HOMENAGEM À RESISTÊNCIA DOS LIVREIROS E ORAÇÃO LAICA PELA SUA PERSISTÊNCIA – por Paulo Rato

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Como aqui foi dito, o panorama do universo do livro está, desde há décadas a mudar. Uma primeira grande transformação foi a que nos anos 70 introduziu no mercado a venda de obras em fascículos; ao mesmo tempo, chegavam os clubes do livro e a venda por catálogo. Já no final do século XX, o mercado tradicional sofria outra invasão – a das grandes superfícies (aquilo a que Paulo Rato chama “armazéns de comercialização da cultura”.  Continua, como o nosso articulista de hoje salienta, a haver livreiros de cultura enciclopédica, visto que, apesar de toda a estrutura táctica. estratégica e logística montada pelas multinacionais, «haverá sempre uns maduros com verdadeira vocação para livreiros»… À justa homenagem que Paulo Rato aqui presta a uma das «profissões do livro», acrescentamos mais uns nomes – os de Luís Alves, o «Luís da Ler», o de Carlos Martins, de Leiria, o de António Barata, o de Eduardo Ferreira (da Quadrante)… Agora, pedimos a vossa atenção para o que Paulo Rato nos vai dizer:

Como afirma o Carlos Loures num seu recente texto sobre estes apóstolos da cultura, também considero que recordar os livreiros “doutros tempos” não é uma atitude saudosista. Mas acrescento que nem teria cabimento semelhante atitude, porque creio que haverá sempre uns maduros com verdadeira vocação para livreiros. Mas dificilmente se encontrarão nos grandes armazéns de comercialização de “cultura”, onde só se descobre o que saiu “ontem”. Resistirão, sim, em locais mais modestos, mas duros de roer…

Nunca esquecerei o Nuno, mais tarde ligado à “Galileu”, em Cascais (e que espero que continue vivo e de boa saúde, pois há muito que não o vejo nem dele tenho notícia), que conheci na LIVRELCO e passou, depois (quando esta cooperativa universitária foi “tomada” pelo MRPP, que decidiu proibir a venda das obras “burguesas” do Herberto Helder, entre outras imbecilidades, que nem os “ares do tempo” justificam ou desculpam…), pela DEVIR. O Nuno sabia tudo – de livros, editores, datas, referências… –, arranjava os livros mais esquivos, tinha contactos internacionais preciosos.

Uma boa parte do núcleo inicial da minha biblioteca foi fruto do que o Nuno, e só ele, disponibilizava nessas duas cooperativas, nomeadamente, preciosos livros de arte a preços muito acessíveis e o grosso dos autores de língua castelhana que fui descobrindo, incluindo os latino-americanos famosos e menos famosos, em fase de reconhecimento internacional – alguns nunca traduzidos, infelizmente, como o fabuloso “El obsceno pájaro de la noche”, do chileno José Donoso (de que chegou cá – que eu conheça – uma tradução brasileira “revista” de uma obra apresentada como a sua “mais importante”, o que, face à que referi, me parece uma estranha afirmação… e creio que ainda uma outra, de realização menos feliz); mas poderia fornecer uma lista assaz longa, só nesta área linguística, do que, na altura, apenas um livreiro “a sério” e muito atento se arriscaria a importar, para um número lamentavelmente reduzido de potenciais compradores. Também não esqueço o prazer que era conversar com o Nuno e o proveito que dessas conversas retirava. Não foi o único, mas foi o mais importante dos livreiros que orientaram o meu gosto pela leitura em direcções a que, sem eles, só mais tarde e só no estrangeiro, eventualmente, chegaria. Tenho para com ele uma imensa dívida de gratidão. Nele homenageio, recordando-o, todos os grandes livreiros, sem os quais eu seria mais pobre, de saber e de prazer.

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