POESIA AO AMANHECER – 81 – por Manuel Simões

Angel Crespo – Espanha

( 1926 – 1995 )

O PÃO MORENO

O pão moreno sabe a terra negra

sob a qual há mortos submersos,

sabe um pouco a pesebre

e sabe à boca de animal inteiro.

[…]

Quando se lavra a terra

tem-se na algibeira um pão moreno

e depois, o comê-lo,

sabe um pouco a suor, sabe a raízes

e crepita entre os dentes.

Ao erguer da cama, quando o sol levanta,

come-se pão moreno

e então sabe a dia

e a mulher sabe ao pão pela manhã.

Espesso, endurecido pela cosedura,

com sabor às mais íntimas palavras,

com o calor das coisas que se amam

e o odor da terra quando chove,

comemos pão moreno em Alcolea

sem nos olharmos, sentados junto ao fogo.

(tradução de Egito Gonçalves)

Nasceu em Ciudad Real. Traduziu “Poemas de Alberto Caeiro” (1957) e organizou uma “Antología de la nueva poesía portuguesa” (1961). Estudioso das literaturas portuguesa e brasileira, é também autor de uma biografia de Fernando Pessoa. Da sua extensa obra poética, assinalam-se: “Una lengua emerge” (1950), “La pintura” (1955), “Todo está vivo” (1956) “Puerta clavada” (1961), “No sé como decirlo” (1965), “Donde no crece el aire” (1981), “Iniciación a la sombra” (1996).

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