Nota prévia
Um texto – neste caso uma entrevista – datado de Julho de 2022, cinco meses após o início da guerra na Ucrânia, pouco mais de um ano antes do início do genocídio em Gaza, faltavam pouco mais de dois anos para o início do segundo mandato de Trump como presidente dos EUA.
Perguntas e respostas francamente curiosas e estimulantes vistas à luz da evolução dos acontecimentos mundiais até ao dia de hoje.
FT, 13/11/2025
Seleção e tradução de Francisco Tavares
12 min de leitura
Rumo a um mundo multipolar mais justo ?
Entrevista de David Valiente a Augusto Zamora
Publicado por
em 15 de Julho de 2022 (original aqui)
O ex-embaixador da Nicarágua em Espanha (n.t. 2007-2014), Augusto Zamora, publica “De Ucrania al mar de la China. El eje ruso-chino ante un Occidente roto” (Editorial Akal), uma análise internacional, ilustrada por Anthony Garner, que mostra a tensão experimentada agora mesmo em torno da guerra na Ucrânia e como a situação pode piorar no Pacífico se os Estados Unidos continuarem com a sua retórica agressiva e o resto dos países atlantistas seguirem o jogo no seu discurso anti-chinês e anti-russo.
“Na Europa não se detêm para pensar o que acontecerá se o poderio militar americano afundar diante da aliança sino-russa”, adverte Augusto Zamora através do seu telemóvel. “Venerais a América como se fosse a reencarnação de um Deus eterno, invencível, omnipresente, omnipotente, omnisciente; mas o que acontecerá se lhe quebrarem a espinha?”.
Augusto Zamora é jornalista, mas esta profissão é a que menos se destaca no seu currículo. O ex-embaixador da Nicarágua na Espanha foi professor de Direito Internacional Público e Relações Internacionais em várias universidades europeias e latino-americanas; além disso, participou nas negociações pela paz de Contadora e Esquipulas (n.t. ver aqui). Atualmente, ocupa uma cadeira na Academia de Geografia e História da Nicarágua.
Recentemente, publicou De Ucrania al mar de la China. El eje ruso-chino ante un Occidente roto (Editorial Akal), uma análise internacional, ilustrada por Anthony Garner, que mostra a tensão experimentada agora mesmo em torno da guerra na Ucrânia e como a situação pode piorar no Pacífico se os Estados Unidos continuarem com a sua retórica agressiva e o resto dos países atlantistas seguirem o jogo no seu discurso anti-chinês e anti-russo. Este livro nasce “do sentimento de compromisso que assumo com o nosso mundo“, afirma Augusto, que se preocupa com a deriva militar que há cinco anos parece tomar conta dos países do Ocidente. “Mas, especialmente, preocupa-me o que dizem os documentos oficiais dos Estados Unidos com um alto tom belicista revestido por um novo vocabulário; esses documentos apontam para um confronto direto com a China e a Rússia“.
Nos EUA.há um debate aberto sobre esta questão, ao contrário da Europa que nem sequer menciona esses documentos de acesso livre na internet. “Os meios de comunicação não querem que na Europa atlantista se inteirem da verdade. Venho exercendo o jornalismo há muitos anos, é uma prática muito comum que estas coisas se ocultem e sejam decretadas pela morte civil“, assegura Zamora, que não gosta de jornalistas que falam muito e não vão às fontes.
Você afirma que o sistema internacional atual é injusto. Porquê ?
No livro que sai no final do ano vou abordar a problemática que supõe a ordem mundial configurada em 1945. As Nações Unidas, na sua origem, constituíram-na 45 Estados, dos quais 37 eram territórios coloniais ou governos ditatoriais fantoches dos Estados Unidos. No entanto, surpreendentemente, 70 anos depois, e mesmo tendo sido incluídos mais 148 Estados, a estrutura permanece a mesma. Aqui reside a incapacidade das Nações Unidas de resolver conflitos, está desconectada do mundo.
Mas as colónias já não existem, e as ditaduras fantoches na América do Sul e na América Central desapareceram…
Quando examino esta questão, vem-me sempre à mente o reflexo condicionado de Pavlov: o cão adquiriu o hábito de salivar quando a campainha tocava, mesmo que não lhe dessem de comer. Uma vez habituado a uma situação, é muito difícil imaginar que pode mudar. E precisamente países como Rússia, China, Índia e Brasil propõem um mundo multipolar e uma nova estrutura internacional. Neste ponto, os EUA não aceitam as novas condições nem tampouco querem sentar-se para negociar; a sua tática é o rearmamento e o reajustamento da estratégia. Os países membros da Aliança Atlântica, juntamente com o Japão, a Coreia do Sul e a Austrália, são arrastados pela nova política internacional da potência hegemónica. Os Estados Unidos sabem que sozinhos não podem fazer nada, mas com a ajuda dos seus parceiros acreditam ter mais oportunidades.
Um novo sistema internacional impulsionado pela China e pela Rússia… pergunto-me se será justo?
Absolutamente. Mais injusto do que é agora também não pode ser. Acha normal que por um pacto não escrito o presidente do Fundo Monetário Internacional tenha que ser um europeu e o do Banco Mundial um estado-unidense? A partir desses dois organismos internacionais são ditadas políticas financeiras, que, em geral, servem para destruir a economia dos países mais fracos e obter deles lucros obscenos. Esta situação tem de acabar. Por lógica, a eleição deve recair nas Nações Unidas e não estar nas mãos de instituições imperialistas. Além disso, que belas peças nelas colocam: deixamos o nosso presente e futuro económico nas mãos de [pessoas como] Rodrigo Rato [1] e Dominique Strauss Kahn [2] [3].
Antes do início da pandemia, os analistas afirmavam que os Estados Unidos e a China estavam atolados numa guerra fria 2.0. Essa fase foi superada?
Sim, claro. Alguns anos atrás, escrevi num artigo para o Público que a pandemia havia acentuado as contradições entre a Rússia, a China e os Estados Unidos, diminuindo assim os prazos de um possível conflito. A China está cansada das discursos paranóicos e dos contínuos desafios dos EUA. Abandonaram a linguagem prudente, inclusive o chefe do Estado-Maior da China afirmou que estão dispostos a ir à guerra, não importa o custo; os chineses enviam aviões sobre os espaços de segurança de Taiwan e realizam manobras militares longe das áreas históricas, onde sempre as fizeram. Sem dúvida, a China está a dizer-lhes que, se quiserem guerra, terão guerra. Os grandes meios de comunicação não querem que o grande público saiba a deriva conflituosa a que nos estão a conduzir as políticas dos Estados Unidos e da NATO.
A data chave é 2030.
No meu livro, Requiem polifónico, realizei uma minuciosa investigação sobre o rearmamento das três potências e descobri que havia uma coincidência assombrosa nos períodos que se davam para alcançar um determinado poder militar. A data axial, de acordo com os dados, é 2030. Eu disse isso em 2018, o que significa que me adiantei às análises que agora são feitas sobre o assunto. Um ano depois, o chefe das Forças armadas dos Estados Unidos propôs o mesmo cenário: o país deveria estar preparado militarmente até 2030. O que é que realmente vai acontecer? É muito difícil prever, mas há grandes possibilidades de um conflito no mar da China.
E a NATO irá participar nessa guerra?
São cenários diferentes. A NATO não entrou em guerra porque a Rússia abriga o maior arsenal de armas nucleares do mundo. Estão a ser cautelosos nos seus movimentos, estão conscientes de que não podem ultrapassar certos limites, já que significaria entrar em guerra, mas não numa guerra convencional… há alguns anos, um general russo assegurou que uma terceira guerra mundial não seria travada no seu solo. A Rússia compartilha com a Europa e a NATO uma fronteira imensa que vai da Roménia à Noruega. No caso de uma invasão, a Rússia teria dificuldade em defender uma fronteira tão ampla e teria apenas a alternativa de responder com um ataque nuclear devastador para impedir que a NATO destruísse a parte ocidentalizada do país.
Os EUA deixaram o Afeganistão para concentrar os seus esforços no Pacífico, segundo o que apresenta no seu livro. Não é uma estratégia errada?
Na Europa, fazem-se verdadeiros jogos de malabarismo para fazê-los acreditar que são o mais importante. Mas não é assim. Os documentos dos EUA ratificam e reiteram que a sua área de estratégia vital é a Ásia-Pacífico, que agora os geoestrategas renomearam como Indo-Pacífico. O governo estado-unidense só se preocupa com a criação de uma pinça gigantesca que envolva a Rússia e a China, e para isso precisa da Europa. Vê com que empenho os EUA organizam a frente no Pacífico? Eles tentam recriar o cenário da Segunda Guerra Mundial: até que o Japão não fosse derrotado, eles não desembarcaram na Normandia.
E porque razão desta vez não resultaria bem o jogo aos americanos?
Em primeiro lugar, os Estados Unidos têm uma desvantagem estratégica. A China está a 12.000 km das suas costas, percorrer esta distância por mar é muito caro, lento e difícil. A partir dessa perspectiva, a China parte de uma vantagem esmagadora. Em segundo lugar, tirando as armas nucleares, o elemento dominante na guerra são os mísseis, e tanto a China como a Rússia dispõem dos melhores. Em terceiro lugar, o peso da guerra cairá sobre o poder naval dos Estados Unidos, e é sabido por todos que é muito mais fácil fabricar 10.000 mísseis do que um navio de guerra. Por fim, se somarmos os recursos, a população e a tecnologia da China e da Rússia, a assimetria é escandalosa. Num contexto como o descrito, a União Europeia terá de escolher entre o suicídio ou a rendição.
A Rússia e a China são atualmente aliados, mas o que o faz pensar que eles o serão para sempre? Vendo a história conjunta dos dois países…
As relações sino-russas, ao longo da história, foram escassas. As fronteiras que unem os dois gigantes são ásperas, frias, despovoadas e pouco convidam à diplomacia. Port Arthur foi um ponto de discórdia entre chineses e russos, mas as disputas terminaram quando, em 1905, os japoneses derrotaram a Rússia do Czar. Antes da Segunda Guerra Mundial, o partido Comunista da China chegou ao poder graças ao apoio fornecido pela União Soviética. As tensões voltaram com a guerra da Coreia, onde Mao viu a oportunidade de expulsar e vencer os americanos, mas Estaline teve medo de que a escalada do conflito os levasse a uma guerra nuclear; então parou o conflito, desagradando a Mao. Os litígios continuaram, desta vez pela bomba atómica. A China queria construir um arsenal nuclear e os soviéticos não viam isso claro. Nos anos 70, Henry Kissinger envolveu-se com a sua ‘diplomacia do pingue-pongue’, embora também não houvesse hostilidade aberta por parte dos chineses em relação à URSS. A China estava a abrir-se ao mundo e precisava de divisas internacionais, os Estados Unidos forneceram-nas em troca de fazer caretas de desprezo aos soviéticos. Foi assim. No entanto, na década de 90, a China havia crescido demasiado para a perspectiva internacional dos Estados Unidos; a União Soviética tinha desaparecido, mas o gigante chinês não parava de crescer. O governo chinês resolveu as disputas territoriais com a Rússia e assinou uma série de acordos. O intercâmbio comercial entre os dois países vai de vento em popa; além disso, no ano passado ocorreram trocas de 200.000 milhões de dólares. Quanto mais se aproximavam, mais se davam conta de que o outro tinha algo de que careciam. De facto, em caso de conflito, o bloqueio americano de recursos energéticos à China não daria resultado, a Rússia cobriria as suas costas; e do lado oposto, a Rússia pode concentrar os seus esforços em caso de ataque na fronteira oeste porque a China cobrirá as suas costas pelo flanco leste.
O que agora podemos observar é um mundo cada vez mais polarizado, pelo menos em questões económicas.
Eu diria mais, já nem há sombra de confiança. As reservas de ouro que estejam nos países membros da NATO estão hipotecadas, podendo a qualquer momento confiscá-las. O que a partir deste momento vamos ver é como os países devolvem o ouro aos seus cofres ou o transferem para câmaras de países aliados. O Ocidente já mostrou as suas cartas de coerção, coação e ameaça na esfera financeira e comercial. Os países já estão a procurar sistemas alternativos ao SWIFT, que será relegado à sua esfera. Em cerca de cinco anos, veremos sistemas alternativos que não terão nenhuma relação ou conexão com o vosso [SWIFT].
Qual o papel que terá o Próximo Oriente ?
Esta é uma área estratégica para a Europa, pois 60% do gás e do petróleo que consomem provém do Médio Oriente. O cenário torna-se mais complexo. Digamos que o conflito no Pacífico explode, Israel fica sem o apoio estratégico dos EUA e da Europa que lhe deu a vitória nas três guerras contra os árabes. Israel, diante da falta de abastecimento, aguentaria o que os seus depósitos suportassem. Além disso, o país é composto por 17.000 km com uma população judaica (vamos deixar de lado os árabes palestinos) de 7,5 milhões de pessoas, contra 500 milhões de muçulmanos. O Egito, a maior potência militar da região, está envolvido num processo de rearmamento com o arsenal russo, financiado com dinheiro saudita e americano; construiu a maior base militar da região no deserto profundo, muito longe de Israel. Eu diria que o Egito se prepara para uma quarta guerra com Israel e pouco importa o que dizem os Estados Unidos e o petrodólar que a Arábia Saudita possa investir.
E Marrocos ?
Um pequeno monstro criado pela cobardia da Espanha. Se tivessem o que deveriam ter agora mesmo Marrocos teria três frentes abertas: pelo norte, a Espanha; pelo oeste, o Sahara Ocidental; e pelo leste, a Argélia, que é também a vossa fornecedora de petróleo. Marrocos serve de satélite dos Estados Unidos e da França graças à vossa cobardia; sempre me perguntei por que, tendo os saharauis e a Argélia, uma potência militar superior a Marrocos, do vosso lado, baixam as calças perante o governo de Rabat.
Parece que a Índia se deixa amar pelos russos e pelos americanos.
Os flamantes costumam esquecer três coisas: primeiro, a entidade e a geografia indiana são mais do que suficientes para fazer as suas próprias políticas, é a potência dominante no Oceano Índico, ninguém lhe pode fazer sombra; segundo, os governos da Índia não são idiotas, não vão à guerra contra a China porque os EUA digam isso. E terceiro e último, o seu principal inimigo não é outro senão o Paquistão, também uma potência nuclear. A Índia faz a política que lhe interessa.
No entanto, certos países da região, como o Paquistão e o Sri Lanka, estão a ser muito afetados pela crise económica. Isso poderá realinhar as posições dos governos sabendo dos benefícios que podem ter com uma ou outra potência?
Essa mudança já vem a ocorrer há algum tempo. O exemplo mais claro é quem aderiu à bateria de sanções contra a Rússia – não mais de um terço dos países do mundo. O resto virou as costas à NATO e suas políticas repressivas. Não queremos que se repitam os acontecimentos do Iraque, do Afeganistão, da Líbia ou da Síria; estamos cansados do tratamento desumano com que despacham os refugiados asiáticos e africanos. O cúmulo da irreverência foi abrir as portas aos ucranianos, e no outro dia 23 imigrantes morreram nessa armadilha mortal construída na fronteira de Melilla. Acreditam de verdade que as outras sociedades não notam o racismo subjacente? Acham que vão apoiar-vos? O ministro dos Negócios Estrangeiros da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, disse claramente no outro dia: “a Europa tem que parar de pensar que os seus problemas são os problemas do mundo”.
Mas o Paquistão recentemente mudou de Presidente. Com Shehbaz Sharif deveria a China preocupar-se com uma mudança de rumo e uma maior aproximação com os EUA?
O Paquistão é uma terra incógnita, compreendida apenas por pessoas que entraram na sua história particular. Nos anos 80, fez guerra aos talibãs, enquanto, por outro lado, os apoiava; declarou guerra ao islamismo, ao mesmo tempo que um terço do seu território servia de refúgio a esses mesmos islamistas. Deu palmadinhas no ombro de Washington e não parou de se armar até os dentes com armas chinesas. Na hora da verdade, devido à conjuntura da região, apoiará a China.
Não acha que a China também deveria desconfiar do Paquistão, então?
Não. Entre a China, o Paquistão e a Índia existe um ponto de equilíbrio que ninguém está interessado em quebrar. E este ponto de equilíbrio, sim, não se vai mover, porque os três sabem que um passo em falso traria consequências fatais.
Deveria a Europa aliar-se com a China e a Rússia e abandonar os EUA?
Diria mais, a Europa só poderá beneficiar das mudanças internacionais que se vão produzir se se inserir no seu quadro natural, isto é, a Eurásia. Se eles tivessem sido desmamados dos EUA, teria sido criada uma grande potência eurasiática que iria de Lisboa a Vladivostok, com um mercado imenso e na vanguarda técnico-científica. Pela má escolha, a Europa é uma península incomunicável como a Coreia do Sul.
A Rússia entrou em incumprimento, as sanções surtem efeito.
Fico surpreendido que continuem a acreditar em coisas assim. O mundo não é só a Europa e os Estados Unidos e creio que ficou bem claro quando lançaram a terrível bateria de sanções com a qual pretendiam subjugar a Rússia em dois meses, mas que na realidade só seguiu um terço do mundo. Nem o rublo se desvalorizou, nem a inflação é superior à dos países europeus, nem muito menos o país entra em colapso, porque meio mundo, incluindo a China, continua a negociar com a Rússia. De onde tiraram isso de que essas sanções iriam enfraquecer a Rússia?
No início da invasão, o chanceler alemão, Olaf Scholz, assegurou que entre os planos da NATO não estava o de incluir a Ucrânia como membro. Porque iniciou a Rússia essa agressão?
Não acredite nos políticos. Desde 2014, o exército ucraniano estava a ser armado pelos Estados Unidos e assessorado pela NATO. A intenção era criar um monstro de 900.000 soldados, que respondesse ao mantra de odiar e destruir a Rússia. É claro que o governo russo sabia o que estava a ser cozinhado no país vizinho, por isso, em dezembro do ano passado, propuseram à NATO e aos Estados Unidos sentar-se para negociar e evitar a guerra. A resposta foi fazer troça! Com certeza, os EUA nunca teriam permitido uma situação parecida no México, nem sequer um cenário similar ao Euromaidan de 2014; teria intervindo diretamente. No entanto, joga-se com dois pesos e duas medidas: os Estados Unidos e a NATO fazem o que lhes apetece e a Rússia não pode mexer um fio de cabelo para se autodefender. A pergunta que as pessoas deveriam fazer-se é a seguinte: porque razão os Estados Unidos se recusaram a negociar com a Rússia? Em política internacional negoceia-se sempre, é a regra principal. Tenho a sensação de que esta guerra está a servir aos Estados Unidos de disfarce para esconder o Frankenstein que estão a construir agora no Pacífico.
Então, os EUA aproveitam a conjuntura para ampliar a NATO? Emmanuel Macron disse essa famosa frase de que a NATO estava em morte cerebral, além disso, precisamente as divergências entre a Europa e Trump estavam relacionadas com a intenção dos europeus de criar o seu próprio exército.
Não acredite nos políticos. A NATO nunca parou de se expandir, a última vez ocorreu em 2017. Isso é um sinal de morte cerebral? A NATO continuou a expandir-se. O litígio com Trump ocorreu porque os EUA haviam aprovado a sua política anti-China e estavam a destinar os seus esforços defensivos ao Pacífico. Os Estados Unidos queriam que as suas armas fossem compradas, pois os seus cofres estavam esgotados. Porque pensa você que eles inventaram o AUKUS? Para tirar à França o contrato de 40.000 milhões que tinha com a Austrália para a construção de submarinos. Os Estados Unidos só querem fazer caixa.
Que papel desempenha a América Latina?
Nem a América Latina nem a África pintam nada neste conflito, somos a periferia. De facto, um possível conflito, seria a nossa chance de criar o nosso próprio espaço político e económico. Em algum momento os Estados Unidos terão que nos deixar em paz. Vamos, se algum chefe de Estado latino-americano lhe ocorre propor uma aliança com os EUA, no dia seguinte está fora do cargo.
E apoiariam a China?
Em geral, a nossa simpatia está com a Rússia e a China. Sofremos durante muitas décadas os americanos, estamos fartos dos gringos.
Vê a Ucrânia e a Moldávia dentro da União Europeia?
Prevejo outra coisa: qualquer acordo com a Ucrânia, a Moldávia e a Geórgia será provisório e estará marcado pelos acontecimentos do Pacífico. Se o poderio americano se afundar, provavelmente a Ucrânia, a Moldávia e os países bálticos desaparecerão. Isso acontece quando você anda com más companhias.
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Notas
[1] N.T. Rodrigo Rato, político espanhol, foi membro do Partido Popular. Foi vice-presidente sob o governo de Aznar (1996-2004) e presidente do FMI (2004-2007). Em 23 de fevereiro de 2017 foi condenado a quatro anos e meio de prisão, por um delito continuado de apropriação indevida entre 2003 y 2012, no caso das tarjetas black. (sentença ratificada pelo Supremo Tribunal em 03/10/2018). Em dezembro de 2024 foi novamente condenado a quatro anos e nove meses de prisão por delitos contra a Fazenda Pública, um de branqueamento de capitais e outro de corrupção entre particulares. (ver wikipedia aqui)
[2] N.T. Dominique Gaston André Strauss-Kahn, político francês, foi membro do Partido Socialista. Ministro da Economia em 1997-99 sob o governo de Lionel Jospin. Foi presidente do FMI (2007-2011). Strauss-Kahn demitiu-se do FMI em 18 de Maio de 2011, depois de ter sido preso pela polícia de Nova Iorque em 15 de maio por alegações de agressão sexual. Ele estava num avião, prestes a decolar, quando a polícia do aeroporto pediu que o avião fosse parado; ele foi escoltado para fora do avião e entrevistado pela polícia. O caso foi posteriormente resolvido por um montante não revelado, com a Associated Press e a Atlantic relatando que havia rumores de que seria de cerca de US $6 milhões. (ver wikipedia aqui)
[3] N.T. A estes dois nomes poder-se-ia acrescentar o de Christine Lagarde, política francesa, filiada no partido Os Republicanos, atual presidente do BCE, que sucedeu a Strauss-Kahn na presidência do FMI (2011-2019). Em dezembro de 2016, o tribunal declarou Lagarde culpada de negligência na gestão da aprovação da arbitragem do caso Bernard Tapie, mas recusou impor uma sanção. (ver wikipedia aqui)
O entrevistador: David Valiente Jiménez (Guadarrama, 1995) obteve um diploma em História na Universidade Complutense de Madrid e um Mestrado em Jornalismo Internacional na Universidade Rey Juan Carlos. Atualmente está doutorando em Relações Internacionais na Universidade Complutense de Madrid. Os temas pelos quais ele é apaixonado são tudo o que tem a ver com a Índia e a China.
O entrevistado:
Augusto Zamora R., antigo Embaixador da Nicarágua em Espanha, foi Professor de Direito Internacional Público e Relações Internacionais na Universidad Autónoma de Madrid. Foi também professor na Universidade Nacional Autónoma da Nicarágua, bem como professor visitante em várias universidades da Europa e da América Latina. Foi director jurídico do Ministério dos Negócios Estrangeiros e chefe de gabinete do Ministro dos Negócios Estrangeiros de 1979 a 1990. Fez parte da equipa de negociação nicaraguense nos processos de paz de Contadora e Esquipulas, desde o início até à derrota eleitoral do Sandinismo. Advogado da Nicarágua no processo contra os Estados Unidos no Tribunal Internacional de Justiça, tem participado em numerosas missões diplomáticas. Membro de pleno direito da Academia Nicaraguense de Geografia e História, tem contribuído, tanto em Espanha como na América Latina, há mais de uma década, para jornais como El Mundo e Público e revistas como PAPELES de Relaciones Ecosociales e Cambio Global. As suas obras incluem El futuro de Nicaragua (1995; 2ª ed. alargada, 2001), Actividades militares y paramilitares en y contra Nicaragua (1999), El derrumbamiento del Orden Mundial (2002), La paz burlada. The Contadora and Esquipulas Peace Processes (2006), Politics and Geopolitics for Rebels, Irreverents and Sceptics (2016; 3rd enlarged ed. 2018) e Polyphonic Requiem for the West (2018).



