Esta semana poderá ver AINDA NÃO ACABÁMOS como se fosse uma carta de Jorge Silva Melo no Festival Citemor esta 4ª 7 de Agosto, às 22h30, no Teatro Esther de Carvalho, em Montemor-o-Velho. Também pode ver na 6ª 9 de Agosto, nos Encontros Cinematográficos do Fundão, às 21h30, na Moagem, com apresentação de Maria João Madeira e Eduardo Calheiros Figueiredo.
E continuamos a lutar por UMA CASA PARA OS ARTISTAS UNIDOS.
#umacasaparaosartistasunidos

AINDA NÃO ACABÁMOS como se fosse uma carta
de Jorge Silva Melo
Com | Américo Silva, António Simão, Catarina Wallenstein, Jean Jourdheuil, Spiro Scimone, Elmano Sancho, Manuel Wiborg, Isabel Muñoz Cardoso, Sylvie Rocha, Fernando Lemos, Jorge Martins, João Pedro Mamede, José Medeiros Ferreira, Pedro Carraca, João Meireles, Vânia Rodrigues, Maria João Pinho, Maria João Luís, Miguel Borges, Pedro Gil, Rita Brütt, Rúben Gomes, Sofia Areal
Direcção de Fotografia | José Luís Carvalhosa
Som | Armanda Carvalho
Montagem | Miguel Aguiar e Vítor Alves
Realização | Jorge Silva Melo
Produção | Artistas Unidos
M/12; 75m, 2015
No Citemor, no Teatro Esther de Carvalho, a 7 de Agosto
4ª às 22h30
Nos Encontros Cinematográficos do Fundão, na Moagem, a 9 de Agosto
6ª às 21h30
Sou eu que escrevo esta carta, como se fosse uma carta, sim, sou eu. Não tanto para falar de mim, mas do que me prometeram, daquilo que perdi, daquilo que consegui continuar. Prometeram-me um mundo de linhas simples, cresci quando se fazia, ao lado da minha escola, o edifício das Águas Livres de Nuno Teotónio Pereira, Portugal saía do português-suave que se sobrepôs ao modernismo. O mundo que imaginei meu seria assim, simples, sem enfeites. Foi o que me prometeram tantos dos que vieram antes de mim. Visito aqui os locais – nem todos – que me disseram seriam os da minha vida. Que foi feita por outros que a desenharam. Em Lisboa, ou em Paris, onde trabalhei e onde me sinto em casa. Ou Roma onde não cheguei a instalar-me. Lembro muita gente que me contou o mundo – mas nem todos.. É uma carta. Ou… É um auto-retrato (auto-filme? auto-golo) comigo de costas: para que quem veja, veja o que eu vejo. Aquilo que vejo (vi, verei) será aquilo que sou? Mas é uma carta, é a ti que quero contar, a ti, rapaz que quiseste ser actor.
JORGE SILVA MELO
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Uma deambulação por meio século, sim, uma carta talvez. Viagens pela minha vida, podia chamar-lhe eu, que tanto gosto de Garrett. Um traveling como ele gostaria, uma história solta, memórias, projectos, encontros.
Também porque, desde 1995, tenho feito vários retratos de artistas (Palolo, Bravo, Lapa, Skapinakis, Bartolomeu, Ângelo, Sena, Ana Vieira e preparo Sofia Areal e Fernando Lemos), comecei a pensar que é isso a minha vida, estes encontros, ver, ouvir, cortar, mostrar, provocar.
Quero, com este filme, continuar a mostrar o que vejo.
Transcrevo, de um artigo que escrevi para o Diário de Notícias:
Quando, novinho, olhei para o espelho, hei-de ter percebido que não era pelo sex-appeal que havia de seduzir os outros. Não foi por isso que desesperei. Ou que desisti de seduzir. Aos cinco anos, tratou-me da asma em Madrid um médico extraordinário, (…) D. Gregorio Marañon. E há-de ter sido por essa altura que a mim próprio disse: velho, isso mesmo, velho é isso o que eu quero ser. E não é que isso seja difícil, pois todos os dias o consigo: ser mais velho. Com todas as características que se atribuem a essa categoria desde sempre em vias de extinção: caturra, vigilante, embirrento, resmungão, quezilento, complicado, solitário, memória de elefante, injusto, parcial, citação pronta e anedota ilustrativa para qualquer caso da vida, colhendo as tempestades dos ventos que em novo semeei, com má fama e desleixado no vestir ou na barba por fazer. Mauzinho. Assim escondo (ou penso suplantar) a juvenil graça que me faltou, o músculo tenso, e deixo a barriga crescer ao sabor dos doces da casa que em qualquer cidade do mundo, Sevilha, Berlim, Lisboa, acabo sempre por descobrir com todo o colesterol possível. Vivo sozinho e desarrumado, procurar um livro, encontrar uma cassete é um quebra-cabeças nesta casa grande onde moro, perto do Rato e do Marquês. Os meus amigos têm a chave de minha casa, e há chaves espalhadas de Cracóvia a Antuérpia, Berlim, Paris, Cacilhas, Estocolmo, Madrid. Ou no escritório. (…) Gosto de conversar e mais ainda gosto de desconversar. Gosto de passear. Sozinho mas também com outros mas não com muita gente. Um dia hei-de voltar a Roma. (…) Não tenho gato mas talvez um dia me decida, que é de gatos que eu gosto, de os olhar e à sua majestade. Porque gostava de ser lembrado como alguém que, como os gatos, se passeou. Um “flâneur”.
E gostava de escrever com a independência do Garrett. O Garrett das Viagens, também passeante. Passeante pela vida, como os gatos. Mas a envelhecer embirrento, como os homens.
Será parecido com isto este filme? Assim o tentarei, passeando…
Jorge Silva Melo
Por uma nova morada, em Lisboa, para a companhia de teatro ARTISTAS UNIDOS
Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República,
Os abaixo-assinados, público da companhia de teatro, Artistas Unidos, e munícipes de Lisboa, vêm-lhe manifestar a sua inquietação por ainda não ter havido nenhuma informação sobre a nova morada para as “duas tábuas e uma paixão”,- como, diz-se, Molière resumia a arte do Teatro – desta Companhia de Teatro lisboeta fundada em 1995, pelo saudoso Jorge Silva Melo.
A nossa inquietação nasce do receio de deixarmos de poder continuar a ser espectadores desta companhia de teatro que nos acompanha há 29 anos e que, com a sua arte de vida que é o Teatro, nos ajuda a combater esta “fadiga da empatia” que alastra no nosso tempo, estimulando, com os seus espectáculos e a sua actividade artística, a nossa criatividade, o gosto de estar com o outro e, dessa forma, alimentando a nossa humanização.
Não podemos perder mais uma Companhia de Teatro como nos aconteceu com o Teatro da Cornucópia !
Porque, como diz o Maestro Victorino D`Almeida (Diário Notícias 6/6/2024), “ Se as pessoas começarem a ser drasticamente mais exigentes, os direitos acontecem. E a cultura é um direito.”
E nós, Público dos Artistas Unidos e conscientes dos nossos direitos e dos nossos deveres, enquanto munícipes de Lisboa, queremos exigir um espaço, em Lisboa, para que esta companhia de teatro possa construir o seu teatro, como o fez no Teatro da Politécnica, onde têm estado até agora, ou como já o tinha feito no Convento das Mónicas ou n`A Capital.
Porque, como afirmou Eduardo Lourenço, “ A experiência fundamental da Humanidade é imediatamente de ordem artística. A Arte interroga-nos, põe-nos em causa, diz-nos quem somos. Dá-nos uma emoção diferente de todas as outras emoções.”
E nós, Público dos Artistas Unidos, queremos continuar, intelectual e emocionalmente, a sermos interrogados pelos os seus espetáculos.
Porque, como disse Jon Fosse, na sua mensagem para o Dia Mundial do Teatro deste ano, “A guerra e a arte são opostas, tal como a guerra e a paz são opostas – é tão simples quanto isto. Arte é paz.”
E nós, Público dos Artistas Unidos, queremos, com as suas peças que levam às tábuas do palco, ter mais lucidez para compreender a guerra e poder, activamente, lutar pela paz.
Porque, por último, dando a voz a Jorge Silva Melo, a partir do livro de Maria João Madeira, Jorge Silva Melo Viver Amanhã como Hoje, que gostava de alertar que “Com a verdade me enganas” e que confessou que“ Gostava de ser lembrado como alguém que, como os gatos, se passeou”, e nos deixou esta interrogação/afirmação: “Não é isso o cinema (e o teatro)? Tornar límpido o sangue que vai nas almas?”
E nós, Público dos Artistas Unidos, queremos, com ele e com todos os artistas dos Artistas Unidos, poder continuar a passearmo-nos pelo seu novo espaço e pelos seus espetáculos para ficarmos com uma alma mais enriquecida porque mais límpida.
Lisboa, julho de 2024
Subscritora: Ana Vasconcelos
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