O BRASIL PERDE UM DOS SEUS MAIORES POETAS
Morreu Lêdo Ivo. No dia 23 de dezembro do 2012 apenas passado, num restaurante de Sevilha – cidade por ele sempre muito amada – num jantar em sua homenagem, o poeta improvisamente
cedeu a um ataque cardiaco. Estava para chegar aos seus 89 anos, pois nascera em Maceió, capital do Estado de Alagoas, no dia 18 de fevereiro de 1924. Mais uma vez comprova-se que a morte não respeita a natural ocorrência dos fatos cronológicos, ou a ignora completamente.
Desde os seus dois primeiros livros, As imaginações, de 1944; e o mais famoso Ode e elegia, de 1945, o poeta alagoano se apresenvava como um abre-estrada, como sempre foi. Não por acaso a teoria da poesia moderna brasileira reconhece e fixa em 1945 o início de uma segunda fase da criação lírica moderna, começada com os poetas da Geração de 1922. Tratava-se do aparecimento de uma nova face do Modernismo que desde aquele ano histórico modificara completamente a sensibilidade estética do brasileiro, levando-o definitivamente a uma consciência de modernidade inaugural para a cultura brasileira em geral. Igualmente a atual fase de progresso econômico e social porque passa o País e que desde logo o projetou como uma nova potência mundial, tal progresso é um produto da modernidade surgida em 1922.
A transformação que a chamada Geração de 45 traz para o poema moderno brasileiro tem em Lêdo Ivo e em João Cabraal de Melo Neto seus principais respresentantes. Porém, em ambos logo uma diferença substancial se afirma juntamente com tal conquista: enquanto João Cabral de Melo Neto praticamente não se ocupa do processo dialético da contestação ao Grupo de 22, Lêdo Ivo – grande jornalista cultural que o era igualmente na sua complexa personalidade de escritor, também ensaísta, crítico, romancista, contista e cronista – se dedica a uma grande campanha contra a presumível excessiva liberdade formal a que se tinham dado os poetas da Geração inaugural da modernidade. Então, não só teoricamente, mas igualmente através de seus muitos imediatos outros volumes de poemas – como Acontecimento do Soneto, 1948;Cântico, 1949; Linguagem, 1951 – Lêdo Ivo lança um processo de moderno retorno às regras da retórica poética que vinham dos primeiros movimentos poéticos revolucionários, como o impressionismo e o simbolismo. A ambos estava muito ligado o poeta alagoano:. ao simbolismo, em particular à poesia de Rimbaud; à estética impressionista enquanto uma decorrência dessa sua ligação quase juvenil com o simbolismo rimbaudiano. Numa de suas crônicas, Lêdo Ivo recorda como começou esse grande amor pela poesia de Rimbaud, isso quando ele tinha apenas quinze anos:
“(…) Veio às minhas mãos um jornal com uma notícia sobre a vida e a poesia de Jean-Arthur Rimbaud e que reproduzia o poema Les effarés. Esse poema foi para mim uma epifania, uma estonteante descoberta de mim mesmo, daquilo que jazia dentro de mim à espera da expressão e possível comunicação – à espera da linguagem.”
O percurso dialético de Lêdo Ivo sobre a dita indisciplina formal dos poetas de 22 naturalmente provocou uma tomada de posição ativa entre os jovens poetas brasileiros, mas não só entre eles, pois igualmente alguns daqueles já então “históricos”, como é o caso de Jorge de Lima, autor do genial Inveção de Orfeu- ou ainda com outro grande de 22, Cassiano Ricardo, que percorreu e abriu caminhos para tantas novas experiências vanguardista na poesia brasileira, entre as quais o Movimentso da Poesia Concreta.
Restabelecida a determinada consciência formal, dentro da maior liberdade de criação poética, normas definitivamente fixadas pelos poetas da 3ª. Geração modernista, aquela de 56, com poetas como Ferreira Gullar, Carlos Nejar, Marly de Oliveira, Lélia Coelho Frota, Ivan Junqueira, Affonso Romano de Sant’Ana e muitos outros, Lêdo Ivo passa a operar com maior liberdade criadora. Daí surgem produtos de grande importãncia para toda a poesia nacional, como acontece com volumes de poema como Magias, 1960; Finisterra, 1972; A noite misteriosa, Mar oceano, 1987; Crepúsculo civil, 1990; O rumor da noite, 2000; Plenilúnio, 2004; Réquiem, 2008.
Lêdo Ivo passa pelos anos sempre com uma produção que não cede jamais a nada, nem mesmo ao mesmo tempo. Como pódemos verificar em poemas como A palavra fina (de Crepúsculo Civil);
Falo como as plantas.
Digo como as pedras.
Clamo como o réptil,
o miasma e o verme.
Quantas vozes tenho
quando estou calado?
Meu silêncio é a voz
vinda do outro lado
onde a escuridão
dispensa as palavras
a fala espantada
de quem sabe e cala.
Ou ainda em exemplos como o poema O primeiro dia do ano (de Curral de peixe);
Um folha amarela. E era um novo dia
que surgia relutante nas monanhas.
A mim mesmo reclamei a graça imerecida
de poder continuar andando pelo bosque
e insisti em lavar com a água mais pura
a ferida da vida aberta como uma porta.
Rodeado por uma nuvem caída, tornei a ouvir
a intimação da noite, oculta entre as árvores.
Era o uivo de um bicho que sempre me espreitou.
E aquele dia era insensato como qualquer outro,
dividido entre o vento e as folhas amarelas.
Viajante constante e incansável – muitas vezes estivemos juntos em Veneza e na Universidade de Pádua – Lêdo Ivo foi morrer em viagem. Sevilha, tão amada por ele, o recolheu definitivamente. E isso pouco dias depois que me escrevera uma mail, diretamente da Academia Brasileira de Letras, no dia 27 de novembro de 2012, na qual me agradece um meu artigo sobre o volume de seus poemas, Antologia poética, preparada por Albano Martins, numa edição Afrontamento, de Lisboa, o mesmo volume que tivera a gentileza de enviar-me.
“Querido amigo Sílvio Castro,
a amizade e uma fina sensibilidade crítica se reuniram na sua última carta de Veneza, Muito obrigado pela manifestação afetuosa. Lêdo Ivo “
Nesta magnífica edição portuguesa encontram-se também poemas do volume inédito do poeta, Mormaço, do qual agora leio um deles, “O barco branco”; poema que hoje me soa quase como pessoal epitáfio de um Ulisse sempre em navegação. Navegação esta que somente em aparência cessou no dia 23 de dezembro de 2012 –
Penso um barco branco atravessando o mar.
Vejo um barco branco atravessando o mar.
Sonho um barco branco atravessando o mar.
Sinto um barco branco no meu pensamento.
Penso o meu pensamento sobre um barco branco.
Sou um barco branco e atravesso o mar.
