Espuma dos dias… a Faixa de Gaza e agora o Líbano — Netanyahu declara guerra ao mundo inteiro. Por Redação de Contropiano

Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

Netanyahu declara guerra ao mundo inteiro

Por Redação de Contropiano

Publicado por  em 28 de Setembro de 2024 (original aqui)

 

 

Netanyhau declarou guerra ao mundo inteiro. Exceto a parte que o apoia, alimenta, arma ou simplesmente tem medo dele.

É até difícil seleccionar, entre as suas frases, as mais elucidativas de uma febre assassina sem mais travões.

Na verdade, ele começou afirmando que os ataques contra o Hezbollah no Líbano continuarão, assim como a guerra em Gaza, “até a vitória total”. Um bom objetivo para a propaganda, mas que qualquer especialista em assuntos militares, de qualquer país e de qualquer regime político, sabe ser nada mais que palavreado. Porque qualquer guerra faz sentido se for conduzida com um objectivo político realista, por mais ambicioso ou criminoso que seja.

Se, por outro lado, a “vitória total” coincide com a destruição – por ordem – do Hamas, do Hezbollah, do Irão, do Iémen controlado pelos Houthis, e em geral dos muçulmanos Xiitas (que são maioria também no Iraque), com alguma alusão até mesmo de todos os muçulmanos (um pouco mais de 2 mil milhões, 25% dos seres humanos), torna-se claro que que estamos perante uma loucura compreensível apenas dentro de uma interpretação supremacista de uma religião decididamente minoritária.

Mas a proclamação inicial foi basicamente dirigida aos seus patrocinadores ocidentais, começando pelos Estados Unidos e a França, que na quarta – feira – nesse mesmo local – tinham pedido “um cessar-fogo imediato de 21 dias”. E se se fala deste modo aos “amigos”, imaginem o que poderá estar reservado aos inimigos e aos “neutrais”.

Eu não tinha a intenção de vir aqui este ano, o meu país está em guerra e está a lutar pela sua vida“, disse diante de uma audiência reduzida a metade porque muitas delegações decidiram sair no momento do seu discurso. Demonstração clara do facto de que, para grande parte do mundo, é Israel que pratica genocídio em Gaza, uma agressão militar contra um país soberano e contra muitos dos países vizinhos, mesmo com operações abertamente terroristas (como também avaliado pelo ex-diretor da CIA, Leon Panetta)

Mas Netanyahu não se importa absolutamente com o que o resto do mundo pensa, e ameaçou todos abertamente. Em primeiro lugar rejeitando sem rodeios qualquer resolução da ONU (como Israel fez desde 1947): “Israel não permitirá que nenhuma força no mundo ameace o seu futuro. E eis a minha mensagem a todos os países aqui representados: seja qual for a resolução que adoptarem, seja qual for a decisão tomada nas vossas capitais, Israel fará tudo o que tiver de fazer para defender o nosso estado e o nosso povo. Os dias em que o povo judeu permanece passivo diante dos inimigos genocidas já acabaram para sempre“.

A propósito, é necessário salientar que o “povo judeu” (cerca de 13 milhões, no mundo) não coincide em nada com os “habitantes de Israel da fé judaica” (cerca de 6 milhões e meio). Mas é o jogo típico dos sionistas mais extremistas, o de passar a parte pelo todo…

As Nações Unidas – disse – devem finalmente deixar de fustigar Israel. Em quatro anos de terríveis massacres na Síria, perderam a vida mais de 250 mil pessoas – dez vezes mais do que o número total de israelitas e palestinianos que perderam a vida num século de conflito entre nós. No entanto, no ano passado, esta Assembleia aprovou 20 resoluções contra Israel e apenas uma sobre a carnificina na Síria. Contem-nas: vinte! Uma desproporção“.

Até um burro sabe que a) os palestinianos mortos em 77 anos são infinitamente mais (41.000 só em Gaza, no último ano), b) que Israel nunca cumpriu uma única resolução da ONU e, apesar disso, nunca foi sujeito a sanções internacionais graças à cobertura dos países ocidentais com direito de veto (Estados Unidos, França e Grã-Bretanha).

A ameaça e o ódio pelo resto do mundo tornaram-se então explícitos quando ele apostrofou toda a Assembleia da ONU (ou seja, as representações de todos os países) com um “vocês são um lamaçal anti-semita“, como já fez com o Tribunal Internacional de Justiça que emitiu um mandado de prisão contra ele. E da definição insultuosa à ameaça de guerra, o passo é frequentemente curto…

Mas o inimigo imediato de “Bibi” ainda é e sempre o Irão: “setenta anos após o assassinato de seis milhões de judeus, os governantes iranianos prometem destruir o meu país, assassinar o meu povo. E a resposta deste organismo, a resposta de quase todos os governos aqui representados foi um zero absoluto, um silêncio total. Um silêncio ensurdecedor“.

Além disso, a estratégia de provocação prosseguida durante anos pelo seu governo, que assassinou vários cientistas de topo iranianos com operações do Mossad, chegando mesmo a bombardear a embaixada (coberta por imunidade diplomática, como todas as outras no mundo) em Damasco, é igualmente explícita. O que, de acordo com o direito internacional existente, equivale a uma declaração aberta de guerra. A técnica retórica do fanático sionista é exactamente a mesma aplicada também a nível militar: derrubar constantemente a verdade para “justificar” a mentira (quando fala) ou o genocídio (quando dispara).

Uma técnica que tocou as raias do ridículo e da criminalidade quando ele acenou com a sua visão do “problema palestiniano”. “O processo de paz começou há mais de duas décadas, mas apesar dos esforços de seis primeiros-ministros israelitas, Rabin, Peres, Barak, Sharon, Olmert e eu, os palestinianos continuam a recusar-se a alcançar uma paz final com Israel e a pôr fim ao conflito. O Presidente Abu Mazen repetiu aqui ontem a rejeição intransigente dos palestinianos. Como pode Israel fazer as pazes com um parceiro palestiniano que se recusa sequer a sentar-se à mesa de negociações?

Não há palavras capazes de descrever tal descaramento por parte de um governante que repete diariamente que “um Estado Palestiniano nunca será aceite“, à frente de um estado que há 77 anos se dedica à “limpeza étnica” dos palestinianos para que abandonem completamente aquilo que sempre foram as suas casas e as suas terras.

De facto, os palestinianos de qualquer organização podem, no máximo, dizer que não querem reconhecer Israel, enquanto Telavive não diz apenas que não os reconhece, mas expulsa–os de armas nas mãos de territórios que, em teoria – de acordo com o objectivo dos “dois Estados” – deveriam, num futuro indefinível, acolher o estado da Palestina.

Um mentiroso novato agora sem alento em comparação com a realidade do mundo em mudança. A certa altura, ele acenou com seus agora famosos slides que deveriam ser persuasivos, contrastando um da “maldição” e o outro da “bênção“, explicando que “a questão diante de nós é qual dos dois atrairá o futuro: o futuro em que Teerão e seus aliados espalharão o caos e a destruição ou aquele em que Israel e outros países viverão em paz?“.

Infelizmente para ele, a “bênção” dá um papel positivo (segundo ele) à Arábia Saudita, cuja delegação está entre aqueles que partiram no momento da sua entrada na sala. Talvez ele ainda confie nos” acordos de Abraão”, que, no entanto, nunca se tornaram operacionais e, de facto, à luz do genocídio em curso e do ataque ao Líbano, dificilmente se tornarão.

Talvez ele ainda não tenha notado que a Arábia Saudita sunita já entrou no grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul), juntamente com o Irão xiita (divisão histórica dos muçulmanos, que remonta a mais de mil anos). E outros, nomeadamente a Turquia (também membro da NATO), fizeram um pedido semelhante.

É verdade que os BRICS são uma comunidade económica e não uma aliança militar, mas representam agora uma alternativa muito concreta à subordinação em relação aos EUA e ao Ocidente (dos quais Israel representa a “cabeça de ponte” no Médio Oriente).

Netanyahu, portanto, ameaça o mundo, mas o mundo agora despreza-o. E não há dúvida sobre quais os interesses que prevalecerão em última análise: se a ansiedade da dominação supremacista ou a coexistência multilateral em paz. E as manifestações que, entretanto, tiveram lugar fora do Palácio de vidro estão lá para mostrar que, mesmo no “ventre da besta” imperial, esse país é considerado por mais e mais pessoas simplesmente como um “estado desonesto” do qual nos devemos proteger e que deve ser isolado.

 

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