Espuma dos dias — A hipocrisia grosseira do Reino Unido em relação ao terrorismo. Por Craig Murray

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 min de leitura

A hipocrisia grosseira do Reino Unido em relação ao terrorismo

 Por Craig Murray

Publicado por  em 23 de setembro de 2025 (ver aqui)

Publicação original em CraigMurray.org.uk aqui

 

A admissão de que o governo do Reino Unido forneceu ajuda a um grupo terrorista proscrito, ao mesmo tempo em que prendeu cidadãos por apoiarem um grupo antigenocídio igualmente proscrito, é o cúmulo da hipocrisia.

 

Rebeldes do HTS (sunitas radicais sírios) coordenando-se em Hamã (cidade na Síria) em 2024. (Voz da América/ Wikimedia Commons/ Domínio público)

 

O chefe cessante do MI6, Richard Moore, admitiu formalmente num discurso público em Istambul que o MI6 vem cooperando com o HTS [Hay’at Tahrir al-Sham] na Síria – uma organização proscrita pela Lei Antiterrorismo – há anos. Ele disse:

Obtivemos informações sobre o Sudão em horas; continuamos a combater o terror que emana do Afeganistão e, tendo estabelecido uma relação com o HTS um ou dois anos antes de derrubarem Bashar, forjámos um caminho para que o governo do Reino Unido regressasse ao país dentro de semanas,

A Síria é um bom exemplo aqui de onde, se conseguirmos antecipar os acontecimentos, realmente ajuda quando, de repente, inesperadamente, se movem a um ritmo mais rápido.

O governo está a prender velhinhas por transportarem cartazes de apoio a uma organização proscrita, a Ação Palestina, enquanto admite ter apoiado ativamente outra organização proscrita. O HTS foi proscrito como uma divisão da Al-Qaeda, como consta no sítio do governo:

Como aprendi enquanto estava no Líbano, o apoio britânico ao HTS incluía suporte de inteligência, treino e armas, sedeados em bases secretas do Reino Unido no vale de Bekaa, nomeadamente dentro da base aérea de Rayak.

Também incluiu apoio por meio de uma ONG chamada Inter-Mediate, dirigida pelo atual Conselheiro de Segurança Nacional britânico, Jonathan Powell, antigo Chefe de Gabinete de Tony Blair em Downing Street.

No Reino Unido, nem o governo nem os serviços de segurança estão acima da lei. O facto de nem Moore, nem Powell, nem qualquer um dos envolvidos diretamente no apoio ativo e substancial ao HTS — uma organização proscrita — ter sido preso, enquanto há pessoas que são presas por segurar um cartaz em apoio à Ação Palestina por ser uma organização proscrita, constitui a própria definição de um governo arbitrário e opressor.

O Estado de direito imparcial no Reino Unido ruiu completamente. Tudo isto não era senão apoio material a uma organização proscrita.

Entretanto, temos o gesto vazio de Starmer de reconhecer a Palestina. Isso visa apaziguar os membros do Partido Trabalhista que estão horrorizados com o genocídio em Gaza. Como não há intenção alguma de limitar ou mesmo reconhecer o genocídio, o gesto de Starmer é a própria definição de um gesto inútil.

Protesto de Ação Palestina, Londres, sábado, 6 de setembro de 2025. (Indigonolan/ Flickr/ CC BY 4.0)

 

A Palestina já foi reconhecida por três quartos das nações do mundo. O que Starmer acredita ter promovido é um Estado enclave, irremediavelmente dividido entre uma Gaza obliterada, pequenos e isolados remanescentes da Cisjordânia e o que resta de Jerusalém Oriental. Que esses remanescentes cindidos possam algum dia constituir um Estado viável é claramente impossível — e essa é precisamente a ideia.

Além disso, Starmer ataca a própria definição de Estado ao insistir que se pode dizer aos palestinianos quem deve governá-los. A ideia de que o traidor Mahmoud Abbas e a sua Autoridade Palestiniana alguma vez seriam escolhidos pelo povo palestiniano é um completo absurdo.

Além disso, Macron e Starmer especificaram que um Estado palestiniano deve ser desarmado, não ter forças armadas e ser vítima do Estado genocida vizinho o tempo todo. O plano saudita/francês até afirma que Israel deve ter controle sobre a nomeação de polícias palestinianos!

A única vantagem deste ato de reconhecimento é que tornará politicamente mais difícil para o Reino Unido não reagir com as primeiras sanções genuínas contra Israel assim que Israel anexar formalmente Gaza ou a Cisjordânia. Trata-se, portanto, de uma melhoria política mínima.

Tendo o governo britânico já repudiado a conclusão de genocídio da Comissão de Inquérito da ONU, o ataque a Gaza em pleno andamento e a Flotilha Global Sumud muito provavelmente sendo recebida por Israel com força letal, Starmer está, como sempre, completamente fora de contacto com a opinião pública se acredita que reduziu a pressão política sobre a sua cumplicidade no genocídio.

 

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O autor: Craig Murray [1958 – ] é autor, radiodifusor e activista dos direitos humanos. Foi embaixador britânico no Uzbequistão de Agosto de 2002 a Outubro de 2004 e reitor da Universidade de Dundee de 2007 a 2010. As suas reportagens estão inteiramente dependentes do apoio dos leitores. As subscrições para manter o seu blogue em funcionamento são recebidas com gratidão.

 

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