CARTA DE VENEZA – 43 – por Sílvio Castro

  PERCURSO INTERNO DO OBSERVATÓRIO VENEZIANO

 Como muitas vezes já declarei, Veneza representa para mim, entre outras coisas, um grande e muito importante observatório. Isto acontece metodologicamente quanto à minha atividade não prioritária de crítico de arte, a partir da qual participo do processo criativo de artistas italianos, como primeira referência; brasileiros e portugueses, logo a seguir; mas igualmente com operadores artísticos de outras nacionalidades.

Para cobrir um espaço que me ocupa fortemente, me sirvo do amplo sistema de exposições propostas pelos museus e galerias de arte da cidade dos Doges. Parto igualmente dessas muitas exposições, a forma mais direta da minha participação com artistas e obras de arte, em outra direção, igualmente importante para mim, isto com a tomada de conhecimentos dos espaços físico que acolhem aquele meu outro espaço privilegiado, as exposições às quais dedico, em geral, uma atenção metodológica. Assim fazendo, isto é, unindo os dos grandes espaços intercomunicantes que me interessam, posso dedicar-me com intensidade aos mais interessantes produtos da arte contemporânea, mas dedicando-me igualmente aos artistas que abriram a modernidade novencetista com suas obras vanguardistas a partir dos primeiros anos do século XX. Porém, não me fecho neste magnífico presente artístico, mas procuro participar do conhecimento daqueles artistas anteriores que serviram de base as investigações criadoras de modernos e contemporâneos. Naturalmente, sendo um tal quadro de horizontes quase ilimitado, devo criar-me as tantas regras de comportamento visivo que me permitam de não perder-me em tanta riqueza artística e em tanta história da capacidade criadora do homem, mas limitar-me o quanto possível àqueles testemunhos que possam melhor ampliar o meu já amplo observatório veneziano. Um dos setores mais eficazes para a conquista de um tal ampliamento eu o trovo, cada dois anos, com a Bienal de Arte de Veneza.

Além dessas experiências com as artes plásticas, o observatório veneziano me concede o privilégio de participar bastante ativamente com manifestações as mais diversa – musicais, cinematográficas, teatrais. Assim sendo, posso seguir na minha grande satisfação pessoal de unir as diversas linguagens artísticas com o setor específico de minha escolha de vida, a prática da literatura. Naturalmente, colocadas desta maneira tantas questões, poderá parecer que eu me sinta sufocado no meu limitado tempo pessoal; mas assim não acontece. Porque o meu tempo pessoal aprendeu a alargar-se com a natureza muito especial do tempo veneziano. Os dias de Veneza têm, como todos os demais, aquele do Rio de Janeiro, o de Lisboa etc., o termo fixado das 24 horas. Mas em Veneza, para mim, o tempo dos meus dias alcançam o privilégio que é próprio do tempo veneziano, isto é, permitir a tomada consciente de uma ampla “ duração“ – e aqui reentro nos meus estudos do conceito de tempo em Bergson – “duração“ que me deixa sereno diante de tantas experiências vividas e consumidas.

Mas, o observatório veneziano também me concederá outras perspectivas de observações da vida quotidiana, e essas me levam a uma dimensão mais humana nas minhas experiências sempre muito curiosas. Refiro-me à grande riqueza que o observatório fornece a surpreendentes encontros, no mínimo limitado ao espaço de um nosso olhar quase infantilmente curioso. Isto acontece em qualquer parte da cidade, pois a gente, mesmo os foranteiros, logo conquistam a satisfação de percorrer sem pressa maior as estradas, ruas, calle venezianas. Foi assim que, numa certa noite pouco iluminada do outono de 1964, descendo os degraus de uma das muitas pontes da cidade, próxima ao Teatro La Fenice, me cnnfronto com  o presidente Juscelino Kubitschek e sua mulher, dona Sara. Juscelino fora apenas banido da vida  civil brasileira pelo absurdo regime militar então instalado no Brasil. Foi um vivo encontro de recíprocas surpresas.

Assim acontece pelas ruas dos sete bairros venezianos, mas principalmente quando passamos ou nos sentamos a uma mesa de um dos elegantes cafés da Praça de San Marco. Assim me encontrava numa luminosa manhã da primavera de 1963 quando, tranquilimente sentado, com sua mulher, a uma mesa do Café Florian, milagrosamente distingo a figura sempre amada de Carlitos. Mas, era um Carlitos fora das cenas, tranquilo, muito sereno na contemplação da Praça inegualável.. Charles Chaplin, ao lado de sua jovem mulher, Oona Ó Neil, não me vê, mas eu o admiro longamente, gozando-me as muitas lembranças que instantaneamente me retornam, mesmo aquelas da mais mais distante infância.

Além desses encontros fortuitos, o observatório concede igualmente aqueles mais ligados à própria vida da cidade. Assim é, por exemplo, com os dois ou três encontros pessoais que tenho com Ezra Pound, na zona do Zattere, também aqui sentado a um dos cafés ao-aberto, diante das águas do largo Canal da Giudeca. Então, somente eu falo, pois Pound mantém sempre e coerentemente o mutismo assumido depois de sua histórica prisão no país que o viu nascer. A única concessão que o poeta maldito faz, em tais circunstâncias, é dirigir-se indiretamente ao interluctor, falando através de sua companheira, sempre ao seu lado.

A última vez  que vi Pound e sua mulher, foi no dia 15 de abril de 1971, na Basílica de San Giovanni e Paolo, quando dos funerais de Igor Strawinskiy. Mais do que nunca, então o poeta mantinha-se ensimesmado num grande silêncio.

Strawinskiy vivo, eu nunca o encontrei diretamente em Veneza, apesar das várias vezes que o segui nos concertos de sua imensa música.  Porém, mesmo visto assim, de longe, tenho a lembrança de uma profunda presença física, como o captamos igualmente a partir do seu retrato realizado por Picasso com um desenho de 1917.

À recordação de balés e composições simfônicas de Strawinskiy, logo nos vem de um tempo que não é o nosso, mas como qual participamos com intensidade, da figura pioneiro de Serghey Diaghilev, o grande coreógrafo e empresário teatral russo, revelador do jovem compositor. Logo ao primeiro encontro entre ambos, Diaghilev convida o jovem Strawinakiy a com ele colaborar na inauguração da experiência do grande empresário nas cenas de Paris. O jovem compositor sai-se tão bem de seu encargo que o a intuição de Diaghilev imediatamente o leva a encomendar ao jovem Igor a realização de um ballet que deveria inaugurar, no ano seguinte de 1910, a primeira saison russa consagrada à dança diante do público parisiense. Tem-se assim a première do ballet L-oiseau de feu, seguida imediatamente na temporada de 1911 da mesma saison russa uma das mais marcantes obras-primas de Strawinskiy, Petrouschka. Surgia assim definitivamente uma nova absoluta estrela da arte musical do Novecento.

Depois, Diaghilev acompanhará Strawinskiy no conhecimento desse de Veneza, ali vivendo até a morte, em 1929. Porém, vivendo sempre um seu grande temor, aquele de afogar-se. Por essa razão não acompanhará jamais sua jovem e definitivamente afirmada descoberta nas repetidas viagens que Strawinaskiy faz aos USA. Temeroso do perigo de um afogamento Diaghilev se acontenta em olhar somente as águas dos canais venezianos. Quando Strawinskiy morre em 1971, em New Iork, seu último pedido foi o de ser sepultado no cemitério veneziano ao lado do túmulo no qual, desde 1929, repousava Diaghilev. Assim acontece naquela missa fúnebre de 15 de abril de 1971, na qual vi pela última vez Ezra Pound.  

Desta mesma distância muito destacada, descobri-me diante de

monumentos musicais, em particular daqueles de grandes executantes. É assim que me revejo no Teatro La Fenice, justamente no último concerto público do já muito ancião pianista, o sublime Arthur Rubistein. Seu toque nos pode então dar a impressão de suaves indecisões, mas ele se mantém sempre um intérprete de alta criatividade, capaz de atingir as ressonâncias as sublimes de composições de muitos compositores, em particular do seu sempre amado Chopin.

Sempre no Teatro La Fenice, me acontece mais de uma vez de

admirar um outro timbre excepcional, este mestre de grandes recuperações das lições do classicismo musical, bem como dos modernos, Sviatoslav Richter. O som que vem do seu piano tem sempre o poder de colocar os seus ouvintes como que diante das mais concretas percepções estéticas.

Nessas recordações do observatório veneziano, não posso colocar outro grande pianista, que me pertence como um mito, Glen Gould, pois ele jamis exibiu-se em Veneza.

 

 

 

                  

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