HISPANIDADE E PRESERVAÇÃO DA IDENTIDADE NACIONAL – por Carlos Loures

A pergunta «Espanha, existe?» irá servir de mote ao debate que vai ocupar a totalidade da nossa edição de 25 de Novembro próximo, dia em que os catalães irão às urnas decidir se vão manter-se por mais algum tempo no estado espanhol ou se optam já pela separação. É uma pergunta com diversas respostas possíveis. Ou seja, não é uma pergunta – é uma questão retórica a que se responde com pressupostos ideológicos, convicções culturais e, inevitavelmente, com preconceitos de natureza diversa – sobrepondo-se nesta matéria a análise política ao rigor estatístico, documental, científico…

Em artigos que têm vindo a ser publicados, a questão da hispanidade e de como ela é vivida pelas diferentes sensibilidades nacionais, tem sido colocada, sobretudo, numa perspectiva multifacetada, fugindo  à redutora versão Espanha/Portugal ou ao, mais comum reconhecimento de Portugal, Espanha, Catalunha. A realidade cultural, linguística, histórica, é mais complexa. E, no entanto, nas posições de escritores do século XX (e XXI), encontramos posições mais conservadoras do que aquelas que o iberismo do século XIX e de começos do XX consagrava. Pérez-Riverte, Saramago Natália Correia, por exemplo, reduzem o leque da hispanidade às culturas castelhana e portuguesa – as línguas e culturas galega, catalã, basca, são consideradas dialectos e tradições regionalistas.

Em cada grão de literatura ibérica vibram a impulsiva permuta de duas culturas que têm as raízes enterradas no coração de um antiquíssimo e futuro tempo, diz Natália Correia em “Somos todos Hispanos”, um ensaio em que a escritora estuda a identidade literária criada por séculos de convívio na Península, bem como a projecção desse convívio nos países da América Latina.  Esta visão de Natália é uma poética frase, mas não sei se a ibericidade constitui fenómeno tão omnipresente. Por outro lado, se na América Latina se pode falar de duas culturas, pois o português e o castelhano são as duas línguas oficiais dominantes, com poucas excepções – o Haiti francófono e alguns estados anglófonos.

Falar de duas culturas na Península é redutor e é uma atitude de aceitação da violência castelhanista que foi ao longo de oito séculos, esmagando culturas (algumas ,mais antigas do que a sua) ignorando outro percurso histórico que não o seu, o percurso de dinastias que, como todas, a par das glórias celebradas por cronistas mercenários, estão eivadas de traições, violências, bastardias – Trastâmara, Habsburgo e Bourbons. Curiosamente, foram os Habsburgos (Áustrias) a encarnar o ideal do império que teve um século de ouro. E esta designação criada por Luis José Velázquez na sua obra Orígenes de la poesía castellana (1754), embora referindo-se apenas à poesia do século XVI, acabou por cobrir também parte do século XVII. E neste «século» que durou quase duzentos anos, que se mede desde a publicação da Gramática castellana, de Nebrija (1492) á morte de Calderón de la Barca, em 1681 quanto a mim, começa Espanha a ser inventada. Artur Pérez-Reverte, um dos escritores que queria ver Portugal integrado no estado espanhol, cria um herói desta Espanha onde mendigos, poetas, salteadores e soldados da fortuna, se misturam. Mas o capitão Alatriste é um émulo de verdadeiros heróis como Miguel de Cervantes que deram tudo pelo ideal do império. Como Camões, em Portugal. O falso estado, a manta de retalhos, o cárcere de nacionalidades e culturas – Castela, passa a designar-se por Espanha e mercê da vastidão do imperio, das naus que das terras conquistadas e saqueadas, traziam ouro, prata, madeiras preciosas, a cultura espanhola  explode em apogeu do Renascimento e do Barroco. E a imagem que Castela exporta de uma Espanha, sede de um império onde o sol nunca se põe, começa a ser assimilada no exterior. E no interior também. Alguns galegos, catalães, bascos, sentem orgulho em estar integrados num estado tão poderoso. Para os que assim pensam, a independência seria voltar á pequenez.

Portugal alimenta os seus próprios mitos nascidos séculos antes, inventa a sua grandeza e preserva a sua identidade. Os sessenta anos de domínio castelhano, tirando os últimos anos, com Olivares extinguindo o simulacro de independência que nos fora concedido, não foram piores do que se tivéssemos tido reis portugueses. Mas não nos conformámos. A Hispanidade não nos dizia nada – mera circunstância geográfica. Os Áustrias eram odiados. A culpa de tudo o que corria mal, das enxurradas invernais aos incêndios de Verão, era culpa dos «malditos castelhanos». E, num caldo de mitos antigos e novos, preservámos a identidade nacional. Sempre, entre nós, desculpando-nos com a pequenez e face aos estrangeiros, aos castelhanos, sobretudo, presumindo grandeza e exaltando um passado heróico. Conhecem um sinónimo de bravata registado pelo “Diccionario de la Lengua Española”, da Real Academia Española? Portuguesada. f. Dicho o hecho en que se exagera la importancia de una cosa. No “Dicionário da Língua Portuguesa”, de José Pedro Machado (edição da Sociedade da Língua Portuguesa), Espanholada, s.f. Dito próprio de espanhol; fanfarronada/hipérbole.

Os Lusíadas e Don Quijote de la Mancha são obras de soldados-escritores, homens que conheciam as grandezas e as misérias dos impérios. Os Lusíadas, uma maravilhosa portuguesada, são um pulmão por onde a nossa identidade nacional respira e se preserva. O Quijote é um dos pilares da espanholidade. Se Espamha existe é na poesia de Lorca, na música de Albéniz, na pintura de Goya e Picasso. E sobretudo no Quijote. As nações subjugadas, aculturadas, por Madrid, têm escritores, músicos, pintores… E não os deixam respirar.

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