Nota prévia
O António Gomes Marques mandou-me um texto relembrando a data de 8 de Maio. Trata-se de um texto que deve ser lido e meditado (ver aqui) face ao que se passa hoje. Ao lê-lo lembrei-me de que tinha guardado um texto que a este pode ser considerado como estando ligado. Depois, esqueci-me do assunto, até que agora ao arrumar as coisas do meu computador, agora que regresso a casa, e dou de frente com o texto, sobre a batalha de Estalinegrado.
Trata-se de um texto de um dos mais brilhantes economistas americanos da atualidade, um homem que não pode ser nunca acusado de esquerdista, Bradford DeLong, escrito em 2012 e republicado em 2022. A justificar a palavra NUNCA por mim utilizada, deixo no fim do texto a nota em inglês do editor do artigo de 2022 sobre o curriculum de Brad DeLong.
Desse texto, relembro o parágrafo que considero menos significante:
O nosso passado construiu-se de camadas sobre camadas de instintos, propensões, hábitos de pensamento, padrões de interação e recursos materiais.
E relembremos a educação/formação da nossa juventude, cada vez mais ignorante, cada vez mais abandonada aos instintos pessoais e às pulsões dos mercados e à incompetência dos nossos políticos.
Se dúvidas há, vejam então o que se passa com a Queima das Fitas em Faro.
À superfície parece estar tudo bem, tudo muito bonito, muito festejo, muita bênção… mas se rasparmos um pouco a superfície, isto é o que se pode ver:
Em 6 de Maio Natacha Nunes Costa, no blog
diz-nos.(aqui)
Barraca de Semana Académica promove “exibição do corpo” em troca de shots
Aconteceu no Algarve. Associação já garantiu que barraca vai ser redecorada mas, entretanto, esteve cinco dias a incentivar estudantes a mostrar os seios em troca de bebidas grátis.
A barraca do curso de Engenharia Mecânica da Semana Académica do Algarve, que se realiza de 1 a 10 de maio, está a gerar polémica, uma vez que incentiva as estudantes do sexo feminino a mostrar as zonas íntimas em troca de bebidas grátis.
As imagens da “barraquinha” foram amplamente partilhadas nas redes sociais, inclusive por várias ativistas, como foi o caso de Inês Marinho, da associação ‘Não Partilhes‘.
(…)
Diz-nos a ativista Inês Marinho no Instagram (aqui) :
Há uma barraca na semana académica do Algarve (de engenharia mecânica – eng_mecanica_saa) que promove a objetificação e hipersexualização das mulheres em contexto académico. Estamos a falar de “desafios” como “mostra as mamas e ganhas um shot”, vídeos e fotos de raparigas despidas, gritos de grupo obscenos, referências a sites pornográficos e uma conta (com mais de 2300 seguidores (incluindo a @saalgarve) cheia de conteúdo sexualizado.
Isto não pode ser ignorado pela associação académica.
Onde há jovens vulneráveis, alcoolizados, em festas, não pode haver espaço para este tipo de comportamento. o problema é que isto não é só no algarve, é uma prática comum em espaços académicos…
Também: O Público
, em 6 de maio de 2025, noticiou este assunto (ver aqui):
A reitoria da Universidade do Algarve (UAlg) ordenou um inquérito para apurar responsabilidades e exigiu à Associação Académica o fim de comportamentos “sexistas” num dos postos de venda da Semana Académica, que recompensava a exposição corporal feminina com bebida.
(…)
Raparigas a beberem shots e os estudantes da direção da Academia a justificaram aquele tipo de atitude, como tendo os estudantes direito à brincadeira, como se a Universidade seja agora um parque infantil para jovens em final da adolescência, e digam-me se não vale a pena pensar no parágrafo citado.
Diria mais: foi para isto que lutaram e morreram aqueles [cerca de 2 milhões entre mortos e feridos] em Estalinegrado “cujo sacrifício salvou a sua [nossa] civilização?”
JMota, 11/05/2025
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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
3 min de leitura
A nossa dívida para com Estalinegrado
Publicado por
em 25 de Outubro de 2012 (original aqui)
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(ver aqui)
Há setenta anos, 200 mil soldados soviéticos – na sua esmagadora maioria homens e predominantemente russos – atravessaram o rio Volga em direção à cidade de Estalinegrado. Os soldados do Exército Vermelho, os trabalhadores que os armaram e os camponeses que os alimentaram transformaram a Batalha de Estalinegrado na luta que fez a maior diferença positiva para a humanidade.
BERKELEY – Não somos seres recém-criados, inocentes, racionais e razoáveis. Não fomos criados de fresco num Éden sem marcas, sob um novo sol. Somos, pelo contrário, o produto de centenas de milhões de anos de evolução míope e de milhares de anos de história não escrita e depois registada. O nosso passado construiu-se de camadas sobre camadas de instintos, propensões, hábitos de pensamento, padrões de interação e recursos materiais.
É sobre esta base histórica que construímos a nossa civilização. Sem a nossa história, o nosso trabalho não seria apenas em vão; seria um trabalho impossível.
E há os crimes da história humana. Os crimes horríveis. Os crimes inacreditáveis. A nossa história apodera-se de nós como um pesadelo, pois os crimes do passado marcam o presente e induzem a mais crimes no futuro.
E há também os esforços para parar e desfazer os efeitos dos crimes do passado.
Por isso, este mês, é oportuno escrever não sobre economia, mas sobre outra coisa. Há setenta e nove anos, a Alemanha enlouqueceu. Havia delinquência. Houve também história e azar. Os criminosos já estão quase todos mortos. Os seus descendentes e sucessores na Alemanha fizeram – e estão a fazer – melhor do que se poderia esperar para enfrentar e dominar o ingovernável e incontrolável passado da nação.
Há setenta anos, 200.000 soldados soviéticos – na sua esmagadora maioria homens e predominantemente russos – atravessaram o rio Volga em direção à cidade de Estalinegrado. Como membros do 62º Exército de Vasily Chuikov, agarraram o nariz do exército nazi e não o largaram. Durante cinco meses, lutaram. E talvez 80% deles tenham morrido nas ruínas da cidade. No dia 15 de outubro – um dia típico – o diário de batalha de Chuikov regista que foi recebida uma mensagem de rádio do 416º Regimento às 12h20: “Fomos cercados, munições e água disponíveis, antes a morte que a rendição!” Às 16:35, o tenente-coronel Ustinov lançou a artilharia sobre o seu próprio posto de comando cercado.
Mas eles aguentaram-se.
E assim, há 70 anos, em novembro deste ano – mais precisamente a 19 de novembro – a reserva de um milhão de soldados do Exército Vermelho foi transferida para a Frente Sudoeste do General Nikolai Vatutin, para a Frente Don do Marechal Konstantin Rokossovsky e para a Frente de Estalinegrado do Marechal Andrei Yeremenko. Continuaram a preparar a armadilha da Operação Urano, o nome de código para o planeado cerco e aniquilação do Sexto Exército Alemão e do Quarto Exército Panzer. Lutariam, morreriam, venceriam e, assim, destruiriam a esperança nazi de dominar a Eurásia nem que fosse por mais um ano – quanto mais de estabelecer o Reich de 1.000 anos de Hitler.
No seu conjunto, estes 1,2 milhões de soldados do Exército Vermelho, os trabalhadores que os armaram e os camponeses que os alimentaram transformaram a Batalha de Estalinegrado na luta que, de todas as batalhas da história da humanidade, fez a maior diferença positiva para a humanidade.
Provavelmente, os Aliados teriam acabado por ganhar a Segunda Guerra Mundial, mesmo que os nazis tivessem conquistado Estalinegrado, redistribuído as suas forças de ponta de lança como reservas móveis, repelido a ofensiva subsequente do Exército Vermelho no inverno de 1942 e tomados os campos petrolíferos do Cáucaso, privando assim o Exército Vermelho de 90% do seu combustível. Mas qualquer vitória dos Aliados teria exigido a utilização em larga escala de armas nucleares e um número de mortos na Europa que teria sido, muito provavelmente, o dobro do número de mortos da Segunda Guerra Mundial, talvez 40 milhões.
Que nunca mais haja outra batalha como esta. Que nunca mais precisemos de outra.
Os soldados do Exército Vermelho, e os trabalhadores e camponeses da União Soviética que os armaram e alimentaram, permitiram que os seus senhores ditatoriais cometessem crimes – e cometeram eles próprios crimes. Mas esses crimes ficam muito aquém do grande serviço à humanidade – e especialmente à humanidade da Europa Ocidental – que prestaram nos escombros ao longo do rio Volga, há 70 anos, neste outono.
Nós somos os herdeiros dos seus feitos. Somos seus devedores. E não podemos pagar o que lhes devemos. Podemos apenas recordá-lo.
Mas quantos líderes da NATO ou presidentes e primeiros-ministros da União Europeia já se deram ao trabalho de visitar o local da batalha e talvez depositar uma coroa de flores àqueles cujo sacrifício salvou a sua civilização?
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Bradford DeLong, Professor of Economics at the University of California, Berkeley, is a research associate at the National Bureau of Economic Research and the author of Slouching Towards Utopia: An Economic History of the Twentieth Century (Basic Books, 2022). He was Deputy Assistant US Treasury Secretary during the Clinton Administration, where he was heavily involved in budget and trade negotiations. His role in designing the bailout of Mexico during the 1994 peso crisis placed him at the forefront of Latin America’s transformation into a region of open economies and cemented his stature as a leading voice in economic-policy debates.





Dívida impagável!