HIROSHIMA, 6 DE AGOSTO DE 1945 – por Adão Cruz

HIROSHIMA

poema de Adão Cruz

(no livro “HIROSHIMA, ANTOLOGIA DE POEMAS”, de Carlos Loures e Manuel Simões)

Nos limites da razão

onde os homens produzem monstros

todos nos sentimos escombros

do maior terrorismo da História humana.

Nasceu a manhã mais cruel da mais inocente madrugada

a manhã mais negra do que a noite do absurdo.

O inferno rasgou o sol e a lua

os rostos e os braços

arrancou as árvores

secou os rios e as fontes

enchendo a cidade de sangue e corpos em pedaços.

Um mar de gente… no corpo nu da solidão

gente só…no ventre da multidão

olhos vidrados de lágrimas e pânico

correndo… fugindo…

para onde… para o nada…

para o abismo da escuridão

sobre restos de sonhos e pedaços de vida

espalhados pelo chão

onde a dor fincou as garras

abafando os gritos em catedrais de cinzas.

O fim de tudo entrou pelas portas e janelas

e comeu tudo…

comeu as casas que caíram

as mãos que deixaram de brincar

comeu os olhos que deixaram de olhar

e as bocas que deixaram de respirar.

Tudo era dentro e tudo era fora

na amplidão do desespero

não havia mães nem filhos nas entranhas da aflição

não havia rumo nem caminho

no deserto infindo da maldição.

Tudo se fez pó

não ficou pedra sobre pedra

e nem pedras havia no chão

já o chão não era chão

mas o fundo abismo de uma cratera

onde tudo era estendal de morte

sem porta de entrada sem porta de saída

sem tempo sem norte sem vida

sem ruas sem movimento

sem fímbria de céu ou de mar.

O nada entrou no coração

que deixou de bater no peito de muitos mil

ao peso de cinquenta quilos de urânio

e toneladas de glória americana

erguendo até ao cume da barbárie

a bandeira mais cruel da natureza humana.

Uma fria luz de prata atravessou o mundo

perfurou a mente e as ideias

em seco lamento de gemido sem remédio

como latido de cão atirado ao vento.

E o mundo dormiu suavemente…

e ainda hoje não acordou.

Entre milhares de bombas e estrondosos hinos

o mundo de olhos cegos e ouvidos moucos

ainda dorme…

nada mais ouvindo que o silêncio dos assassinos.

 

 

2 Comments

  1. E impressionante pensar como o maior estrondo não natural criado pelo homem, pode calar a vida num feixe instantâneo de luz, gerando no fim uma onda de escuridão, calor e morte, uma descrição tão próxima do inferno gerado apenas pela ganância humana.

    Obrigado pela reflexão e uma boa semana…

  2. Fundamental reflexão sobre a memória, tão importante nos dias de hoje, não como saudosismo do passado mas como instrumento do agir futuro. Como disse Alexis de Tocqueville, “quando o passado já não ilumina o futuro, o espírito caminha na obscuridade”. Infelizmente, assim andamos nestas nossas sociedades ocidentais ditas civilizadas.

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