(continuação)
PARTE III
Com a crise da banca ainda admiti um rasgo de coragem com o PS no poder mas não. Ainda mandei ao Presidente do BPN os textos sobre a Comissão Pecora dos Estados Unidos que foi o suporte público para as reformas de Roosevelt, tal como foi a demonstração do conjunto de salteadores que eram os gestores da banca de então. Mas do lado do PS ou do meu amigo Francisco Bandeira a quem enviei os documentos sobre Pecora, do lado do Teixeira dos Santos sobretudo nem um assomo de coragem para tornar público o que deveria ser público como o foi nos Estados Unidos com Pecora I e ainda mais recentemente com o relatório da Financial Crisis Enquiry Commission, também dito relatório Pecora II, ou relatório do senador Angelides. Em Portugal nada, mesmo nada disso e, desse ponto de vista, esperava mais do meu amigo Francisco Bandeira mas não do seu ministro de tutela, e do seu e nosso primeiro-ministro muito menos poderia esperar. Mas o meu amigo Bandeira não pôde, não quis? Penso que não pôde, mas a ser assim, eu no caso dele ter-me-ia demitido então, mesmo que me argumentassem que aumentaria a instabilidade dos mercados já de si fortemente instáveis. Era o que faria. Mas responsáveis indicados, levados a Tribunal, julgados, condenados, nada há, talvez porque Portugal seja o país afinal onde nada de bom agora acontece, ou quando acontece não tem impacto, a lembrar o filósofo José Gil. Nem aqui escapa a figura que se considera mais série que toda a gente, o actual Presidente da República, o que é estranho, o homem que ganha dinheiro com as acções do BPN e não é capaz de devolver esses ganhos que sabe agora que somos nós que os pagamos. Mais sério que toda a gente e que esquece então o seu a seu dono!
Vem isto a propósito de um artigo do Guardian, sobre os adoradores do novo templo sagrado e dos seus lacaios servidores que julgo se aplica bem a Portugal e que passo a transcrever:
“Muitas das suas figuras principais devem ser punidas com penas de prisão ou devem cair em desgraça e serem assim condenados também publicamente– e assim teria sido se os reguladores britânicos não tivessem sido dominados desde há bastante tempo pela doutrina da regulação mínima “light touch” e se não tivesse havido um grave corte no orçamento do Serious Fraud Office’s ordenado pelo ministro Osborne. Trata-se de um imposto sobre a criação de riqueza e de um inimigo contra o comportamento honesto – e é a besta que esta a devorar o capitalismo britânico.
Muito tem sido dito sobre a cultura da corrupção na banca de investimentos – agora quer até a partir do primeiro-ministro quer do governador do Banco da Inglaterra. Mas os reguladores, o governo britânico e os responsáveis pela gestão da banca – todos se puseram de joelhos face à sabedoria dos antigos de que os mercados livres não cometem erros – permitindo a criação de um modelo de actividade em que homens e mulheres com muito pouca formação e sem nenhuma dignidade moral poderiam conseguir serem milionários num muito curto espaço de tempo. A sua contribuição em valor económico para o crescimento da economia foi ZERO mas criaram um imenso risco sistémico para o resto da economia. (…)
Uma cultura da corrupção não aparece, assim, rapidamente caída do céu. Surge das estruturas que encorajam um comportamento corrupto – e a Grã-Bretanha, seguindo as falsas ideias de que os mercados livres e os serviços financeiros seriam a base do seu futuro económico, criou tais estruturas desde há bastante tempo, aplaudida por uma aliança de partidos que se estendia desde Boris Johnson até Gordon Brown. Agora é um momento decisivo quer para a City quer para a economia. A reputação da City está no fundo do poço. Enquanto isso a economia em crise aguda precisa de um sistema financeiro que apoie a inovação para poder gerar riqueza. Precisamos de uma forte reforma feita de raiz para o ramo da finança na Inglaterra de modo a poder restaurar a confiança internacional, desenvolver a economia nacional e acabar com os escândalos de desrespeito absoluto pelos clientes, pela economia.”
Tire-se Boris Johnson tire-se Gordon Brown, coloque-se Sócrates e Passos Coelho, tire-se chanceler do Tesouro e coloque Teixeira dos Santos ou Gaspar e vamos dar ao mesmo, a uma realidade perfeitamente equivalente, a da cultura da corrupção desde há bastante tempo praticada, como muito bem assinala Will Hutton do Guardian.
E como se disse também aqui, tal como os nossos fiscais para as calçadas em Faro ninguém viu nada, ninguém quis ver nada e até se reduziu o Orçamento por onde as coisas poderiam ser mais facilmente vistas.
E estou com muita raiva mesmo quando me lembro do telefonema recebido esta manhã. Relembro-me dele e telefono ao meu amigo carpinteiro bom especialista em talha dourada, em madeira bem cortada e pergunte-lhe se podemos tomar uma bica em O seu café. Diz-me que sim. Dirijo-me para lá. A esplanada está cheia, está-se a ver futebol, Olhanense contra o Porto. Não há um lugar vago. Olho para as várias mesas e dirijo-me a uma onde está sentado um senhor sozinho e com cara de quem a vida não lhe anda muito a sorrir. Pedi-lhe licença para ver o jogo com ele. Faça favor, foi a resposta.
Depois do segundo golo do Olhanense, chegou o meu amigo. Falámos de futebol, falámos de dinheiro das equipas, e entretanto fui atirando umas farpas para o ar, para ser como reagia o meu interlocutor desconhecido. Falei-lhe das dívidas monstruosas do Manchester apanhados os seus investidores com um empréstimo com um clausulado semelhante ao que foi aplicado a muitas câmaras, hoje quase todas falidas, e com taxas usurárias agora tal como são as aplicadas aos Estados soberanos.
Entretanto disparei agora para o meu amigo marceneiro e para o outro amigo que não conheço: digam-me como foi o processo Groundforce em Faro.
Como uma mola, ambos se levantaram da cadeira. O futebol, esse ficou agora esquecido. Uma vergonha disseram os dois. Um deles tinha família na Groundforce. A Groundforce pertencia à TAP, uma empresa pública. Terá havido forte pressão para o seu encerramento. Pressão, espanto-me.
Sim respondem-me os dois. A conversa decorreu em catadupa de um lado e do outro. O meu amigo agora conhecido e até há minutos bem ignorado estava no desemprego, de uma empresa que faliu, tinha família ainda desempregada que trabalhou na Groundforce e a sua mãe em tempos também ela foi colocada na rua e sem nada, como ele mesmo agora, mas de uma indústria corticeira que desapareceu de Faro. Porquê, levanta ele a questão. Não sei, digo.
Volto à carga. Pressão? Pressão de quem?
Ah! Sim, a ANA estava ameaçada pelas empresas low-cost de que ou lhes baixavam os custos em Faro ou mudavam-se para outras bandas. A ANA respondeu, a TAP respondeu. Fecharam a Groundforce. Abriram a empresa Portway para a substituir!
Volto à questão do Aeroporto. Fecharam a Groundforce, abriram a Portway pertença agora da ANA. Mas esperem, digo. Não se trata de uma outra empresa pública a operar no mesmo espaço? Mas trata-se de empresas públicas, meu Deus, exclamo.
Pior ainda, disseram-me. Como em última instância o tipo de trabalho, o emprego era o mesmo e para não serem acusados de que uma empresa fechava para abrir outra, com contratos mais baixos sobre as mesmas pessoas, quem fechou foi a TAP, quem abriu foi a ANA mas como o Estado é o mesmo, não se empregou então ninguém que estivesse antes a trabalhar na Groundforce. A base crítica a esta medida baixava assim de tom, dizem-me estes dois amigos, dado este pequeno truque. Era uma outra empresa que procurava outro tipo de pessoas e entretanto subscreviam-se assim as exigências das empresas low-cost. A internacionalização a marcar o passo às regras nacionais, então.
E o meu amigo de há pouco desconhecido dispara: e isto durante o reinado de Sócrates, sublinhe-se. Isto é o exemplo do que foi o socialismo da burguesia, mais perigoso que o outro porque encapotado numa linguagem mais inteligente do que a da direita caceteira que agora está no poder.
A concorrência internacionalizada e o mundo tornado um espaço homogéneo, um espaço low-cost para quem trabalha, penso. Aqui, lembro-me então da minha última crónica, a nº 5, lembro-me de Mundell, pego num guardanapo de papel e explico aos meus amigos o que escrevi já há alguns dias, na crónica nº 5.
E transcrevo:
“Volto a pensar no teorema de Mundell, que representa o conjunto das incompatibilidades:
No quadro do capitalismo não se pode ter nunca em conjunto política monetária autónoma, taxas de câmbio fixas e liberdade de movimentos de capitais. Apenas se podem reunir duas características duas a duas, como por exemplo movimentos de capitais e taxas de câmbio fixas, perdendo-se a autonomia de política monetária, como por exemplo política monetária autónoma e taxas de câmbio fixas mas neste caso perdendo-se a mobilidade dos capitais, ou ainda como terceira hipótese podemos ter política monetária autónoma e movimentos de capitais, perdendo-se a hipótese de câmbios fixos.
Face a esta recordação dos meus tempos de Universidade, lembro-me também da regra de ouro do actual executivo português: o que interessa aos capitais, é o que interessa ao governo, o que interessa ao governo é o que interessa à democracia. Simples, a regra que rege estes senhores.
Graficamente e tomando como referência a lógica de Mundell acima referida teríamos agora para exemplificar a contradição do governo português um esquema fácil de representar esta realidade. Imaginemos um triângulo equilátero em que em cada vértice é caracterizado por uma característica do sistema:
Segundo o nosso Gaspar, tracemos por cada vértice uma bissectriz, O conjunto das três bissectrizes intercepta-se num ponto a que chamamos PEm, ponto de equilíbrio máximo. Esta é a lógica do nosso governo, ou seja é a de caminhar para esse ponto na hipótese mágica de que basta satisfazer a lógica de mercado de capitais e o quadro do governo é assegurar essa mesma liberdade, expressa então pela liberdade de capitais segundo os fascistas agora no poder, a verificação conjunta das características expressas pelos vértices B e C assegura a verificação do vértice A e teríamos então o ponto PEm. Os Deuses estão loucos, ou neste caso o nosso Gaspar e seus acólitos quando partem desta hipótese, pois no quadro do capitalismo temos exactamente o inverso, a lembrar exactamente o paralelo com o triângulo de Mundel, pois só se podem verificar as características conjuntas de dois vértices. Vejamos: se temos o governo duramente a actuar de modo a garantir a desregulação dos mercados, se possível total, teremos os capitais a maximizarem as suas taxas de remuneração, e temos, por definição a situação a afastar-se da profunda Democracia, distanciando-se o mais possível desse vértice ou seja caindo sobre a linha que une os vértices B e C. Imaginemos a linha caracterizada pela união dos vértices A e C. Neste caso o Estado estaria a fazer o enquadramento da social-democracia, respondendo o Estado aos desejos das populações e subordinando a estes os interesses dos grandes capitais que ficariam assim como a variável residual do sistema, ou ainda a variável de ajustamento . Imaginemos a linha que une os vértices B e A. A satisfação de interesses contraditórios no quadro das economias globais exigia um Pacto, um Acordo Global, uma compatibilização de interesses que nenhum governo nacional seria capaz de impor e muito menos seria capaz de forma autónoma conseguir, face às contradições de interesses nacionais que se levantariam. Só uma governação à escala mundial o poderia fazer, sobrepondo-se assim aos Estados nacionais mas esta governança não existe nem existirá a não ser nos limites dos confins da História, portanto, hipótese a abandonar.


