O CÉREBRO TAMBÉM PODE APODRECER
por Adão Cruz
Já o tenho dito muitas vezes, mas não me canso de o repetir. O nosso cérebro, encerrado completamente às escuras numa dura caixa óssea, é a estrutura mais complexa e mais difícil de entender, no planeta e no Universo conhecido. O simples cérebro de uma formiga é uma estrutura mais complexa e difícil de entender do que uma estrela. O nosso cérebro é composto por 86.000 milhões de células, ou neurónios, ligados entre si por biliões de ramificações. Um milímetro cúbico de córtex cerebral contém mais conexões do que seres humanos à superfície da terra. Este nosso admirável e soberano órgão realiza provavelmente triliões de ligações e cálculos durante os nossos raciocínios do dia-a-dia. E todos nós o desprezamos, considerando-o pouco mais do que um instrumento de discussão futebolística. Porém, não é propriamente esta mensagem numérica o que aqui quero deixar. Gostaria que ficasse retida a sua essência, isto é, o reconhecimento da poderosíssima arma e riqueza da nossa estrutura mental, do nosso pensamento e da nossa razão.
Diante de tudo o que se passa actualmente no mundo, especialmente o silêncio e a indiferença perante a crueldade e a barbaridade nunca vistas, a desumanidade elevada ao mais alto grau, a morte lenta da solidariedade e justiça sociais, o hedonismo absoluto e o espezinhar de toda a ética e dignidade, como vemos inacreditavelmente e diariamente nos ditos líderes europeus e não só, sou levado a pensar que uma boa parte do cérebro humano da nossa sociedade está envolta numa nuvem de poeira ou mesmo enferrujada ou até apodrecida. Como se fora uma maçã, meio sã e meio podre. Simplesmente, a parte sã nunca consegue regenerar a parte podre, mas esta continua a invadir a parte sã até que toda a maçã apodreça por completo. Se a parte podre e a parte sã da sociedade fossem bem definidas e houvesse uma hipótese cirúrgica de as separar, seria a única solução terapêutica, permitindo extirpar a metade podre, deitando-a repugnantemente ao lixo. A forma de o fazer, como é óbvio, não seria fácil de imaginar. Porém, o são e o podre da humanidade não estão, provavelmente, separados em duas metades distintas, como na maçã. O podre pode estar infiltrado no meio do são e o são infiltrado no meio do podre, o que nos leva a pensar que a vitória da parte sã se tornaria ainda muito mais difícil ou impossível. Uma tão ciclópica tarefa, a ser tentada, só poderia ser levada a cabo no seio daquela parte da sociedade, cujo cérebro ainda saudável fosse capaz de lutar diariamente com as armas mais poderosas do ser humano, o pensamento e a razão, único detergente com poder para limpar as zonas podres da nossa mentalidade. Porém, tal detergente, aquele que a ignóbil e prostituída comunicação social não permite, é substituído por outro mais fraco, uma espécie de linha branca, fazendo pouca espuma e deixando o cérebro permanentemente untuoso de gordura. Seria indispensável conhecemos o mais profundamente possível e enfrentarmos como cidadãos conscientes os factores necróticos da degenerescência humana e os catalisadores da putrefação, que são incomensuráveis. Desde a diabólica corrupção à criminalidade social dos que nunca foram filhos e nunca tiveram nada, até aos crimes bem mais graves e socialmente destrutivos de muitos dos que sempre tiveram pais e tiveram tudo. Desde as mentiras, distorções, falsidades e obscurantismos de toda a espécie, à monumental hipocrisia e crimes das instituições, nomeadamente religiosas, consideradas impenetráveis à desonra, mas mostrando-se ao mundo como campeãs em muita podridão, nomeadamente a que respeita a um dos mais hediondos crimes, a pedofilia. Podemos pensar que se trata de um trabalho quase utópico, numa sociedade mentalmente anquilosada, atrofiada, de neurónios quase murchos, difíceis de reanimar, nos quais os poderes instituídos fecharam o fluxo da razão a sete chaves, a razão fruto do pensamento, o pensamento como a mais poderosa arma de que o homem dispõe contra a exploração do homem pelo homem, contra a escravidão, a perversão dos mais nobres princípios, contra a fraude de governos e grandes corruptos, contra a especulação selvagem, contra a injustiça, contra a mentira, contra a falta de ética e moral, contra a estupidificação institucionalizada e contra a falsa cultura,..a cínica madrasta de um sociedade livre.
Pintura de Adão Cruz



A ciclópica tarefa de restaurar a parte sã do nosso cérebro é-o sem dúvida. Mas esse trabalho “quase utópico”, como diz Adão Cruz, não deixa de ser absolutamente necessário, ainda que possa ser um grão de areia na imensidão do universo face à pequenez da nossa passagem por ele.