EDITORIAL – ESTAMOS HÁ QUASE DOIS ANOS A SUPORTAR ESTE GOVERNO

Imagem2Foi no dia 5 de Junho de 1989. Na Avenida Chang’an, um dos acessos à Praça de Tiananmen, ou da Paz Celestial, um homem de pé, a meio da faixa de rodagem, enquanto os tanques se aproximam. Segura um saco em cada mão. Os tanques param e o homem parece mandá-los seguir. O tanque da frente tenta desviar-se do homem, que se vai colocando em frente do tanque que se imobiliza. O homem sobe até à torreta do tanque da frente e fala com o comandante do carro de combate. A filmagem mostra depois  o homem ladeado por dois presumíveis guardas desaparecendo entre a multidão; os tanques retomam aa marcha. Diz-que o homem, um estudante de 19 anos, terá sido executado. É uma imagem de uma beleza terrível – um frágil ser humano enfrentando mastodontes com toneladas de aço.

Em 5 de Junho de 2011, as eleições legislativas davam a vitória ao PSD. O eleitorado, mais do que colocar no poder um Passos Coelho praticamente desconhecido, obscuro dirigente da JSD, sem qualquer traço distintivo que o colocasse acima de centenas de outros políticos igualmente carreiristas e medíocres, mais do que sentar Passos Coelho na cadeira do poder, dizíamos, o eleitorado queria dela afastar um José Sócrates atolado em mentiras e em suspeições de corrupção.

E Passos Coelho e o seu gabinete destruiu o que restava de pé. Evidentemente que quando tomou posse a situação económica era caótica – sucessivos governos do PSD e do PS haviam transferido para bolsos «amigos» os recursos do País. Passos Coelho distinguiu-se~, não pela desonestidade, mas pela brutal insensibilidade com que obrigou os trabalhadores, pequenos empresários  e pensionistas  portugueses a pagar a dívida acumulada em mais de três décadas de governação neo-liberal.

Para enfrentar este mastodonte de um governo com toneladas de corrupção, estupidez, incompetência e insensibilidade teríamos de ter a coragem do jovem chinês que, num dia 5 de Junho, se opôs às toneladas de aço com que o governo da China esmagou a liberdade na Praça da Paz Celestial. Mas é mais cómodo votar noutro partido e eleger outro governo que prossiga a descida aos infernos.

Enfrentar tanques, enfrentar a corrupção, é perigoso. Um papel dobrado em quatro metido numa urna e o nosso dever de cidadania está cumprido.

 

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