ANTÓNIO CABRAL
( 1931 – 2007 )
CARTA AO GEORGE
“George, anda ver meu país” do vinho e do suor,
onde o suor se embrulha com as ideias,
onde as ideias mudam de cor, a cada hora,
cintilantes como os vitrais da Sainte Chapelle.
Tu és poeta, George, e vês pelas coisas
até ao que inunda os olhos por dentro.
No alto da serrania oferecer-te-ei
um vale humano, translúcido, para contemplares.
Desceremos, depois, até ao rio
e voltaremos a subir: geios de vinha,
escadas, uma raiva de escadas, mais
escadas que as da Tour Eiffel ou de Babel.
Suando, compreenderás o suor
e as ideias que se embrulham com ele.
Ouvirás as grandes palavras que reclamam
um poeta, desde a podoa ao tractor.
Mostrar-te-ei as faces que enrugam,
paralelas ao sonho; os pés gretados
de felinas poeiras; e mãos lívidas
no silêncio de mortas catedrais.
E mais, George, e mais:
esta vontade que nos rói a todos
e, apesar de tudo, ergue nos lábios
a romã duma enorme, ah que necessária canção!
“George, anda ver meu país” do sol em chamas,
um rio, ferro em brasa, a estalar,
e os homens a cantar, novos Sísifos,
com negras ideias cor-de-rosa.
(de “Os Homens Cantam a Nordeste”)

