POESIA AO AMANHECER – 255 – por Manuel Simões

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ANTÓNIO CABRAL

( 1931 – 2007 )

CARTA AO GEORGE

“George, anda ver meu país” do vinho e do suor,

onde o suor se embrulha com as ideias,

onde as ideias mudam de cor, a cada hora,

cintilantes como os vitrais da Sainte Chapelle.

Tu és poeta, George, e vês pelas coisas

até ao que inunda os olhos por dentro.

No alto da serrania oferecer-te-ei

um vale humano, translúcido, para contemplares.

Desceremos, depois, até ao rio

e voltaremos a subir: geios de vinha,

escadas, uma raiva de escadas, mais

escadas que as da Tour Eiffel ou de Babel.

Suando, compreenderás o suor

e as ideias que se embrulham com ele.

Ouvirás as grandes palavras que reclamam

um poeta, desde a podoa ao tractor.

Mostrar-te-ei as faces que enrugam,

paralelas ao sonho; os pés gretados

de felinas poeiras; e mãos lívidas

no silêncio de mortas catedrais.

E mais, George, e mais:

esta vontade que nos rói a todos

e, apesar de tudo, ergue nos lábios

a romã duma enorme, ah que necessária canção!

“George, anda ver meu país” do sol em chamas,

um rio, ferro em brasa, a estalar,

e os homens a cantar, novos Sísifos,

com negras ideias cor-de-rosa.

(de “Os Homens Cantam a Nordeste”)

Incluído na “Antologia da Poesia Contemporânea de Trás-os-Montes e Alto Douro” (1968) e na “Poesia Portuguesa do Pós-Guerra” (1965). Da sua extensa obra poética salientam-se os títulos “O Mar e as Águias” (1956), “Poemas Durienses” (1963), “Os Homens Cantam a Nordeste” (1967), “Quando o Silêncio Reverdece” (1971), “Emigração Clandestina” (1977), “Bodas Selvagens” (1997), “O Rio que perdeu as Margens” (2007).

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