Vergonhas da Espécie
por Carlos Pereira Martins
O que mais nos envergonha, desilude e desprestigia pelo simples facto de pertencermos à espécie humana, não são, por mais que o possam parecer, nem os políticos do costume, nem os comentadores de ocasião ou os transeuntes apanhados ao acaso por um microfone indiscreto, e que bradam impropérios contra a democracia, contra os valores conquistados numa madrugada de Abril, impropérios e raiva contra tudo o que cheire a liberdade, a progresso ou mostre diferença em relação aos tempos cinzentos que muitas gerações viveram e ainda recordam com arrepio.
Não, por mais que nos custe, não são estes acima referidos os piores.
Esses, ao menos, mostram-se como são, sem verniz nem pudor. Gritam o que sentem, regurgitam ressentimentos antigos e desavergonhados, saem das conchas em que se mantiveram acocorados durante décadas e lançam para o espaço público o vómito de ódios guardados nas vísceras ao longo de cinquenta e um anos de História recente. Não se entende à luz da razão, nem da inteligência, mas — como já alguém disse — é a vida!.
Os que verdadeiramente envergonham, os que mais causam asco e tristeza, são outros.
São os que dissimulam. Os “bonitinhos” e bem comportados.
Os que se movem nas sombras do discurso, equilibrando-se entre o cinismo e a conveniência. Mestres do não-dito, artistas do insinuado, caminham entre nós como homens e mulheres invisíveis, fingindo democraticidade, encenando solidariedade, travestindo-se de democratas, sociais-democratas, conceito tão desprovido de sentido ideológico nos tempos recentes — seja lá o que isso ainda queira dizer — ou até de socialistas.
Dizem uma coisa, mas promovem outra. Sorriem para as câmaras, mas é nas entrelinhas que se revela o seu desprezo. E fazem-no com uma perícia inquietante, como se a indignidade tivesse sido ensinada em escolas de prestígio.
Tivemos, nestes últimos tempos, exemplos gritantes. Um Primeiro-Ministro que interrompeu, por um breve momento, as festas em que se entretinha com os seus ministros, com Moedas e amigos, para aparecer nas televisões a lamentar o cansaço… deles.
Não o cansaço dos bombeiros, dos populares, dos que combatiam, mãos nuas e rostos suados, o avanço das chamas sobre casas e vidas. Não. O cansaço dele. E atrás dele, como numa fotografia mal encenada, ministros, amigos e figuras públicas entre copos e gargalhadas, num cenário de festa absolutamente dissonante.
E o presidente da câmara de Lisboa, Carlos Moedas, que só apareceu em cena — com a solenidade da ocasião já desbotada — para anunciar que não viera antes porque esteve, imagine-se, a dar conforto pessoal a cada ferido, a cada familiar, a cada um dos afectados pela tragédia do elevador da Glória. Como se o tempo lhe chegasse para tudo, como se o povo acreditasse nessa encenação patética contada com expressão de miúdo mentiroso, de aldrabão compulsivo mas ternurento.
Era tão simples — e tão digno — que tivessem optado pelo silêncio. Mas não. Adoptaram uma cartilha comum: responder a tudo com desculpas, frases feitas, sorrisos de plástico. Seja na saúde, nos acidentes, nas tragédias. Tornaram-se especialistas na arte de dizer nada, de fazer pouco e de parecer muito, com ar sofredor ou risonho tímido mas muito cínico.
Todas as emissões, em todos os canais, com comentários à chegada dos activistas pela causa Palestiniana, a noite passada, foram um exemplo execrável da arte de dizer sem comprometer, de dizer , …mas…”eu não disse isso, eu só referi a lei”. Tanto quanto ao genocídio que, muitos deles não conseguem referir pois que o número de mortos à bala, de fome, de doenças por falta de higiene e medicamentos rotineiros, de água ou de frio, lhes causa muitas dúvidas e dificuldades “legais” qualificar se é genocídio ou o não é, pois que… pois que eles não são contra, a eles não lhes causa dor nem sentem raiva e repulsa.
Mesmo ao tratamento dado aos activistas enquanto presos em Israel, os equilibristas comentadores até recorreram ao argumento: “bem, isso aí, é a lei de Israel, aí não nos podemos meter. Israel é uma democracia, até lá fazem manifestações contra o Natanyhau”…
Quem apareceu na noite passada com esta teoria/argumento, foi o jornalista e comentador Miguel Pinheiro, na CNN.
Achará que descobriu e cravou uma lança em África mas está completamente errado, convencido demais. Alguém lhe deverá ensinar que, por essa via, o senhor justifica todas as atrocidades, crimes contra a humanidade, o nazismo e outros que tais crimes.
Tudo isso foi feito segundo as leis fascistas e nazis desses países. Mais, reinaria, se assim fosse aceite, toda a razão e autoridade aos democratas, antifascistas e homens livres a liberdade e justificação para condenarem essas práticas, se manifestarem e contra esses regimes lutarem.
Há, felizmente e contudo, quem ainda saiba sentir. Quem tenha tido a sorte de ser filho de boa gente, de ter herdado o pudor, a empatia, a vergonha. Esses envergonham-se, sim — não de serem humanos, mas de partilharem a humanidade com tais criaturas. Esses sofrem. Esses calam-se, não por medo, mas por respeito. E, nesse silêncio, dizem tudo.
A vida, dizem, é para quem a sabe viver. Mas há cada vez mais quem só a saiba encenar.

