O MAPA (A saga do anadel) Capítulo VII . Copiador no Tombo . por Carlos Loures

O rapaz era, por essa altura, e desde há quase um ano, altura em que terminara os estudos na catedral, copiador no Tombo. Seu pai, Simão de Mateus, que também ali trabalhava desde muito jovem, lhe ensinara, com diligência e amor pela arte, os rudimentos complicados, os quase segredos da profissão, das misturas das tintas e pigmentos, à textura e gramagem dos papéis, pergaminhos ou velos e, muito importante, à escolha de cálamos, penas e pincéis adequados a cada tarefa – certidão, crónica, livro de horas… E Simão, embora não tivesse ainda quarenta anos, já ia dizendo que na sua geração se copiava e escrevia bem melhor. Que àquilo que Lopo e os outros moços aprendizes faziam só por muita bondade do senhor guardador se poderia chamar cópias. Ia o jovem Lopo, portanto, aprendendo que, de era para era, de geração para geração, as coisas iam sempre piorando e que lhe coubera viver o tempo mais desgraçado desde a criação do mundo. Naturalmente, tal ideia não o preocupava demasiado.
A bem dizer, as suas principais preocupações eram outras muito diferentes. Enquanto a filha do tanoeiro João, a linda vizinha Matilde lhe sorrisse da sua janela, incendiando de luz as manhãs que iria passar na escura torre Albarrã, copiando alfarrábios, iluminando letras capitais, bem podiam os tempos ir piorando, pois para ele sempre melhores os sentia. Se, ainda que apenas em sonhos, a pudesse amar e ter a ilusão de ser um pouco correspondido (ultrapassando as pretensões de Julião Fernandes, seu amigo, companheiro de escola e, desde há meses, seu rival), se assim fosse, suportaria alegremente o infortúnio de viver tempos tão ruins e adversos, nos quais, para cúmulo, até o fim da sua tão ancestral profissão se anunciava. Na verdade, o mestre Gonçalo, zelador dos aprendizes de copistas, dissera dias atrás, no meio do pasmo e riso gerais, que, nas Alemanhas, se havia inventado um engenho que permitia fazer mais de cem cópias sem intervenção de copistas ou calígrafos. E fizera um desenho de uma confusa geringonça com duas pernas e dois pés, dois someiros grandes e dois pequenos, uns em cima e outros em baixo de uma grade com correntes de ferro… Coisa complicada e sem nexo, mais parecendo um aparelho de lagar. Os moços aprendizes riram muito e com eles o próprio mestre Gonçalo acabou por acompanhar a chufa. Mais de cem cópias quase sem intervenção humana… Ora! Quem quisesse que em tal acreditasse!

Nessa noite, à hora da ceia, quando comentou com seu pai a bizarra novidade, Simão disse que era verdade, nas Alemanhas estavam a avançar com essa ideia – e falou de uma coisa de que nunca o rapaz ouvira falar – «imprimissão» – a técnica de gravar caracteres no papel, reproduzindo muitas cópias em pouco tempo. E seu pai estava geralmente bem informado sobre o que ocorria no mundo, pois todo o tempo livre era dedicado ao estudo, à leitura e ao aperfeiçoamento do latim que, tal como Lopo, aprendera à força de chibatadas com os frades da escola da Sé catedral. Apesar de tudo, não ficou preocupado. Para falar verdade, depressa esqueceu o assunto. O tal circunspecto ancião de quem já vos falei e ao qual, a seu pedido, mostrara já exemplos da sua caligrafia, afiançou, ao contrário do que o pai sempre augurava, que, se estudasse e porfiasse, viria por certo a ser um bom copista. E logo aquele senhor lhe pareceu ser pessoa bem entendida no assunto, pois sobre o tema fez algumas daquelas perguntas que só as pessoas de muito saber costumam fazer – perguntas que, se as soubermos escutar, já transportam a resposta no ventre. Afirmou conhecer as tais crónicas em cujas cópias o rapaz trabalhava.
Dias depois, quando cismava ainda na preocupante afirmação de seu avô sobre o declínio crescente da felicidade do mundo e das pessoas à medida que o tempo avançava, disse-lhe que o cronista dos conturbados tempos do cerco, época em que, mais ou menos, o seu interlocutor devia ter nascido – tão velho era! – Afirmava que a geração seguinte à do assédio, justamente a dele e a de seu avô, apesar de tanta tormenta que sobre ela caíra, foi bem-aventurada relativamente à que viveu a desgraçada era do cerco castelhano. E logo o ancião, lestamente, citou de memória o trecho que o jovem recitara por palavras suas: «Ó geração que depois veio, povo bem-aventurado que não soube parte de tantos males nem foi quinhoeiro de tais padecimentos!». Aquele homem sapiente e grave parecia também conhecer todos os cantos e recantos da Torre Albarrã, o casarão rente à cerca velha onde os copistas trabalhavam. Foi ele também quem disse que o senhor D. Afonso II ali mandou guardar o tesouro real e a respectiva documentação. Servia também de depósito para o produto dos impostos e rendas. Por isso lhe chamavam também Torre do Haver. El-rei D. Fernando, de tão triste memória, mandou lá recolher o arquivo do Estado. Contudo, por essa altura, o serviço mais importante que ali se prestava era o de passar certidões de livros de inquirições, de chancelarias, de aforamento, de doações, etc. Eram requeridas pelo contador e passadas pelo notário público. Disse também que, a partir de certa altura, pela era de

1418, começou a Torre a ter outras mais nobres missões, tais como a de pôr em crónicas as histórias dos reis que antigamente em Portugal reinaram, bem como a de exaltar os seus grandes e numerosos feitos e virtudes. Algumas dessas coisas Lopo as sabia de sobejo, e assim o disse ao seu sábio companheiro, pois eram precisamente essas crónicas que dia após dia copiava, para satisfazer encomendas de casas nobres e abadias, iluminando com belas letras capitais que mereciam algum contido elogio.

 

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