Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 117 – por Manuela Degerine

Quarta viagem

Imagem1No primeiro Caminho de Santiago as bolhas nos pés incomodaram-me durante dezasseis etapas e, por não ter ainda encontrado uma mochila adaptada à morfologia do corpo, padeci com o peso da bagagem até chegar a casa.

Em 2011 encontrei a mochila perfeita e as botas quase perfeitas, o mês de maio foi contudo quente e, entre Valença e Mós (na Galiza), caminhando por volta do meio-dia, de sul para norte, logo, com o sol nas costas, não reparei que expunha dois centímetros de pele na parte traseira das canelas, entre as botas e as calças… As queimaduras obrigaram-me a interromper a caminhada.

Em 2012 não surgiram incidentes com as botas, com a mochila tão-pouco, nem sequer com o sol, pois caminhei em abril e passei a usar protetores acima das peúgas, percorri contudo duas etapas, mais de setenta quilómetros, num ritmo que não é o meu… Cheguei a Valença com uma tendinite. Obstinei-me em prosseguir, primeiro até Santiago, depois até Muxia: menos prazer do que proeza.

Parto agora no dia 6 de abril de 2013. Pela quarta vez. Levo botas leves e macias, levo polainas, levo protetores, levo uma mochila ergonómica e, durante o inverno, caminhei de maneira regular e mesmo intensa; o joelho não voltou a doer-me. Após as bolhas, após as dores nas costas, após as queimaduras, após a tendinite… qual será este ano o meu fado?

Gostaria de enfim apreciar a viagem e depois narrar o que vi, ouvi, senti, pensei, descobri… Sim, gostaria de concluir estas Novas Viagens na Minha Terra com o prazer de caminhar, no entanto as três precedentes experiências prepararam-me para imprevistos e mudanças de programa. O Caminho de Santiago é o antípoda da viagem organizada, muito nele ocorre em poucos dias, é uma escola da relação com o corpo, da relação com o mundo, poderá ser uma metáfora da vida, já o havíamos compreendido; acolherei o que ele der e nele vier ao meu encontro. Um passo após outro, um dia após outro. Ultreia.

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