PALCO 238 – ANTONIO SKÁRMETA (1940-2024) – por Roberto Merino

 

Soñe que la nieve ardía…(*)

Nas últimas páginas do semanário Sol, o jornalista Diogo Vaz Pinto dedica um espaço considerável a lembrar aqueles que partiram. As suas necrologias, sempre muito bem documentadas e de bela prosa, são motivo de uma boa leitura. Na última edição da semana passada, o artigo está dedicado ao escritor chileno Antonio Skármeta, com o título “O carteiro de Uma Geração Massacrada”.

Oportuno e simbólico título para um autor que, como no ofício do carteiro, tem como função trazer boas e más notícias. As más notícias estiveram relacionadas com o Golpe de Estado no Chile em setembro de 1973, o consequente exílio do escritor, que na sua peregrinação por Europa acabou por encontrar, como todos nós, os chilenos exilados, um lugar de repouso em segurança para a criação e para a continuação do seu labor. Para Skármeta foi Berlim/RFA, para mim foi primeiro Frankfurt, também na RFA, e mais tarde Portugal.

Skármeta foi sempre um apaixonado pela escrita e pelo cinema; esse caminho duplo  de criação levou-o a escrever romances, crónicas, peças de teatro e argumentos para o cinema.

O mais famoso e mais conhecido foi O Carteiro de Pablo Neruda, inicialmente intitulado como Ardente Paciência. O leitor português talvez não se lembre de que uma primeira versão para o cinema foi rodada em Portugal em 1983, que o filme foi distinguido em vários festivais de cinema, e a partir dele o autor viria a escrever o romance com o mesmo nome. Em 1994 Michael Radford estreou no Festival de Veneza uma nova adaptação cinematográfica da obra, desta feita intitulada, Il postino (O carteiro de Pablo Neruda, na sua versão portuguesa).

Também vamos lembrar as adaptações teatrais em Almada e Porto.

Almada em 2012, reposição nos meses de janeiro/fevereiro da encenação de Joaquim Benite.

Quando, em 1997, O carteiro de Neruda – uma adaptação de Carlos Porto, com encenação de Joaquim Benite – estreou no Festival de Almada, o acolhimento entusiástico anteviu uma auspiciosa e longa carreira para a peça, já levada à cena mais de cem vezes em Portugal e em Espanha. (informação Festival de Almada)

Em 2007, uma nova produção da Seiva Trupe (companhia na altura com 37 anos de existência), direção e encenação de Júlio Cardoso, cenografia de José Carlos Barros e interpretação de António Reis, Miguel Rosas e Sandra Ribeiro. Do argumento:  na ilha onde Mário, o Carteiro, vive, o principal ofício é a pesca. Mário não quer ser pescador e arranja trabalho como carteiro. Mas naquele lugar, não se lê nem se escreve e Mário tem um único cliente, Pablo Neruda, poeta chileno que vive na ilha, exilado do seu país. A amizade de Pablo Neruda e a sua poesia transformam a vida de Mário… para sempre….  

Logo no início da peça, Neruda diz a Mário que a explicação da poesia significa a morte do poema. A citação não é fiel, mas a ideia que lhe está subjacente é a mesma. Poesia não se explica, sente-se. Mário refugia-se nas metáforas de Neruda, porque as palavras conferem um novo sentido à sua vida, dão-lhe a dignidade que a sua condição de filho de pescador pobre não lhe deu ainda e não dará jamais. 

manuelapatrida à(s) quarta-feira, novembro 21, 2007  

 Julgo que foi em 2005 que servi de mediador para trazer até ao Porto o encenador e mestre chileno, Fernando González Mardones (**). O convite seria para que o encenador chileno realizasse uma nova versão com a Companhia Seiva Trupe/ST da sua adaptação do texto de António Skármeta, que tinha levado à cena no Chile. Por vários motivos, entre eles o da sua saúde, a vinda do professor e homem de teatro chileno não foi possível. Quem assumiria mais tarde a encenação seria Júlio Cardoso, diretor artístico da ST, e a interpretação foi de António Reis, na figura de Neruda.

Em agosto de 2012 encontrava-me no Chile, de visita aos meus pais e irmãos. Numa ida ao Teatro Municipal de Santiago, a nossa principal, e única, casa de ópera, assistimos com o meu amigo e companheiro de infância, o médico Fanor Villanueva, à representação de Tannhauser, ópera romântica escrita por Richard Wagner, estreada em Dresden no dia 19 de outubro de 1845. A ópera wagneriana voltava assim ao Municipal quase três décadas depois de ter sido representada por última vez.

À saída deparamo-nos com a presença, entre o público, de Antonio Skármeta. Nesse encontro casual dirigi-me a ele, para lhe dar notícias do espectáculo realizado no Porto com o seu texto. Skármeta foi sempre uma pessoa muito sorridente, simpática e que irradiava bonomia, e julgo que chegou a dar-me o seu cartão de visita. Prometi enviar-lhe material sobre a montagem   portuense. Foi essa a única oportunidade que tive de estar com   ele, e lamento que o momento não se tenha repetido.

Durante 10 temporadas Antonio Skarmeta realizou, El show de los libros ,um exitoso e popular programa  cultural da televisão chilena transmitido por TVN-Chile, entre 1992 e 2002. Nos diferentes episódios convidava um autor com o qual mantinha um virtuoso diálogo sobre literatura, abordando assuntos relacionados sobre. criação, estilos, géneros, etc.

Cito aqui antes de terminar – para algum curioso –  o episódio dedicado ao anti poeta chileno Nicanor Parra(***), que é uma autêntica delícia, pelo ato performativo e pelas curiosas respostas que Parra deu aos seus interlocutores.

 

Nicanor Parra se toma el Show de los Libros | #Chile50

 

 

À maneira de epílogo gostava de citar fragmentos da crónica de Diogo Vaz Pinto (****) que se inicia assim:

“Há homens que morrem com a boca cheia de noite e água, homens que sempre recordaram a vida como um só dia, que talvez nem lhes fosse destinado, um dia incessante, sem origens. Um dia a meio da semana, bom para se nascer ou morrer, para se sentir um homem transportado pelo acaso, indo ao encontro de uma mulher dessas que buscamos para nadar ou envelhecer. Antonio Skármeta acreditava no impacto de uma frase burilada pelas estações, como os frutos mais generosos… “

E que termina lembrando o massacre anunciado no título da publicação:

“A queda do governo de Salvador Allende e o seu assassinato na Casa de la Moneda foi o grande trauma que ele e outros escritores se recusaram a ultrapassar.

Enquanto outros escritores sul-americanos forçados ao exílio se instalaram em Barcelona, ao abrigo de Carmen Balcells, antes de o Boom se tornar um vespeiro, Skármeta andou aos tombos e sem um destino certo, até Berlim e o cinema o terem poupado à condição de penúria a que se vira condenado. Mas o tema fundamental da sua escrita foi sempre esse esforço para restaurar a dignidade dos vencidos, tentando restituir as gerações que se viram espoliadas dos seus sonhos e precipitadas num período de perseguições e massacres àquele momento simbólico em que se vislumbrou o que seria um movimento de verdadeira união e solidariedade social.”

Antonio Skármeta. O carteiro de uma geração massacrada

 


Notas:

(*)

“Soñé que la nieve ardía.

Soñé que el fuego se helaba.

Soñé que la nieve ardía,

soñé cosas imposibles.

Soñé… soñé, que tú me querías.

Soñé que tú me querías,

soñe… soñé, que el fuego se helaba.”

 

Poema de tradição Navarra que deu título ao romance de A. Skármeta, Soñé que la nieve ardía, de 1975.

(**) Aníbal Fernando González Mardones (1939-2023)1  actor, encenador e  professor de teatro chileno, recebeu o 7.º Prémio Nacional de Artes de la Representación y Audiovisuales de Chile Numerosos actores de reconhecida trajetória se formaram na sua academia, fundada em 1981, uma das mais destacadas de Chile.  Premio Nacional de Artes de la Representación y Audiovisuales de Chile -2005

(***) Nicanor Parra, viveu 103 anos, irmão mais velho de Violeta Parra. É o criador da Antipoesia e dos antipoemas; a sua obra revolucionou a poesia chilena e foi uma grande influência nos novos e jovens autores.

(****) Diogo Vaz Pinto (n. 1985, Lisboa) poeta e jornalista, estudou Direito em Lisboa, publicou três livros (Nervo, Bastardo e Anonimato) e escreve para o semanário Sol e o diário i na área de cultura. É co-fundador das Edições Língua Morta, com mais de 60 livros publicados.

 

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