Arredor de Jorge Amado no seu centenário – por José Paz Rodrigues

A Viagem dos Argonautas dedicou a Jorge Amado todo o dia do seu centenário, hoje, pelo seu interesse publicamos o artigo de José Paz Rodrigues que saíu no Portal Galego da Língua.

Arredor de Jorge Amado no seu centenário

por José Paz Rodrigues (*)

Quando eu morrer, vou passar uns 20 anos esquecido”, dizia o grande escritor brasileiro Jorge Amado, no jornal Folha de São Paulo, em 6 de julho de 1991 aos seus entrevistadores Marilene Felinto e Alcino Leite Neto. No passado dia 10 de agosto cumpriram-se os cem anos do seu nascimento, acontecido no ano 1912 na fazenda Auricídia, em Ferradas, distrito de Itabuna no Estado brasileiro da Bahia.

Amado faleceu a 6 de agosto de 2001 na capital, Salvador, depois de deixar escrita e publicada uma obra literária magistral. “Escrever é transmitir vida, emoção, o que conheço e sei, a minha experiência e forma de ver a vida”, tinha dito no seu momento o grande literato lusófono, um dos melhores que usou sempre nas suas obras a nossa língua internacional. É um verdadeiro prazer ler os seus famosos e formosos romances e, em especial, Cacau (1933), Jubiabá (1935), Capitães de Areia (1936), Gabriela, cravo e canela (1958), Dona Flor e seus dois maridos (1966), Tenda dos milagres (1969), Teresa Batista cansada de guerra (1972), Tieta do Agreste (1977) e Tocaia Grande: a face obscura (1984).

Na maioria dos romances citados o seu autor elevou à categoria de lendas histórias das plantações do cacau de toda a comarca da Bahia, onde nasceu e criou a maior parte da sua obra literária. Em que as protagonistas principais quase sempre são as mulheres. São também muito formosos os seus contos, os guias e livros de viagens e os escritos para crianças. O único livro poético que publicou em 1938, lindo de verdade, foi A estrada do mar. Também só escreveu uma obra teatral O amor do soldado Castro Alves em 1947. Em 1934 traduziu para o nosso idioma o romance Dona Bárbara do venezuelano Rómulo Gallegos. Os seus mais de trinta romances foram traduzidos ao longo dos anos para cinquenta idiomas da Terra, e também alguns em braille.

É possível que Jorge Amado, o grande romancista, seja o literato brasileiro e lusófono mais universal e conhecido no mundo, e aquele de quem mais se têm difundido os seus escritos. Polos que recebeu, tanto no estrangeiro como no próprio Brasil, infinidade de prémios, dos quais quero destacar especialmente o “Brasília de Literatura”, em 1982, polo conjunto de toda a sua obra, e o “Camões” em 1995. A Academia Brasileira de Letras nomeou-o, com todo o merecimento, académico em 6 de abril de 1961, ocupando a cadeira número 23, da qual o patrono fora José de Alencar, outro grande escritor.

A sua foi uma vida cheia de vicissitudes, determinada, tanto polas suas ideias progressistas, como polo contexto histórico e político nos anos em que viveu, ao passar o Brasil por infinidade de processos sociopolíticos, democráticos umas vezes (os menos), e ditatoriais, e mesmo fascistas, noutros (os mais). Nestes, entrou por várias vezes no cárcere e inclusive teve que exilar-se, tanto na Argentina e Uruguai, como na França e na Checoslováquia. Por um tempo curto, entre 1945 e 1947, é eleito deputado federal de São Paulo. Ao assumir o mandato na Câmara foi muito importante a sua intervenção, pois as suas emendas sobre a liberdade de culto religioso no Brasil, foram aprovadas. Ainda é hoje o dia que se agradece em todo o país a ação de Jorge Amado neste tema que, antes de ser aceite e legislado, criava problemas muito graves de sectarismo religioso, especialmente por parte da igreja católica, contra outros cultos de outras religiões cristãs e não cristãs.

Em 1937, em Salvador de Bahia, por serem considerados subversivos, foram queimados mais de 1500 exemplares de livros dos seus romances, sendo preso em Manaus no Estado de Amazonas. A censura de seus livros terminou em 1943. Em 1956 abandonou o Partido Comunista brasileiro a que pertencia, depois de conhecer as atrocidades cometidas na Rússia por Stalin, um dos maiores ditadores da história mundial. E também para se dedicar mais ao que sempre gostou: escrever, tal como explicou na altura.

Em 1933 casou com Matilde Garcia Rosa, com a qual teve uma filha chamada Eulália Dalila, que faleceu em 1949. No ano 1944 divorciou-se de Matilde, e no seguinte ano de 1945 passa a viver com a escritora Zélia Gattai. Com esta teve em 1947 um filho, João Jorge, e em 1951 a filha Paloma. Esta, em 1995, iniciou o processo de revisão da obra de seu pai, com um novo projeto gráfico para os livros e novas edições dos mesmos. Em 13 de maio de 1978 Jorge Amado oficializou a sua união com Zélia, na casa do seu amigo e pintor em Itapuã, Calasans Neto. Vários netos e netas do escritor continuam trabalhando hoje no resgate e promoção da obra de seu avô.

Amado teve grandes e importantes amigos. Entre eles há que destacar principalmente Graciliano Ramos, outro grande romancista, autor dos formosos romances Memórias do cárcere e Vidas secas, que foram levados ao cinema no seu dia com grande sucesso. Também foi grande amigo de outros escritores brasileiros, como Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, Guimarães Rosa, Gilberto Freyre, Jorge de Lima e Mário de Andrade. Dos portugueses Ferreira de Castro e Saramago, do galo Sartre, do chileno Neruda, do colombiano Garcia Márquez e do cineasta do novo cinema brasileiro Glauber Rocha.

Eu ainda não me explico o porquê de a Academia Sueca não lhe ter concedido a Jorge Amado o Prémio Nobel de Literatura, como bem merecia, antes do que muitos outros. Como tampouco me explico a maldição que esse grande país que é o Brasil tem para que nunca um dos seus cidadãos tenha sido premiado pola Fundação Nobel nas diferentes modalidades dos prémios: literatura, medicina, física, química, economia e paz.

Sobre este tema voltarei com um novo artigo em breve, centrando-me especialmente no âmbito literário, em que ao longo dos tempos houve infinidade de escritores que o mereciam. E entre eles, o que mais, Jorge Amado. Do qual sabemos que, em 1967, a União Brasileira de Escritores (UBE), presidida na altura por Peregrino júnior, apresentou em Estocolmo a candidatura formal de Amado para que nesse ano lhe fosse concedido o prémio, embora o escritor recusasse a proposta. No seguinte ano, a UBE volta a fazer a proposta à Academia Sueca e Jorge Amado aceita com a condição de que a mesma se faça junto com a do romancista português seu amigo Ferreira de Castro. Comenta-se que também em 1988 esteve a ponto de ser premiado e, oficiosamente, parece ser que ficou com dous votos menos que o egípcio Naguib Mahfouz, que afinal foi o premiado nesse ano.

Jorge Amado e o cinema

O nosso autor é, sem dúvida, o mais adaptado para a televisão e o cinema. A sua neta Cecília Amado vem de levar como diretora ao cinema o seu romance Capitães da Areia, que teve a sua estreia em outubro de 2011 e participou no passado mês de abril no festival de cinema de Chicago. Pola sua parte, Globo TV está emitindo na atualidade uma nova versão do romance Gabriela, cravo e canela, em formato de “telenovela”, polo que no Brasil são todos grandes apaixonados.

A obra literária de Jorge Amado teve numerosas adaptações para o cinema e a televisão e, em menor medida, para o teatro. Em 1937 Jorge Amado fez o papel de pescador no filme Itapuã, dirigido polo destacado documentarista Ruy Santos. Nove anos mais tarde, em 1946, Amado escreve os diálogos do filme O cavalo número 13, produzido por Fernando de Barros e dirigido por Luiz de Barros. Ao mesmo tempo redige o argumento do filme Estrela da manhã, dirigido por Gino Palmisano e Jonald, e produzido por Afonso Campiglia, em 1950. O produtor italiano Carlo Ponti comprou em 1957 os direitos para levar ao cinema o romance Mar morto, escrito por Amado em 1936, mas o filme não chegou a realizar-se. A Warner mercou em algum momento os direitos para adaptar outras obras do escritor baiano. Em 1962 Amado criou a produtora Proa Filmes, de vida efêmera, pois só produziu um filme, a Seara Vermelha, baseado no romance do escritor. Em 1997 Jorge Amado recebeu o Troféu Filme de Ouro pola sua contribuição ao cinema brasileiro.

Em Ourense, nos anos setenta e oitenta, polo Cine Clube “Padre Feijóo”, sob a responsabilidade e labor de quem subscreve o presente artigo, foram projetados vários dos filmes baseados nos romances de Amado. Posteriormente já nos noventa e na primeira década do atual século, foi o Cine Clube “Minho” da ASPGP que, em ciclos dedicados à lusofonia, projetou na Casa da Juventude, nas aulas de cultura das Caixas, no Liceu Recreio e na Faculdade de Educação, ademais de filmes brasileiros de Pereira dos Santos, baseados nos romances de Graciliano Ramos, de Glauber Rocha, Walter Lima, Heitor Babenco, Rui Guerra, Carlos Diegues, Fernando Meirelles e Walter Salles, o formoso filme Tieta do Agreste, baseado no romance de Amado, dirigidopor Carlos Diegues em 1996, com uma magistral interpretação de Sônia Braga.

Os mais famosos e lindos romances de Jorge Amado foram levados ao cinema e, no seu caso, à TV, em séries por episódios e capítulos de “telenovela”. A seguir apresento um quadro sinóptico e esquema da filmografia relacionada com a obra literária de Jorge Amado. No seu caso especifico o título do romance, quando o do filme é diferente.

A.-Em CINEMA :

FILME Ano Diretor/a Observações
1 O cavalo 13 1946 Luiz e Fernando de Barros Diálogos por J. Amado
2 Terra violenta 1948 Edmond Bernoudy Romance: Terras do Sem-Fim
3 Estrela da manhã 1950 Gino Palmisano e Jonald Argumento de J. Amado
4 Seara Vermelha 1964 Alberto D´Aversa
5 Capitães da Areia 1969 Hall Bartlett
6 Dona Flor e seus dois maridos 1976 Bruno Barreto Canções de Chico Buarque. Protagonista : Sônia Braga
7 Pastores da noite 1977 Marcel Camus Canções de Walter Queiroz
8 Tenda dos milagres 1977 Nelson Pereira dos Santos
9 Gabriela 1983 Bruno Barreto Romance: Gabriela, cravo e canela. Canções de Tom Jobim. Protagonistas: M. Mastroianni e Sônia Braga
10 Jubiabá 1985-87 Nelson Pereira dos Santos
11 Tieta do Agreste 1996 Carlos Diegues Canções de Caetano Veloso. Protagonista: Sônia Braga
12 Capitães da Areia 2011 Cecília Amado Diretora: Neta de J. Amado
13 Itapuã (Documentário) 1937 Ruy Santos J. Amado faz de pescador
14 O capeta Carybé 1996 Arnaldo “Siri” Azevedo Documentário
15 A Idade da Terra 1977 Glauber Rocha J. Amado no papel de 1 dos apóstolos de Cristo

B.-Em TV :

Filme Ano Diretor Observações
1 Gabriela 1961 Maurício Sherman Telenovela. Rede Tupi
2 Gabriela 1975 Walter Avancini Telenovela. Rede Globo
3 Terras do Sem-fim 1981 Herval Rossano Telenovela. Rede Globo
4 Tenda dos milagres 1985 Paulo Afonso Grisolli, Maurício Farias e Ignácio Coqueiro Minissérie. Rede Globo
5 Capitães da areia 1989 Walter Lima Jr. Minissérie. Rede Bandeirantes
6 Tieta 1989 Paulo Ubiratan, Reynaldo Boury e Luiz Fernando Carvalho Telenovela. Rede Globo
7 Tereza Batista cansada de guerra 1992 Afonso Grisolli Minissérie. Rede Globo
8 Tocaia Grande 1995 Régis Cardoso e Walter Avancini Telenovela. Rede Manchete
9 Dona Flor e seus dois maridos 1997 Mauro Mendonça Filho Minissérie. Rede Globo

(*) Didata e Pedagogo Tagoreano

 23 agosto 2012

 

Textos do centenário de Jorge Amado em A Viagem dos Argonautas:

http://aviagemdosargonautas.net/?s=jorge+amado

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