DIEGO PEZELHO
(meados do séc. XIII)
Meu senhor arcebispo, and’eu escomungado,
por que fiz lealdade: enganou-mi o pecado.
Soltade-m’, ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.
Se traiçon fezesse, nunca vo-la diria;
mais, pois fiz lealdade, vel por Santa Maria,
soltade-m’, ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.
Por mia malaventura, tive un castelo en Sousa
e dei-o a seu don’ e tenho que fiz gran cousa:
soltade-m’, ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.
Per meus negros pecados, tive un castelo forte
e dei-o a seu dono, e ei medo da morte.
Soltade-m’, ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.
Jogral provavelmente português, autor deste sirventês político (cantiga de escárnio) no qual, simulando ser comandante de uma fortaleza, sarcasticamente finge invocar o perdão do arcebispo por não ter cedido a praça – como os outros alcaides – ao usurpador D. Afonso, mantendo-se fiel a D. Sancho II, deposto e excomungado pelo papa.
Glossário: “soltade-me”: absolvei-me; “mandado”: por minha honra.

