode-se ter as suas ideias como cidadão, mas, nas salas de mercado, um trader, o seu mandato é ganhar dinheiro. Não é que não nos ponhamos questões a nós mesmos, mas não se encaixa no trabalho. É a mentalidade do privado. No fundo, não é diferente noutros lados. A grande diferença é o nosso potencial para causar prejuízos graves. É por isso que temos que definir regras, como na aeronáutica. A desregulamentação financeira é responsável pela crise atual. Enquanto um quadro legal não for implementado, haverá ainda, e ainda, outras crises”.

Lobi e contra-lobi no mesmo local

Apenas um corredor estreito separa Finance Watch da Associação dos Mercados Financeiros da Europa, que representa os interesses de cerca de sessenta bancos como o BNP Paribas, o Crédit Agricole, o Royal Bank of Scotland, o Goldman Sachs, o UBS, o Barclays … O lóbi e o contra- lóbi partilham a máquina de café e a impressora.

Se os financeiros e os ex-financeiros às vezes se observam mutuamente com um pouco de desconfiança, as relações gerais são em princípio cordiais. Às vezes, o contra lóbi encontra-se, por sua vez, no ponto de mira do lóbi, diz Benoît Lallemand:

“Os mais espertalhões tentam fazer amizades no elevador. Não temos muitos recursos face aos representantes do setor financeiro, mas como somos os únicos do lado “agradável”, entre aspas, as nossas opiniões têm uma cobertura dos média e um impacto maiores. Se eles conseguem convencer-nos sobre um ponto que seja, é tudo benefício para eles “.

Joost Mulder acaba de concluir uma campanha contra os argumentos dos vizinhos do quarto andar, a Associação Internacional de Swaps e Derivados, que reúne os principais intervenientes nos mercados de derivados. Ex-lobista da indústria financeira que se tornou Diretor de Relações Públicas em Finance Watch, o holandês assumiu o caminho oposto desses altos funcionários recrutados para servirem os interesses do setor privado.

Sobretudo fair-play, compara os lobistas aos adeptos de equipas de futebol adversas, unidos por uma paixão comum para além da cor do fato. A diferença é que aqui o jogo é político:

“Permaneci um pró-lobi. No mundo das ONG, alguns não gostam talvez desta palavra. Para mim, não tenho nada contra o facto que uma pessoa pague a outra para exprimir as suas opiniões quando isso é feito com transparência.

O problema, com a crise financeira, é que as práticas dos lobistas evoluíram negativamente. Atores como os hedge funds e as agências de notação investiram massivamente em meios financeiros e humanos para fazer campanha contra a regulação. Quando os lobistas começaram a fazer chantagem em vez de avançarem argumentos de fundo, fiquei farto!

Antes da crise financeira, o lobing visava alcançar mais liberalização do mercado. Depois disso, a indústria começou muito claramente a lutar contra o interesse geral”.

“A crise quebrou a moral de muitos”

No seu blog, o Finance Watch diverte-se por vezes a enumerar as personalidades do mundo financeiro que se pronunciaram publicamente a favor de uma separação rigorosa entre os bancos de retalho e de investimento. Começando com Sandy Weill, ex-CEO do Citigroup e principal artesão da revogação em 1999 da Glass-Steagall Act, a lei americana de separação das atividades bancárias.

A crise financeira teria ela levado a suscitar um início de tomada de consciência a favor de uma melhor regulamentação no setor? A julgar pela reação de Frédéric Hache, a questão pode parecer ingénua:

“Um dos meus chefes disse-me, quando eu anunciei que me ia embora, que a regulamentação é inútil e se isso acontecer será sempre tarde demais! A palavra-chave é a racionalidade. Todos os gerentes querem maximizar os seus lucros. Eles não querem saber do o impacto social e ambiental, a menos que isso possa ser no interesse do acionista”.

Os gestores de Benoît Lallemand não ficaram chocados quando anunciou a sua mudança de carreira. Alguns até lhe disseram que compreendiam a sua decisão:

“A crise quebrou a moral de muitos funcionários do setor. Dói perceber que a finança nem é capaz de se manter por si-mesma, dói tomar consciência de que ela é capaz de se autodestruir”.

Finance Watch não enfrenta nenhum problema de recrutamento. Joost Mulder revela que mais e mais profissionais estão a chegar a bater-lhes à porta:

“Nós só precisamos de orçamento para poder contratá-los todos.”

 

“Finance Watch, les transfuges rebelles de la finance”, texto disponível em :

http://www.slate.fr/story/68149/finance-watch-lobby-ong-banques

 

 

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