Perante a dificuldade de datar as famosas redondilhas de Camões, é possível aceitar, segundo o texto de Pedro de Mariz (1551-1615), primeiro biógrafo do poeta, que as terá escrito no final da sua penosa vida, visto que há notícia de uma encomenda para que traduzisse em verso os Salmos Penitenciais. Como o poeta não se decidia a executar a tarefa, foi-se a ele o mecenas, perguntando-lhe porque não cumpria o prometido, tendo anteriormente escrito tão famosos poemas. Ao que Camões lhe respondeu «que quando fizera aqueles Cantos, era mancebo, farto, e namorado, querido e estimado, e cheio de muitos favores, e mercês de amigos, e de damas com que o calor Poético se aumentava. E que agora não tinha espírito, nem contentamento para nada».
As redondilhas constituem, como se sabe, uma formosa paráfrase do salmo 137 do ”Livro dos Salmos” e apresentam uma estrutura que as divide em dois blocos (profano e sagrado) mas não se vê motivo para não aceitar a interligação de dois aspectos que são um traço distintivo da mundividência que se respira na lírica camoniana. Compreende-se, por isso, melhor – aceitando a composição como um dos seus últimos escritos – a correspondência que a matéria do salmo terá encontrado nas preocupações do poeta e a aderência ao texto bíblico (que é, antes de mais, canto de exílio) como eco profundo das peripécias vivenciais do autor. Encostando-se ao salmo, Camões encontrava porventura nele vozes que reflectiam a sua própria voz.
O texto camoniano é altamente polissémico e a sua descodificação não tem sido fácil. A controvérsia anda à volta da interpretação de Babilónia, Sião e Jerusalém, topónimos simbólicos que o poeta recupera do salmo. Começa a paráfrase, seguindo de perto a estrutura do salmo («Sôbolos rios que vão/ por Babilónia, m’achei», vv. 1-2). É, portanto, Babilónia («mal presente», v.9) o termo de comparação com outro tempo, outra realidade de crónica menos amarga. Ele próprio o diz de modo peremptório: «e tudo bem comparado,/ Babilónia ao mal presente,/ Sião ao tempo passado» (vv.8-10). Sendo assim, Babilónia só pode ser referente de desamor e, como tal, conotado por metáforas de maldição.
Sião é, pelo contrário, o segundo termo de comparação, o «tempo passado» que se contrapõe ao «mal presente»: daí «as lembranças de Sião» do v. 4. Este topónimo tem sido largamente associado ao platonismo camoniano, à teoria da reminiscência, passando a ser símbolo do “Céu”. É uma leitura possível mas não me parece que se possa eliminar a lembrança do “bem passado”, salto no tempo que o próprio poeta sugere com o recurso à «memória» de outro tempo mais feliz. E Jerusalém parece ter no poema um sentido espiritual, não se afastando do símbolo apontado no salmo. Camões, porém, só uma vez o invoca («ó Hierusalém sagrada», v. 253), adoptando sobretudo elementos metafóricos que vão de «terra da Glória» à «visão de paz».
Babilónia e Sião parecem ser, pois, os indicadores de maior relevância para a interpretação global de “Sôbolos rios”. E mesmo aceitando a composição como hipótese de “testamento espiritual” (Jorge de Sena), o poema revela uma tensão dialéctica entre tempo histórico (Babilónia) e tempo ideal de justiça (Sião ou Jerusalém). E é evidente que Camões não chega a esta revelação sem passar por alguns tópicos, assumidos culturalmente mas também vividos na própria carne, que atravessam toda a sua lírica: a mudança, causa de todos os males, o desengano de amor, o desconcerto do mundo, quer dizer, o anúncio do caos e do labirinto, a metamorfose e destruição que, como se sabe, distinguem a lírica maneirista.
Isto significa que a ânsia por Sião passa pela consciência dos desconcertos e mudanças que se foram operando no próprio tempo histórico, no tecido social da pátria «que está metida/ no gosto da cobiça e na rudeza/ duma austera, apagada e vil tristeza» (“Os Lusíadas”, X, 145). Nestes termos, Babilónia parece identificar-se com o Portugal do salto vertiginoso a caminho do Império, com as mudanças a que alude igualmente Gil Vicente no seu “Auto da Índia”. Na sua relação com o mundo, o poeta já não crê amar a vida mas apenas a memória do seu próprio passado. Os acidentes biográficos acabaram por determinar um processo de rejeição do modelo oferecido pela «glória de mandar», pela «vã cobiça» que é «fonte de desemparos e adultérios».
As redondilhas seguem de perto a matéria do salmo, paradigma de poesia da diáspora (física e existencial), experiência vivida, como é sabido, pelo poeta. Por isso o poeta interroga as lembranças saudosas e a resposta só lhe traz a imagem do desengano: «vi o bem suceder mal,/ e o mal, muito pior» (vv. 34-35). Como poderia, pois, cantar «doce canto em terra alheia?» (v.145), agora que as lembranças «me perguntaram então:/ que era da música minha/ qu’eu cantava em Sião?» (vv. 123-125). A referência ao canto passado e a decisão de abandonar a flauta e a pena («Nem na frauta cantarei/ o que passo, e passei já,/ nem menos o escreverei», vv. 166-168) não podem deixar de nos conduzir ao texto de Pedro de Mariz, atrás citado, que explica o sentido da mudança e do suave cantar de outrora. Um ponto, este, porém, já esclarecido de modo insuperável noutro lugar textual pelo poeta: «… a Lira tenho/ destemperada e a voz enrouquecida,/ e não do canto, mas de ver que venho/ cantar a gente surda e endurecida» (“Os Lusíadas”, X, 145).
(Versão reescrita e abreviada de “Sôbolos rios: a poesia da diáspora”, in “Tempo com Espectador. Ensaios de Literatura Portuguesa”, Lisboa, Ed. Colibri, 2011, pp. 35-43).

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