A OUTRA EQUAÇÃO – Por José Fernando Magalhães (6)

 

 

Pi,Pi,Pi,Pi,Pi…Pi…Pi…Pi

A AVENIDA!

 

Sempre foi um dos meus caminhos de eleição. Diariamente percorria-a de cima a baixo e volta, com a variante de no intervalo passar por ruas menores, sempre com as árvores na minha companhia até chegar ao mar.

Sempre que me era possível fazia dez quilómetros em passo marcial, até que uma lesão teimosa e arreliadora me travou nos últimos seis meses.

Hoje voltei, num passeio encurtado, a recuperar parte desse ritual.

Continua linda, a Avenida do Marechal Gomes da Costa. O arranjo dos últimos anos não a afeou.

Mas não há bela sem senão. Mais de quinze semáforos, de cada lado da avenida. Durante meses estiveram mudos, discretos, quase civilizados, à espera de nem nos darmos conta deles. Despertaram. Todos eles, como se tivessem combinado entre si um ajuste de contas com o silêncio. Finalmente organizado, eficiente e democrático. E é um chorrilho de pipipis constantes a avisar os invisuais e os incautos da proximidade do final do tempo em que podem fazer a travessia perpendicular da avenida. Não se anda, atravessa-se um corredor de alarmes. Pipipi de um lado, pipipi de outro. Pi, PI, Pi. E tem locais onde são minutos seguidos, ora de um lado ora de outro, ora de cima ora de baixo, em que nada mais se ouve. Quando um se cala, outro começa. Já lá estavam os carros, os autocarros, as pessoas, as motas, o MetroBus, as bicicletas …, agora há isto.

Uma avenida magnífica, agora com banda sonora inclusiva e obrigatória. Ninguém escapa!

E isso, sim, afeia e expulsa.

 

 

 

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