Parece que Cavaco Silva vai agora fazer aquilo que devia ter feito há quinze dias: encarregar expressamente Passos Coelho de formar governo. Quem olhe com alguma frieza para o que passou nestes dias, simpatize ou não com Passos/Portas, percebe perfeitamente que as tentativas de fazer um acordo com Costa foram puramente e simplesmente para procurar manter o PCP e BE (e talvez também o PAN) no limbo (fora do arco da governação ou do arco europeu, se preferirem), e diminuir o impacto que terá tido na opinião pública a subida de votação nos partidos de esquerda, concomitantemente com a perda da maioria absoluta pela direita. Procurar criar divisões no PS e fazer boa figura face a Berlim/Bruxelas também terá passado pela cabeça dos promotores do espectáculo a que assistimos nas duas últimas semanas, que atrasaram assim a votação no parlamento e que talvez julguem estarem agora numa posição mais favorável para a fazerem.
Varoufakis, no sábado passado em Coimbra, chamou a atenção para o excesso de poder do BCE, e pediu ao PS que enfrentasse as instituições europeias, para acabar com a austeridade. Concorde-se ou não com o que ele disse, é o que está em jogo. Todos sabemos que ele tem razão, que estamos numa bankruptocracy, que somos governados por banqueiros falidos, que querem que continuemos a pagar-lhes para eles manterem os seus privilégios. O problema é haver quem esteja decidido a ir contra eles.
Uma óptima interpretação dos factos