PALCO 239 – VALÊNCIA – AGOSTO DE 2024 – por Roberto Merino

 

Em agosto deste ano estive alguns dias na cidade de Valência pela primeira vez. É uma cidade magnífica, entre o passado e o moderno, com as suas igrejas, o Mercado Central, centenário edifício monumental, Museus e ruas e jardins apelativos para caminhar e passear, apenas não consegui visitar o Teatro Principal (*), pelo facto de se encontrar fechado para férias.

O Mercado Central remonta a 1914, foi iniciado sob a direção dos arquitetos Francisco Guardia Vial e Alejandro Soler March. No entanto, devido às dificuldades económicas durante a Primeira Guerra Mundial, o mercado só ficou concluído em 1928. Com a sua inauguração a 23 de janeiro desse ano, tornou-se um dos maiores centros de comércio de produtos frescos da Europa. O próprio edifício é um símbolo emblemático da arquitetura valenciana do início do século XX, com influências do estilo gótico nas suas colunas de ferro e vitrais. A arquitetura de El Mercado Central é verdadeiramente inspiradora, com elementos de diferentes estilos, como o modernista e a Arte Nova, mas com predominância da Arte Nova Valenciana.

 

A Catedral 

 

“La Iglesia Catedral es el símbolo y el hogar visible de la comunidad diocesana presidida por el Obispo que tiene en ella su Cátedra… en la cátedra del Obispo, descubrimos a Cristo, Maestro, que, gracias a la sucesión apostólica, nos enseña a través de los tiempos …” Juan Paulo II – Madrid 1993

Magnífico edifício histórico que perpetua aquele que fora iniciado no século VIII: a principal mesquita de Balansiya foi construída naquela local, que serviu como catedral após a fundação do Reino Cristão de Valência por Jaime I, o Conquistador, em 1238, e em 22 de junho de 1262 o bispo Frei Andrés de Albalat O. P. colocou a primeira pedra da atual catedral,  começando com a Puerta de la Almoina em estilo tardo-românico e o ambulatório, para continuar mais tarde em estilo gótico.(informação oficial da Catedral  de Valência)

 

Museus, entre eles  destaco:

 

Foto de Roberto Merino

O Museu Nacional de Cerâmica e Artes Suntuárias González Martí sediado no palácio do Marqués de Dos Aguas, da cidade. Foi criado em fevereiro de 1947 a partir da doação ao Estado espanhol da coleção de cerâmicas do casal Amelia Cuñat y Monleón e Manuel González Martí, e inaugurado como museu a 18 de junho de 1954. É um belo edifício e no interior encontramos desde peças das mais rústicas até às porcelanas mais finas trazidas do Oriente.

Eu, como podem imaginar, não poderia deixar de visitar o Museu das Fallas/Museu Fallero. Como se sabe as Fallas são esculturas de figuras gigantescas que desfilam pela cidade e que são destinadas a ser queimadas, destruídas. Salvos do fogo, os ninots indultados por votação popular desde 1934, fazem parte da coleção que podemos ver no Museu. Também estão aí os cartazes das Fallas e fotografias sobre temas relacionados, assim como um vídeo explicativo sobre a festa  que  completa a visita ao museu.

 

o pintor joaquin sorolla-museu das fallas – foto de Roberto Merino
o escritor Blasco Ibanez…museu das fallas – foto de Roberto Merino

Na minha visita tive a oportunidade de reencontrar figuras que me são queridas e extremamente bem executadas, ainda bem que se salvaram do fogo, em fotografias que ilustram estão, Cervantes pensativo com o seu D. Quixote e Sancho Pança, o pintor valenciano Joaquin Sorolla, o escritor, também valenciano, Vicente Blasco Ibáñez, cujos romances mais famosos, Os quatro Cavaleiros do Apocalipses (1962) e Sangue e Areia (1941), ambos foram levados ao cinema nos Estados Unidos, e no México. E o meu querido Cantinflas, o actor mexicano mais famoso da história do cinema desse país.

Foto de Roberto Merino

Dadas as muitas ofertas culturais, pensei Valência, é uma cidade perfeita à qual só lhe falta é um rio!

 

La DANA- Danação

 

De facto o rio Turia  existe ou existia, atravessando a cidade, mas os acontecimentos de 14 de outubro de 1957 transformaram Valência num palco que viveu um dos seus marcos mais tristes, uma grande enchente que levou a vida de mais de 80 pessoas e trouxe prejuízos financeiros e materiais para milhares de pessoas. A tragédia culminou em um grande estudo sobre o desvio do Rio, para evitar que novos episódios como este viessem a acontecer. A obra de desvio do Rio Turia para o lado sul da cidade de Valência ficou conhecida como Plan Sur, e até os dias de hoje se mostra eficiente. Atualmente, o  Parque do Jardim do Turia em Valência é um tesouro na história dos Valencianos, que trouxe vida e natureza ao antigo leito do rio. 

Foi esta, talvez, uma das razões pelas quais a cidade de Valência não foi atingida pelas enchentes que se sentiram nos últimos dias na região valenciana.

As informações científicas, nesta última parte da crónica, são retiradas de uma entrevista do Jornal espanhol, El Mundo – 1/11/24- ao meteorologista e doutor em Geografia, membro da Associació Valenciana de Meteorologia, Rafael Armengot, que nos avisa: “Los valencianos sabemos de esto, vivimos con ello y no es una cosa del futuro. Es algo de siempre. Sabemos que dos veces por siglo, el Júcar se desmadra por completo”

Meteorologicamente uma DANA (em espanhol) se traduz como uma depressão aislada/isolada de níveis altos. Mas a esta última associaram-se sistemas de tormentas, uma depressão originada por ventos do Levante que alimentaram o processo, descarregando precipitações de intensidade torrencial de forma prolongada, chamada nas palavras do meteorologista trenes/comboios/convectivos. 

Como imagem, assim dada, a Dana assemelha-se a um comboio no qual cada carruagem é uma tormenta e que circulam uma atrás da outra! Fala-se de intensidade torrencial quando se supera os 60 litros por metro quadrado/hora. Na Dana desta semana foram superados os 100 litros por metro quadrado numa hora.

Desafortunadamente, quando escrevo, os mortos já ultrapassam as duas centenas e continuam os desaparecidos.

No Jornal Expresso-Internacional, no mesmo dia da publicação do artigo citado, publicou-se uma fotografia com a seguinte legenda; cheias em Espanha: esta barragem tem 34 metros (de altura) e mais de dois mil anos e aguentou a força do DANA- o que explica esta resistência?

Encomendada pelo imperador Augusto no século I, La Cuba , em Aragão é a mais alta barragem romana a sobreviver na Península Ibérica, ao resistir a força do DANA prova continuar a ser um vestígio da “filosofia romana de construir para a eternidade”.

 

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Notas:

Valência – capital da Comunidade Valenciana- é uma cidade milenar, com os seus quase 2200 anos. Foi fundada no ano de 138 a.C., perto do mar e às margens do Rio Túria. E se por um lado a vida em Valência sempre foi abundante e farta por causa do rio, foi também por causa dele que vários perigos e transtornos marcaram a história da cidade. Situa-se na costa do Mediterrâneo, no leste do país. É uma cidade muito antiga, sendo referenciada já no século II a.C., e foi fundada em 138 a.C. Com uma longa história, diversos museus, tradições populares como as Fallas e a proximidade do Mediterrâneo, é uma das cidades mais conhecidas e visitadas na Espanha. 

As Fallas de Valencia (Falles em valenciano) são  as festas que vão do 14 (plantà infantil) ao 19 (cremà) de  março. Oficialmente começam no último domingo de fevereiro com o acto de la crida (pregón ou chamada). Estas festas também são chamadas fiestas josefinas ou fiestas de San José, dado que se celebram em honra de São José, padroeiro dos carpinteiros, grémio muito vasto e numerosos na região. Etimologicamente, em valenciano medieval, a palavra (do latim  fac[u]la, diminutivo de fax, facho/antorcha) servia para designar as tochas que se colocavam no alto das torres de vigilância (wikipedia).

(*) Localizado no número 15 do Carrer de les Barcas, no distrito de Ciutat Vella, foi um projeto inicial do arquiteto italiano Filippo Fontana em 1774, mas os planos originais foram posteriormente modificados. A sua construção só começou anos mais tarde, e apesar de ter sido inaugurado em 1832, a obra só foi totalmente concluída em 1854. O interior foi inicialmente decorado no mais puro estilo rococó. A actuação  mais importante dos primórdios do teatro é a do compositor e virtuoso pianista Franz Liszt, como parte de sua turnê pela Espanha e Portugal entre outubro de 1844 e abril de 1845. Em Valência fez três apresentações entre 27 e 31 de março de 1845, todas no Teatro Principal. Na última, ofereceu ao público para tocar “o que lhe for pedido”, improvisando sobre temas de ópera popular da época. Os concertos foram um verdadeiro sucesso de público e crítica. (Wikipedia) 

 

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