Meu bom amigo, morreram e morrem milhões de crianças às mãos da fome e da violência, e deus atafulha as mesas dos que não têm fome e carrega as armas dos que vivem atrás das muralhas e nada têm a recear, a não ser a força de uma justiça que não existe. Não poderia o tal deus ter dado uma mãozinha aos escravos, aos índios americanos, aos milhões dos sem-terra do Brasil, aos famintos índios de Chiapas, aos explorados africanos, aos mortos e foragidos das suas terras por criminosas guerras de extermínio, em vez de permitir os assassinatos, a opressão, as ameaças, sequestros e genocídios perpetrados pela burguesia inatingível? Que pensará esse deus da bondade, gostava eu de saber, ao ver tantos milhões de iemenitas, palestinianos, sudaneses, ruandeses, zairenses, iraquianos, afegãos, líbios, sírios, e outros escorraçados da vida nas terras crucificadas, morrer ao peso das bombas e nos braços da fome, ouvindo arrotar de indigestão os abutres que os sugaram e ainda sugam até ao tutano? As guerras multiplicam-se como moscas e fazem correr rios de sangue…sempre…sempre ao sabor dos que mais rezam a deus! Milhões de mortos, despedaçados, estropiados, violentados, enquanto os mandantes batem no peito e rezam a deus, e a Igreja os borrifa de água benta. Terá sido deus a dar a inteligência, a força e a cultura às grandes potências, para terem o desplante de classificar o mundo em primeiro, segundo e terceiro, a fim de melhor escalonarem e planificarem a sua voracidade e rapina? Provavelmente foi, porque as grandes potências abarrotam de igrejas. Os que comem tudo e não deixam nada, os que movem os cordéis de todas as marionetes deste mundo, os que fazem a fome para que não lhes falte a fartura têm casas de ouro, férias para descansarem de não fazer nada, hospitais de luxo, o céu garantido aqui na terra e lá em cima, nas primeiras filas que o Vaticano sempre lhes reservou durante séculos. No meio deste cenário parece nascer, por vezes, um raio de luz… encarnando o arrependimento divino em pessoas como Leonardo Boff e tantos outros, mas não deixam de pairar no ar as sombras de vigilantes ministros de deus, como Pio XII, como o arcebispo Stepinac, unha e carne com o assassino fascista Ante Pavelic, cardeal Cerejeira (o benzedor de Salazar), Josemaria Escrivá (o benzedor de Franco), João Paulo II (aquilo que se sabe), ambos erguidos a “santos”, e Ratzinger (defensor do “segredo da pedofilia” e do Deutsche Bank), a representarem uma Igreja retrógrada e absolutista, fortemente entrosada com os poderes opressores, na cruzada contra toda e qualquer Teologia da Libertação, contra toda e qualquer verdadeira filosofia política do amor, fraternidade e solidariedade para com os condenados da terra.
Meu caro amigo – a quem muito considero – corroídos o discurso crítico e o cérebro…quase só nos resta acreditar em Deus.
Receba um cordial abraço do adão cruz.
(Fim)


É aqui que vale a pena ler o Cândido de Voltaire. Que culpa tem o comandante da nau se os ratos no porão se andam a comer uns aos outros? e porque se haveria de ralar com isso? As religiões fideístas não se resolvem em raciocínios, as instituições que se aproveitam delas não passam disso mesmo: Instituições, que como é próprio e normal querem crescer e aumentar o seu poder, e para isso vale tudo.