CARTA DO RIO – 29 – por Rachel Gutiérrez

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Hoje quero falar sobre uma grande artista e personalidade fascinante, sobre quem já se escreveu muito, jamais o suficiente, porém, porque sua pintura, originalíssima, sobressai entre as mais representativas do século XX. Me refiro a Maria Helena Vieira da Silva, que durante alguns anos, no período conturbado da Segunda Grande Guerra, refugiou-se no Brasil com o marido também pintor, o judeu húngaro Arpad Szenes. E aqui fizeram grandes amigos: pintores, sendo o mais chegado o gaúcho Carlos Scliar; poetas, como Cecília Meireles, Murilo Mendes e Jorge de Lima; e músicos, como o pianista Arnaldo Estrela e sua mulher, a violinista Mariuccia Iacovino. Maria Helena foi também musicista: tocava piano e harmônio e seu compositor predileto era Bach, Johann Sebastian Bach.

Sua pintura diferente, híbrida, ora abstrata ora figurativa e as duas coisas ao mesmo tempo, é vertiginosa, labiríntica e expansiva em sua nova concepção da perspectiva, que  sugere muitas palavras, títulos que poderiam ter os ensaios sobre ela, todos muito contrastantes, verdadeiros oximoros: Estruturas da Impermanência, ou Vertigem da Modernidade, ou Labirintos da Incerteza, ou Itinerário do Aberto, por exemplo… No século XX, assim como a literatura deixou de ser a escrita da aventura para tornar-se a aventura da escrita, da qual nossa Clarice Lispector é uma das mais ricas expressões, penso que a pintura de Vieira da Silva, além de ter deixado de ser a pintura do real para tornar-se uma espécie de real da pintura, é também um pensamento da pintura sobre o real. Sua pintura pensa e nos faz pensar. Ela mesma disse certa vez: “A gente finge que trabalha, mas não trabalha, medita.” E também disse que de nada tinha certeza: “É a incerteza que é a minha certeza! ”

As paredes, o chão, o teto avançam para o fundo. Mas no fundo outro espaço desponta. E em cada espelho um novo espaço nasce. É um lugar onde tudo está atento, denso de memória e de veemência. Lugar de revelação, de espanto e cismar e descobrimento.

Assim se referiu aos quadros de Vieira da Silva a grande poeta, sua compatriota contemporânea Sophia de Mello Breyner Andresen. E num poema dedicado a ela, como no mesmo movimento da pintura, sem vírgulas nem pontos para que a voz seja contínua, precipitada, vertiginosa como as formas e suas cores, as palavras que mais se fazem presentes são labirinto, minúcia, encruzilhada, escada, desvio, salas que se multiplicam, espelhos que devoram imagens. E “inelutável”, que é a palavra perfeita para definir a clara necessidade da arte da genial portuguesa.

A perspectiva em Vieira da Silva não é uma perspectiva matemática (geométrica) , não é a que se estudava nas escolas antigamente, mas a que poderia ser chamada de “perspectiva atmosférica” ou perspectiva aérea, essa que ela parece visualizar como se sobrevoasse cidades, portos, bibliotecas, edifícios. É muitas vezes uma visão esvoaçante, vertiginosa mesmo: um turbilhão. Tudo se passa como se num delírio ou sonho ela voasse sobre as cidades e as pintasse a partir do movimento vertiginoso de seu voo.

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No poderosíssimo quadro La chambre à carreaux, que na verdade não são quadrados porque o movimento os torna losangos… nosso olhar é obrigado a abarcar a tela de fora para dentro e a dirigir-se para o fundo. A perspectiva não é deformada ou desfigurada, é transfigurada porque ela vê além, acima, os longes. É fascinante. Como se a incerteza criativa fizesse parte da criação.

Um de seus amigos mais íntimos, o poeta francês René Char, disse de forma definidora e definitiva: A obra de Vieira da Silva surgiu e o aguilhão de uma suave força obstinada, inspirada, reinstalou o que é preciso chamar de arte no mundo solidário da terra, que corre, e do homem, que se espanta.

Naturalizada francesa, Maria Helena Vieira da Silva morreu em Paris, em 1992. É uma artista do mundo.

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