MAIS UMA ACHEGA EUROCÊNTRICA– por Carlos Loures

Disse ontem que os Estados Unidos são um produto da cultura europeia. Na realidade, os Estados Unidos são o desembocar da cultura europeia. A América Latina também, embora de uma maneira diferente. No norte, prevaleceram as raízes reformadoras, a centro e sul, o catolicismo predomina. Mas, destruídas pelos europeus as civilizações pré-colombianas e dizimadas as nações autóctones,  prevaleceram hábitos e costumes dos colonizadores. Para o Novo Mundo foram transplantadas as estruturas do poder clerical e temporal que funcionavam na Europa. Washington, Bolívar e todos os demais libertadores, não libertaram índios e escravos negros – substituíram os colonos, tirando-lhes o chicote das mãos e continuando a usá-lo. E não estou a defender a colonização – foi o que foi, fez o mal que fez e acabou. Acabou?

Não, não acabou – sob as bandeiras das independências, as injustiças, os crimes, as prepotências continuaram. Ao ponto de territórios com recursos naturais que deveriam bastar para proporcionar a todos os cidadãos uma boa qualidade de vida, ostentam assimetrias sociais que vão do luxo mais exagerado à miséria mais atroz. A culpa de tudo isso é de quem? Dos europeus, claro. Os quais têm uma forma eurocêntrica de encarar o passado e o presente.

Ou seja, começamos o dia a comer Corn Flakes e antes de dormir não perdemos um reality show. As nossas economias são destruídas por empresas norte-americanas de rating (que podiam ter começado por analisar a economia da Califórnia, por exemplo). Somos arrastados para as guerras que o Pentágono entende desencadear. Tínhamos a história – A Antiguidade Clássica e por aí fora, o Renascimento e tudo o mais. Temos de a refazer de uma perspectiva que não seja “eurocêntrica”.

Há um livro de Alfredo Margarido e de Isabel de Castro Henriques – Plantas e Conhecimento do Mundo nos Séculos XV e XVI – que nos dá conta de uma «revolução biológica» operada pelos portugueses. Ao plantarem nos territórios recém-descobertos espécies europeias, ao trazerem para Europa plantas asiáticas, africanas ou americanas, produziram uma das transformações mais profundas e com implicações de natureza económica. E não foi fruto do acaso. Homens de ciência, como Garcia de Orta e Cristóvão da Costa, com os seus valiosos estudos, estiveram na base desta revolução biológica. Sem a qual não teria havido a revolução industrial.

Mas isto são raciocínios eurocêntricos..

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