PALCO 242 – LIVROS E LIVRARIAS… – por Roberto Merino

 

“Hombres necios que acusáis
a la mujer sin razón,
sin ver que sois la ocasión
de lo mismo que culpáis?”

(Soror Juana Inés de la Cruz)

 

No México celebra-se a 12 de novembro o Dia Nacional do Livro, numa comemoração em homenagem ao nascimento de Soror Juana Inés de la Cruz (1648-1695), um emblemático expoente da literatura no país.

Quem foi esta notável mulher mexicana, hispânica, que durante muitos anos foi ignorada e menosprezada? Soror Juana Inés de la Cruz ou apenas Soror Juana (San Miguel Nepantla, 12 de novembro de 1651 — Cidade do México, 17 de abril de 1695) foi uma poetisa da escola barroca, dramaturga, filósofa e freira nova-espanhola. Foi a última dos grandes escritores do Século de Ouro. É conhecida pelo apelido de “Fénix da América” e também “A Décima Musa.”

Entre suas obras conta-se uma grande quantidade de poemas galantes, poemas de ocasião para presentes ou aniversários de seus amigos, poesias de salão sobre costumes ou amizades sugeridas por outros, letras para se cantar em diversas celebrações religiosas, e como dramaturga, duas comédias chamadas, Amor es más Laberinto (“Amor é mais Confusão”) e Los Empeños de una Casa (“As Obrigações de uma Casa”). (Wikipedia)

Soror Juana Inés de la Cruz, como intelectual mexicana e pioneira feminista, defendeu os direitos das mulheres à educação e liberdade em uma sociedade patriarcal opressora. Superou barreiras sociais e culturais para se tornar uma das mais brilhantes mentes de sua época, com uma produção literária vasta e um legado que continua a influenciar o feminismo e a luta pelos direitos das mulheres. Destacou-se desde muito jovem por sua inteligência.

Aos 16 anos, a jovem prodígio foi submetida a um teste público em que enfrentou teólogos, juristas e matemáticos convidados pelo vice-rei da Nova Espanha (atual México). Ela respondeu a perguntas complexas, superando com êxito todos os desafios propostos. A cena foi descrita posteriormente como “um galeão real que se defendia de algumas canoas”, tamanha era a sua superioridade intelectual. Essa exibição precoce de conhecimento chamou a atenção da corte e marcou o início de uma carreira literária e filosófica de grande impacto. (Magnum Mundis*)

Para a dramaturga e poetisa mexicana Aglae Margalli: “Soror Juana deslumbrou-me com a vastidão de sua criatividade. Mais tarde descobri a mulher que desafiava os cânones sociais e seguia em frente com aquela mentalidade universal, aquela demanda intelectual que a impulsionava. As ideias da chamada Décima Musa ultrapassaram os limites impostos por uma sociedade eminentemente sexista e repressiva”. “A sua altivez manteve-a de pé até o fim. Um espírito livre que não podia ser enclausurado, mesmo quando foi proibida de ler e falar. Curvada diante dos votos religiosos, mas nunca curvada na sua condição de mulher pensante”.

Deste lado do Atlântico, já sabemos que o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor  é comemorado todos os anos no dia 23 de abril, e organizado pela UNESCO para promover o prazer da leitura, a publicação de livros e a proteção dos direitos autorais. O dia foi criado na XXVIII Conferência Geral da UNESCO que ocorreu entre 25 de outubro e 16 de novembro de 1995.

A data de 23 de abril foi escolhida porque nesta data do ano de 1616 morreram Miguel de Cervantes, William Shakespeare e Inca Garcilaso de la Vega.

Alguém, não sei quem (?), enviou-me uma mensagem lembrando que no passado dia 11 de novembro se celebrava o Dia Mundial das Livrarias, uma data estabelecida em 2011 com a intenção de fomentar a imagem destes espaços como pontos de encontro em continua evolução para gerar cultura, e criar comunidades em torno do livro e da leitura.

Aproveito aqui esta oportunidade para enviar e saudar especialmente, numa época de desaparecimento das livrarias do Porto, à UNICEPE (**)  e ao Rui Vaz Pinto, amigo e diretor, e à sua equipa, desse lutador e emblemático espaço cultural de resistência , que é muito mais de que um posto de venda, é um pequeno centro cultural de múltiplas atividades, conferências, recitais, encontros de poesia, lançamento de livros, Roda de Choro, Jantares de amizade – já vai no 203º- ,convívios comemorativos e ultimamente ciclos de cinema.

Situada mesmo no coração da cidade, frente à igreja do Carmo e à Reitoria da Universidade do Porto, com vista para a Praça dos Leões, é um belo espaço, dividido em duas salas, o lugar de exposição e venda, e um pequeno auditório com piano para as outras muitas atividades.

 

Os actores chilenos Orietta Escámez e Humberto Duvachelle- pais de Orietta Paz, ao lado a actriz Angela Escámez, mãe de Roxana Pardo.

Foi neste belo espaço, tão romântico arquitetonicamente, que o meu amigo Rui recebeu na semana passada duas peregrinas chilenas, viajantes pela primeira vez e visitantes na cidade do Porto. O Rui tinha conhecido as mães destas duas jovens, também minhas amigas, numa viagem anterior ao Chile. Elas são Orietta Paz Duvachelle Escámez, filha de uma grande actriz chilena, e Roxana Pardo Escámez, filha de Angela Escámez, irmã de Orietta, também actriz. As duas primas aventuraram-se a visitar o Porto, e como noutras aventuras vão visitando os amigos dos amigos e neste caso, os amigos das suas mães.

 

Orietta Paz, Roxana Pardo e Rui Vaz Pinto da UNICEPE.

 

Ambas são sobrinhas de um grande pintor e muralista chileno exilado na Costa Rica até o dia da sua morte, Julio Escámez (1925-2015), que foi uma referência na pintura chilena e no muralismo latino-americano. O encontro serviu para recordar momentos passados e sonharmos com novos encontros no futuro para continuarmos a recordar…para isto servem os amigos e esses fabulosos espaços que são as livrarias.

Um obrigado ao Rui Vaz Pinto pelo acolhimento e pelo vinho do Porto: ouro sobre azul, numa tarde outonal, na cidade do Porto.

Roberto Merino

 

Notas:

(*) Magnus Mundi em 2015. Julio Cesar, nascido em Blumenau e residindo em Porto Belo, litoral de Santa Catarina.

Orietta Paz é filha do casal de actores chilenos Humberto Duvachelle e Orieta Escámez, é membro da Fundação Julio Escámez e foi durante anos produtora teatral da Companhia de Los Cuatro/Chile-reside no Chile.

Roxana Pardo é chilena, estudou teatro e reside em Cidade do México, onde administra um restaurante de comida chilena.

Entre as muitas curiosidades, Julio Escámez foi companheiro durante a sua vida de uma neta de Carlos G. Nascimento (1885-1966), o emigrante da Ilha do Corvo que se radicou no Chile, fundador da editora Nascimento que publicou, entre outros, os primeiros versos de Pablo Neruda.

(**) UNICEPE: 60 Anos de resistência e afectos. –Vem, serenidade, / não apagues ainda / a lâmpada que forra / os cantos do meu quarto, / o papel com que embrulho meus rios de aventura / em que vai navegando o futuro.Raul de Carvalho, Serenidade és minha

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