Ana da Áustria, a mãe de Luís XIV, era espanhola, em contrapartida Maria Antonieta – “a Austríaca” – era de facto filha da imperatriz Maria Teresa. Para além delas… O imperador Francisco José: apenas um nome e uma figura com patilhas. Sissi: igualmente (mas sem patilhas). Os compositores: Mozart, Hayden, Strauss, claro. (Schubert é alemão ou austríaco?) Escritores que li e recordo: Schnitzler e Stefan Zweig. (Kafka é checo.) Vi em Paris duas peças de teatro contemporâneas: vazias e chatas. Pintores cujas obras muito aprecio: Egon Schiele e Gustav Klimt. Konrad Lorenz, a teoria da cunhagem; falou-me dele Augusto Gil da Costa Lopes, professor de filosofia no liceu de Queluz. Uma imagem: os gansos em fila atrás do biólogo. Gostei do filme “Caché” de Michael Haneke – mas era francês. O canal Arte mostra todos os dias (parece-me) documentários sobre o Tibete, nada ignoro dos seus problemas sociais, ecológicos, comunitários, não há rua de Lassa que não me seja familiar; porém não me recordo de uma reportagem sobre a Áustria. Nada sei das tradições e contradições austríacas. Das interrogações que os cidadãos formulam por serem austríacos. Que valores os distinguem? Que qualidades? A Áustria é um dos países mais ricos do mundo mas ignoro o que isto representa na vida quotidiana. E não conheço qualquer marca austríaca. Produzem o quê? Exportam o quê? Portanto: Sigmund Freud. E, que remédio, Hitler; o qual se tornou alemão.
Resumindo e concluindo: sei que a Áustria existe por ter lido as obras de Freud e visto as de Egon Schiele. Esta afirmação quase não é uma hipérbole, a minha bagagem austríaca é na verdade leve. Equivale à dos franceses que leram Fernando Pessoa e ouviram Amália Rodrigues; ora nenhum português resumiria a sua cultura de 2014 com estes dois nomes. Aliás os austríacos – por serem germânicos – ainda se interessam por nós muito menos do que os franceses… Deixámos de guerrear: um imenso progresso. Não conhecermos os outros europeus é porém ignorarmos de que cor são os nossos olhos… Os leitores não acham a lacuna inquietante?