Espuma dos dias — O amanhecer da sociedade pós-letrada e o fim da civilização (2/2).  Por James Marriott

 

Nota de editor: devido à sua extensão, este texto é publicado em duas partes, hoje a segunda.

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 min de leitura

O amanhecer da sociedade pós-letrada e o fim da civilização (2/2)

 Por James Marriott

Publicado por  em 19 de Setembro de 2025 (original aqui)

 

“O que Orwell temia eram aqueles que proibiriam livros. O que Huxley temia era que não haveria motivo para proibir um livro, porque ninguém iria querer ler um.”

— Neil Postman, Amusing Ourselves to Death

 

Talvez estejamos prestes a descobrir que não é possível administrar a civilização mais avançada da história do planeta com o aparato intelectual de uma sociedade pré-letrada.

 

(conclusão)

 

O fim da criatividade

A era da impressão foi caracterizada por um dinamismo sem precedentes e uma riqueza cultural extraordinária. A leitura é uma pedra fundamental da criatividade e da inovação que são essenciais para a modernidade.

Não é necessário que todos os cidadãos sejam ávidos leitores para que uma sociedade se beneficie da cultura impressa. No entanto, se há um hábito que une os líderes, inventores, cientistas e artistas que moldaram a nossa civilização, esse hábito é a leitura. Os leitores dedicados estão sobre representados em quase todas as áreas de realização humana.

Veja-se grandes políticos: Teddy Roosevelt afirmava ler um livro por dia; Winston Churchill estabeleceu para si, ainda jovem, um ambicioso programa de leitura em filosofia, economia e história, e continuou a ler vorazmente ao longo de sua vida. Clement Attlee recordava que lia quatro livros por semana quando era estudante.

 

Ou considere a cultura popular (geralmente não vista como um campo particularmente literário da atividade humana). David Bowie lia, segundo as suas próprias palavras, “vorazmente”. “Guardo comigo todos os livros que comprei. Não consigo deitá-los fora”, disse certa vez. “É fisicamente impossível sair da minha mão!” Uma lista que Bowie escreveu com os seus cem livros favoritos inclui obras de William Faulkner, Tom Stoppard, DH Lawrence e TS Eliot.

Num livro recente sobre a sua carreira como compositor, Paul McCartney citou “Dylan Thomas, Oscar Wilde e Allen Ginsberg, o escritor simbolista francês Alfred Jarry, Eugene O’Neill e Henrik Ibsen” entre os autores que o inspiraram.

Thomas Edison leu profundamente ao longo de toda a sua vida. Charles Darwin também. Albert Einstein também. Ironicamente, até Elon Musk afirma que foi “criado por livros”.

A leitura enriquece o trabalho criativo ao oferecer a homens e mulheres de genialidade acesso ao vasto e inestimável tesouro de conhecimento preservado nos livros — “o melhor que foi pensado e dito”. A disciplina da leitura capacita-os com ferramentas analíticas para interrogar, refinar e revolucionar essa tradição.

Como argumenta Elizabeth Eisenstein em A Revolução da Imprensa na Europa Moderna, a invenção da prensa tipográfica ajudou a catalisar uma série de revoluções culturais que moldaram o mundo moderno: o Renascimento, a Reforma e a revolução científica. Outros historiadores acrescentariam o Iluminismo, o nascimento dos direitos humanos e a revolução industrial.

Eisenstein explica como é que a tendência da leitura para fomentar a inovação se manifestou nas universidades renascentistas. Com a invenção da imprensa, os estudantes passaram a ter maior acesso aos livros, permitindo que “alunos brilhantes ultrapassassem o alcance dos seus professores. Estudantes talentosos já não precisavam de se sentar aos pés de um mestre específico para aprender uma língua ou uma competência académica” E assim sucessivamente.

Assim, os estudantes que aproveitavam textos técnicos que funcionavam como instrutores silenciosos eram menos propensos a submeter-se à autoridade tradicional e mais recetivos a tendências inovadoras. Mentes jovens, munidas de edições atualizadas — especialmente de textos matemáticos — começaram a superar não apenas os seus próprios mestres, mas também a sabedoria dos antigos.

Os estudantes modernos que não sabem ler voltam a depender da autoridade dos seus professores e são menos capazes de avançar, inovar e questionar ortodoxias.

Estes estudantes são apenas um sintoma da cultura estagnada da era dos ecrãs, caracterizada pela simplicidade, repetitividade e superficialidade. Os seus sintomas são observáveis à nossa volta.

As canções populares, em todos os géneros, estão a tornar-se mais curtas, simples e repetitivas, e os filmes estão a ser reduzidos a fórmulas de franquias repetidas à exaustão. . Estudos sugerem que o número de invenções “disruptivas” e “transformadoras” está em declínio. Mais dinheiro é gasto em investigação científica do que nunca na história, mas a taxa de progresso “mal acompanha a do passado.

Sem dúvida, muitos fatores estão aqui em jogo, mas isso é também exatamente o que se esperaria de uma geração de investigadores que passou a infância agarrada a ecrãs em vez de ler ou pensar.

Mesmo os próprios livros estão-se a tornar menos complexos.

 

Se o mundo letrado era caracterizado pela complexidade e inovação, o mundo pós-letrado é caracterizado pela simplicidade, ignorância e estagnação. Provavelmente não é coincidência que o declínio da alfabetização tenha trazido consigo uma obsessão pela “nostalgia” cultural — um desejo de reciclar incessantemente as formas culturais do passado: os programas de televisão e estilos dos anos noventa, por exemplo, ou as modas do início dos anos 2000.

A nossa cultura está a ser transformada num terreno baldio de telemóveis inteligentes.

Cortados das riquezas culturais do passado, estamos condenados a viver num eterno presente narcisista. Privados das ferramentas críticas para questionar e desenvolver os ensinamentos daqueles que vieram antes de nós, estamos condenados a repetir e imitar-nos a nós mesmos sem fim — filme de super-herói após filme de super-herói, música pop repetitiva após música pop repetitiva.

Acima de tudo, essa cultura cada vez mais trivial e sem sentido é uma calamidade para a nossa política.

 

A morte da democracia

Curiosamente, do ponto de vista atual, a revolução da leitura do século XVIII foi acompanhada não apenas por entusiasmo, mas também por um pânico moral.

“Nenhum amante do tabaco ou do café, nenhum apreciador de vinho ou amante de jogos, pode ser tão dependente do seu cachimbo, garrafa, jogo ou mesa de café quanto esses muitos leitores famintos são do seu hábito de leitura”, bradou um clérigo alemão.

Richard Steele temia que “os romances criassem expectativas que o curso ordinário da vida jamais poderia realizar”. Outros preocupavam-se por considerarem que a leitura “excita demais a imaginação e fatiga o coração”.

É fácil rir destas ansiedades. Passamos a vida inteira a ouvir como é uma virtude e sensato ler livros. Como podia a leitura ser perigosa?

Mas, em retrospetiva, estes moralistas conservadores tinham razão em preocupar-se. A rápida expansão da alfabetização ajudou a destruir o mundo ordenado, hierárquico e profundamente desigual que eles tanto prezavam.

A revolução da leitura foi uma catástrofe para os aristocratas ultraprivilegiados e exploradores do antigo regime aristocrático europeu — o velho sistema autocrático de governo com reis todo-poderosos no topo, senhores e clero abaixo, e camponeses a contorcerem-se na base.

A ignorância era uma pedra fundamental da Europa feudal. As vastas desigualdades da ordem aristocrática conseguiam ser sustentadas, em parte, porque a população não tinha meios de descobrir a extensão da corrupção, dos abusos e das ineficiências dos seus governos.

E a antiga hierarquia feudal era justificada não tanto por argumentos lógicos, mas por aquilo que Walter Ong poderia ter reconhecido como apelos pré-letrados ao pensamento místico e emocional.

Isto era o que os historiadores do século XVII conhecem como a cultura ‘representacional’ do poder — o sistema altamente visual de propaganda monárquica que impunha aos súbditos a imagem temível e impressionante do rei. O regime exibia o seu poder por meio de desfiles, pinturas, espetáculos de fogos de artifício, estátuas e edifícios grandiosos.

 

O sistema funcionava numa época anterior à alfabetização em massa. Mas, à medida que o conhecimento se espalhou pela sociedade e os modos de pensamento analítico e crítico promovidos pela imprensa ganharam força, toda a atmosfera mental e cultural que sustentava a antiga ordem foi destruída. As pessoas começaram a saber demais. E a pensar demais.

A ordem feudal parece ser fundamentalmente incompatível com a alfabetização. O historiador Orlando Figes observou que as revoluções inglesa, francesa e russa ocorreram em sociedades nas quais a taxa de alfabetização se aproximava de cinquenta por cento.

O livro The Revolutionary Temper, de Robert Darnton, narra o caos desencadeado sobre o antigo regime na França pela era da imprensa. O conhecimento difundiu-se pela sociedade francesa com efeitos desastrosos: prisioneiros políticos escreveram memórias que se tornaram best-sellers, divulgando a sua injusta prisão pelo Estado; pessoas comuns consumiam panfletos sobre a riqueza exorbitante e injusta desfrutada pelos aristocratas; as finanças desastrosas do governo passaram a ser debatidas por um público incrédulo e furioso, em vez de ser a portas fechadas nos bastidores de Versalhes.

Enquanto isso, os modos analíticos e críticos de pensamento começaram a corroer os fundamentos místicos e emocionais da antiga ordem. Os philosophes e os pensadores radicais do Iluminismo, apoiados por um público leitor da classe média em crescimento, começaram a fazer os tipos de perguntas críticas que têm um tom eminentemente associado à cultura impressa. De onde vem o poder? Porque é que alguns homens têm tanto mais do que outros? Porque é que todos os homens não são iguais?

[Vale destacar que esta explicação altamente simplificada claramente exclui muitos dos fatores que moldam o desenrolar da história: economia, clima, indivíduos, acaso. A imprensa, por si só, não pode trazer paz e democracia (vide as consequências da Revolução Russa). E tampouco pode abolir as tendências humanas inatas ao partidarismo e à violência (vide o desfecho da Revolução Francesa). A imprensa certamente não é imune a notícias falsas e teorias da conspiração (vide os eventos que antecederam a Revolução Francesa)].

Mas o leitor não precisa de acreditar que a imprensa é um sistema de comunicação perfeito e incorruptível para aceitar que ela é quase certamente uma condição prévia necessária para a democracia.

Em Amusing Ourselves to Death, Neil Postman argumenta que democracia e imprensa são virtualmente inseparáveis. Uma democracia eficaz pressupõe uma cidadania razoavelmente informada e relativamente crítica, capaz de compreender e debater detalhadamente e extensivamente os assuntos do momento.

A democracia extrai uma força imensa da imprensa — o velho mundo moribundo dos livros, jornais e revistas — com a sua tendência a promover conhecimento profundo, argumentação lógica, pensamento crítico, objetividade e envolvimento desapaixonado. Nesse ambiente, pessoas comuns têm as ferramentas para entender os seus governantes, criticá-los e, talvez, substituí-los.

Postman cita os debates Lincoln-Douglas de 1858, nos quais ambos os candidatos presidenciais falaram por um tempo incrivelmente longo e com detalhes notáveis, como um dos pontos altos da cultura impressa:

O acordo previa que Douglas falaria primeiro, durante uma hora; Lincoln teria uma hora e meia para responder; e Douglas, meia hora para refutar a resposta de Lincoln. Esse debate foi consideravelmente mais curto do que aqueles aos quais os dois homens estavam acostumados… em 16 de outubro de 1854, em Peoria, Illinois, Douglas fez um discurso de três horas ao qual Lincoln, por acordo, deveria responder.

Quando Postman escrevia, no final da década de 1980, tais debates já eram impossíveis de imaginar. Ironicamente, os debates televisionados que ele criticava como degradados, pouco informativos e excessivamente emocionais parecem, para os espectadores do século XXI, quase comicamente civilizados e de nível de profundidade elevada.

A política na era dos vídeos curtos favorece a emoção exacerbada, a ignorância e afirmações sem evidências. Essas circunstâncias são extremamente propícias para charlatães carismáticos. Inevitavelmente, partidos e políticos hostis à democracia estão a prosperar neste mundo pós-letrado. O uso do TikTok está correlacionado com o aumento da votação para partidos populistas e de extrema-direita.

O TikTok, como diz o escritor Ian Leslie, é “combustível de foguete para populistas”.

Por que o TikTok beneficia desproporcionalmente os populistas? Porque, quase por definição, o populismo prospera com emoções, não com pensamentos; com sentimentos, não com frases. Os populistas são especialistas em proporcionar aquela onda de certeza que você sente quando tem a certeza de que está certo. Eles não querem que você pense. Pensar é onde a certeza vai para morrer.

A ordem democrática liberal, racional e serena, baseada na palavra impressa, pode não sobreviver a esta revolução.

 

Dentro do inferno da imbecilidade

As grandes empresas de tecnologia gostam de se ver como investidas na disseminação do conhecimento e da curiosidade. Na realidade, para sobreviver, elas precisam de promover a estupidez. Os oligarcas da tecnologia têm tanto interesse na ignorância da população quanto o mais reacionário dos autocratas feudais. A raiva burra e o pensamento partidário mantêm-nos agarrados aos nossos telefones.

E enquanto as antigas monarquias europeias tentavam (frequentemente de forma inepta) censurar materiais perigosamente críticos, as grandes empresas de tecnologia garantem a nossa ignorância de forma muito mais eficaz, inundando a nossa cultura com raiva, distração e irrelevância.

Estas empresas estão a trabalhar ativamente para destruir o iluminismo humano e inaugurar uma nova era das trevas.

A revolução dos ecrãs moldará a nossa política tão profundamente quanto a revolução da leitura do século XVIII.

Sem o conhecimento e sem as competências do pensamento crítico promovidas pelo material impresso, muitos cidadãos das democracias modernas encontram-se tão indefesos e crédulos quanto os camponeses medievais — movidos por apelos irracionais e propensos ao pensamento de rebanho. O mundo pós-imprensa assemelha-se cada vez mais ao mundo pré-imprensa.

Prosperam superstições e pensamentos antidemocráticos. A investigação académica nas nossas universidades é moldada por partidarismo rígido, não por tolerância e curiosidade. A nossa arte e literatura são mais grosseiras e simplistas.

Muitas pessoas hoje mostram-se tão desconfiadas das vacinas quanto os ignorantes do século XVIII satirizados pelo cartunista James Gillray há mais de duzentos anos.

À medida que o poder, a riqueza e o conhecimento se concentram no topo da sociedade, um público revoltado, dividido e desinformado carece de meios para entender, analisar, criticar ou mudar o que está a acontecer. Em vez disso, cada vez mais pessoas são cativadas por apelos altamente emocionais, carismáticos e místicos — os mesmos que fundamentavam o poder na era anterior à alfabetização generalizada.

Assim como o surgimento da imprensa deu o golpe final no mundo decadente do feudalismo, o ecrã está a destruir o mundo da democracia liberal.

À medida que as empresas de tecnologia eliminam a alfabetização e os empregos da classe média, podemo-nos encontrar numa segunda era feudal. Ou talvez estejamos a entrar numa era política para além da nossa imaginação.

Aconteça o que acontecer, já estamos a ver o mundo que conhecíamos a derreter-se diante dos nossos olhos. Nada será como antes.

Bem-vindo à sociedade pós-letrada.

 

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O autor: James Marriott é colunista do The Times e escritor do Cultural Capital. É licenciado em Humanidades e Ciências Sociais, Literatura inglesa pela Universidade de Oxford.

 

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