Diz-me para eu não me sentir obrigado a responder-lhe. Não me sinto obrigado, creia. É um grande prazer, se bem que há muito tempo tenha deixado de discutir fé e religião com gente crente.
Dogmas e argumentos condicionados não são permeáveis à razão, e as conclusões são sempre frustrantes, muito provavelmente de parte a parte. Consigo é diferente, por duas razões principais: a primeira é que nasceu entre nós uma amizade que muito me apraz. A segunda reside no facto de o meu amigo ter um amplo sentido humano do entendimento da diferença e da diversidade, revestindo tudo o que diz de uma humildade transparente. Um pouco ao contrário do que acontece comigo, que, a despeito da humildade ser a qualidade que mais admiro, aparento, por vezes, uma arrogância que na realidade não existe. A grande diferença entre mim e o meu caro amigo – e vantagem minha – é que eu sou ateu, rigorosamente ateu, mas já fui crente. Esta parte negativa e quase negra da minha vida teve um lado positivo. Permite-me, hoje, a comparação entre a falsa liberdade da aleatória felicidade do obscurantismo e a aliciante liberdade da possível felicidade de uma razão não mais miscível com qualquer grande ou pequena crendice. A paz nascida da libertação de todas as angústias metafísicas, em favor do valor da vida e da força projectiva da curiosidade humana, a paz e a serenidade de uma total descrença mística constituem a grande oferta que a vida me fez. Penso que não vai levar a mal, mas a maior honra que pude conceder à sua carta foi dá-la a ler aos meus filhos, adolescentes. Os meus filhos são algumas das melhores e mais lúcidas pessoas que conheço. Cresceram sem que lhes fosse imposta qualquer ideologia ou religião. Quando muito, tentámos fazê-los entender como fundamentais, alguns dos princípios consagrados na sociedade, elementos indispensáveis para o equilíbrio individual e colectivo: a lealdade, a integridade, a honestidade, o sentido de justiça, a solidariedade, a fraternidade e o amor pelos outros. Os meus filhos sempre dispensaram deuses, mas não abdicam destes princípios que integraram a sua formação, feita essencialmente de lúcido querer e liberdade responsável. Daí o seu desacordo com o meu amigo quando diz “que não escolhendo a vida nem a morte lhe foi dado viver, e se foi apenas para aproveitar a vida ao máximo, porque ela é breve, então os pretos que vão para o inferno, dos fracos não reza a história, os pobres que trabalhem, não importa o abate de crianças para lhes roubar os órgãos, a escravatura, o prazer a qualquer preço, a exploração dos menos hábeis… para quê pruridos morais?”. Quer dizer o meu amigo que a fé parece não passar de uma atitude oportunista, de uma estratégia egoísta, de um cartão de crédito, uma espécie de Banco da fé onde se vai depositando o que se convencionou serem as nossas obras morais, a fim de garantir a entrada no céu, no país das maravilhas onde só cabem os eleitos, os que melhor rechearam os cofres de uma questionável moralidade, à boa maneira capitalista – aforradora. Sem deus e sem fé, como pode conceber-se a ausência de espírito racista, elitista, classista, de que me orgulho e muito me orgulha nos meus filhos? Como é possível que tantos e tantos homens na História, sem qualquer tipo de crença religiosa nem esperança de se sentarem à mesa de deus, tenham praticado em elevado grau a solidariedade, a fraternidade e o amor pelos outros? Quando diz “ainda não consegui que alguém que não acredita no prolongamento da vida para além da morte, me desse um argumento válido para ser bom para o meu semelhante,” o meu amigo insiste no prémio, no prémio à dimensão da imaginação humana, porque não pode ser outra, um prémio que consiste na ausência de dor, de sofrimento, de fome, de frio, eventualmente com música celestial, um novo género de música infalivelmente feita de notas iguais às de cá, porque não concebemos outras por enquanto, possivelmente com asas para dar umas voltas pelos céus do céu, e para os mais cultos, que exigem um toque transcendental, a felicidade eterna de estar, finalmente, na magnífica presença de deus, sorridente e afável, nunca mais temido nem ameaçador, porque entrados na felicidade do reino do céu é trigo limpo, nunca mais de lá saímos. O prémio a receber além da morte, como paga da fé e da questionável moral na procura da justiça e da verdade da vida!
(continua)

