POESIA AO AMANHECER – 124 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

DIEGO PEZELHO

(meados do séc. XIII)

Meu senhor arcebispo, and’eu escomungado,

por que fiz lealdade: enganou-mi o pecado.

      Soltade-m’, ai, senhor,

       e jurarei, mandado, que seja traedor.

Se traiçon fezesse, nunca vo-la diria;

mais, pois fiz lealdade, vel por Santa Maria,

        soltade-m’, ai, senhor,

        e jurarei, mandado, que seja traedor.

Por mia malaventura, tive un castelo en Sousa

e dei-o a seu don’ e tenho que fiz gran cousa:

          soltade-m’, ai, senhor,

         e jurarei, mandado, que seja traedor.

Per meus negros pecados, tive un castelo forte

e dei-o a seu dono, e ei medo da morte.

        Soltade-m’, ai, senhor,

        e jurarei, mandado, que seja traedor.

Jogral provavelmente português, autor deste sirventês político (cantiga de escárnio) no qual, simulando ser comandante de uma fortaleza, sarcasticamente finge invocar o perdão do arcebispo por não ter cedido a praça – como os outros alcaides – ao usurpador D. Afonso, mantendo-se fiel a D. Sancho II, deposto e excomungado pelo papa.

Glossário: “soltade-me”: absolvei-me; “mandado”: por minha honra.

Leave a Reply