Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Texto 22. Estratégia de saída do Paquistão: estará o sistema a sofrer uma transformação?
Publicado por
em 3 de Abril de 2026 (original aqui)
Ou se constrói um compromisso, por mais frágil e imperfeito que seja, ou corre-se o risco de uma catástrofe sistémica à escala mundial.
Uma possível estratégia de saída?
Pergunta introdutória: o que sabemos sobre as negociações em curso mediadas pelo Paquistão? Muito pouco, na realidade, e certamente nem tudo o que é declarado publicamente, especialmente quando as posições parecem contraditórias e mutáveis. A ausência de um ponto final claro para o conflito tem sido, desde o início, o principal motivo de preocupação entre os analistas independentes. A questão-chave é o tempo: quanto tempo os Estados Unidos e Israel podem continuar as operações militares, quanto tempo o Irão será capaz de manter o controlo do Estreito de Ormuz e responder com mísseis e drones, e quanto pode o sistema global suportar as consequências de uma crise energética e comercial que afecta simultaneamente o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico.
Neste cenário, o conflito não é meramente militar, mas sistémico: está a desenrolar-se numa fase de transição da ordem internacional, cada vez mais orientada para estruturas multipolares. E é precisamente neste quadro que o papel dos Estados sunitas do Golfo e da região mais vasta do Médio Oriente se torna central.
Os países de maioria sunita que rodeiam o Golfo Pérsico representam hoje um dos pilares fundamentais do equilíbrio global. Controlam uma parte decisiva dos recursos energéticos mundiais e ocupam uma posição estratégica ao longo das principais rotas que ligam a Europa, a Ásia e a África.
O Estreito de Ormuz é o símbolo desta centralidade: uma parte substancial do comércio mundial de energia passa por ele. A sua estabilidade é, portanto, um interesse vital não só para os actores regionais, mas também para as grandes potências, em particular os Estados Unidos e a China.
Dito isto, o confronto com o Irão assume uma dimensão estrutural. Não se trata apenas de uma rivalidade sectária entre sunitas e xiitas, mas de uma competição complexa que envolve interesses políticos, económicos e militares. Manifesta-se através de conflitos indirectos, pressões diplomáticas e confrontos por influência regional. No entanto, a fase actual sugere também um possível realinhamento do equilíbrio de poder: os países sunitas, tradicionalmente divididos, parecem estar a avançar para novas formas de convergência.
Pressões e convergências entre os mundos Sunita e Xiita
O conflito em curso está a exercer uma pressão crescente sobre todo o mundo Sunita. Os estados do Golfo encontram—se expostos a uma multiplicidade de factores desestabilizadores: ataques directos ou indirectos atribuídos ao Irão, a presença militar dos EUA — muitas vezes vista como onerosa — e ambições estratégicas israelitas.
Neste contexto, surgem sinais de diálogo entre actores-chave como a Turquia, o Egipto, a Arábia Saudita e o Paquistão. Esta não é uma verdadeira aliança militar, mas sim uma convergência pragmática ditada pelas circunstâncias. Embora estes países mantenham interesses divergentes, partilham a necessidade de atravessar um período de grave instabilidade.
O Paquistão representa um caso particularmente complexo: uma potência nuclear, um parceiro estratégico da Arábia Saudita, ligada à China, mas também atormentada por tensões internas e regionais. A presença de uma minoria xiita significativa contribui para tornar a sua posição ainda mais delicada.
A Turquia, membro da NATO mas cada vez mais autónoma, navega entre a cooperação e a concorrência com outros actores regionais. O Egipto mantém um papel central no mundo árabe, enquanto a Arábia Saudita, embora continue a ser o líder simbólico do mundo Sunita, mostra sinais crescentes de vulnerabilidade estratégica.
Neste contexto, a aproximação entre Riade e Teerão, mediada pela China, representa um sinal significativo: indica uma vontade de diversificar as alianças e reduzir a dependência dos Estados Unidos.
Neste cenário complexo, podem ser identificados vários pontos potenciais de mediação.
O primeiro diz respeito ao dossier nuclear. Um regresso a um acordo semelhante ao anteriormente negociado poderia oferecer uma saída: o Irão poderia argumentar que o conflito não se centrou nesta questão, enquanto os Estados Unidos poderiam reivindicar um sucesso alcançado através da pressão militar. Neste caso, a percepção pública importaria mais do que a verdade substantiva.
O segundo ponto é de natureza económica. O Irão sofreu danos significativos nas suas infra-estruturas civis e energéticas e está há muito sujeito a sanções. Medidas como a reconstrução do campo de gás de South Pars, a criação de um fundo internacional e a flexibilização das sanções podem ser elementos-chave de um acordo.
O terceiro elemento diz respeito ao papel do chamado “Quarteto Sunita” (Egipto, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão), que parece actuar como intermediário entre o Irão e os Estados Unidos. Este grupo poderia evoluir para uma forma mais estruturada de coordenação regional.
Um exemplo concreto é a proposta egípcia de introduzir um sistema de portagem no Estreito de Ormuz, inspirado no Canal de Suez. Isto implicaria uma gestão partilhada do estreito, com possíveis garantias internacionais.
Risco de escalada, risco de uma nova ordem
Paralelamente à dinâmica diplomática, a situação no terreno permanece extremamente instável. A escalada militar parece estar a aproximar-se de um ponto crítico.
Os cenários para uma invasão terrestre parecem extremamente complexos e arriscados. As operações em Ilhas estratégicas como Larak ou Qeshm enfrentariam uma defesa iraniana altamente sofisticada, baseada em mísseis anti-navio e drones implantados em toda a área.
A participação dos Emirados Árabes Unidos introduz igualmente outros elementos de risco. O seu alinhamento com os Estados Unidos e Israel expõe-nos a possíveis retaliações directas do Irão. Poderão ser atingidos objectivos estratégicos, tais como instalações energéticas, centrais eléctricas e infra-estruturas logísticas, com consequências devastadoras para todo o sistema económico do Golfo.
Neste contexto, o controlo das rotas comerciais e dos corredores logísticos torna-se crucial. Projectos como o IMEC (corredor Índia-Médio Oriente-Europa) já estão comprometidos, enquanto estão a surgir rotas alternativas que estão a remodelar o panorama económico regional.
Um dos aspectos mais significativos do conflito diz respeito à transformação do sistema económico mundial. O controlo do Estreito de Ormuz permite ao Irão exercer uma influência significativa, não só militarmente, mas também financeiramente.
A introdução do petroyuan como sistema de pagamentos representa um passo crucial: permite contornar o dólar, as sanções e os circuitos financeiros ocidentais. Nesse sentido, o conflito contribui para uma possível reescrita do “sistema operacional global”.
A China está a observar estes desenvolvimentos com extrema atenção. A estabilidade no Golfo é fundamental para as suas estratégias energéticas e para os projectos ligados à sua Iniciativa do Cinturão e Rota. Ao mesmo tempo, o encerramento de certos corredores terrestres — como o que atravessa a Síria e o Iraque — torna o controlo das passagens marítimas ainda mais crítico.
A questão mais difícil de resolver diz respeito à estratégia do “eixo de resistência” do Irão, nomeadamente à sua rede de alianças com actores não estatais como o Hezbollah, os Houthis e as milícias iraquianas.
Uma renúncia formal parece improvável, mas um congelamento de conflitos poderia ser possível. No entanto, questões cruciais como o sul do Líbano e a questão Palestiniana continuam por resolver, e os países sunitas não podem ignorá-las. Devido à sua complexidade, é pouco provável que estas questões sejam incluídas num acordo imediato e provavelmente serão adiadas para negociações a longo prazo.
De um modo geral, todas as partes envolvidas poderão encontrar uma forma de alegar que não perderam. Em termos narrativos, tal permitiria que um acordo fosse apresentado como uma vitória partilhada, mas a verdadeira sustentabilidade de tal equilíbrio permanece incerta e exigirá uma análise mais aprofundada. O sistema internacional encontra-se, de facto, numa fase de transição, em que velhas estruturas estão a dissolver-se e novos equilíbrios estão a lutar para emergir. Em alternativa, subsistem cenários extremamente perigosos: uma invasão terrestre em larga escala, uma escalada nuclear e uma crise global duradoura. Nesse sentido, as opções parecem limitadas.
Não parece haver uma verdadeira terceira via: ou se constrói um compromisso, por mais frágil e imperfeito que seja, ou corre-se o risco de uma catástrofe sistémica à escala mundial.
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O autor: Lorenzo Maria Pacini é Professor Associado de Filosofia Política e Geopolítica, UniDolomiti de Belluno. Consultor em Análise Estratégica, Inteligência e Relações Internacionais.



