EUGÉNIO TAVARES – UMA INFÂNCIA TORMENTOSA, MAS FELIZ. – por Carlos Loures.

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«Aos cinco dias do mês de Novembro de 1867, nesta Igreja Matriz de São João Baptista nesta ilha Brava, baptizei solenemente e pus os santos óleos a Eugênio, filho legítimo de Francisco de Paula Tavares e de Eugénia Roíz Tavares, já falecida e que nasceu a dezoito do mês transacto pela uma hora da manhã. Foram padrinhos Benjamim José da Vera Cruz e D. Maria Medina de Vera Cruz, seu pai, natural do reino de Portugal e sua mãe da Ilha do Fogo1 e para constar fiz este termo que assino. Era ut supra.» Com esta prosa, o cónego vigário Guilherme de Magalhães Menezes, dava o passaporte para a vida àquele que, grande poeta e notável jornalista em crioulo e em língua portuguesa, viria a ser o pai da literatura cabo-verdiana e o primeiro intelectual a pensar em Cabo Verde como entidade cultural autónoma.

Eugénio Tavares, é, como Torga em Portugal, um poeta telúrico, escrevendo uma poesia intimamente ligada à terra e às gentes do arquipélago. Francisco de Paula Tavares, um português natural de Santarém, estabelecera-se na Guiné, na região de Cacheu e Geba, transformando-se num rico proprietário. Porém, é grande a instabilidade que se vive no território – sobretudo as lutas tribais que são, por seu turno, reflexo da turbulência política e, sobretudo, social que se vive na Europa e que preanunciam transformações e medidas importantes (tais como, em 1869, a abolição da escravatura em todos os domínios portugueses).

Em 1870 deflagra a guerra franco-prussiana. Em Portugal, é o pronunciamento do marechal Saldanha, querendo impor a D. Luís a demissão do governo do duque de Loulé. Este quadro de conflitualidade política e social e a guerra étnica que lavra na Colónia, leva-o, por prudência, a transferir sua mulher e uma filha (a pequena Henriqueta, nascida em Geba) para a ilha do Fogo de onde Eugénia, que está grávida, é oriunda. Henrique, o filho mais velho fica com o pai. No entanto, na sua ilha natal as melhoras não são significativas e vai para a Brava, onde tem familiares que a acolhem. Para mais, pelas suas condições naturais, a Brava é considerado um local privilegiado de cura e repouso. Tendo, no século XV, sido colonizada sobretudo por algarvios e madeirenses, a sociedade bravense naquela época caracterizava-se por, relativamente às outras ilhas, ali se verificar um ambiente ameno, isento de preconceitos étnicos, havendo um saudável convívio entre os negros, os crioulos e os, relativamente numerosos, colonos europeus. Porém, a tragédia espreita a família do pequeno ser: Eugénia morre ao dá-lo à luz. Sua irmã Henriqueta é acolhida pela família Sena.

O recém-nascido Eugénio fica com D. Maria Medina de Vera Cruz que, com seu marido, o médico José Martins de Vera Cruz, acabam por acolher definitivamente a criança quando, em 1870, na Guiné, Francisco de Paula Tavares morre também, em circunstâncias desconhecidas, mas pensa-se que vítima da onda de violência que o território atravessa. O irmão mais velho, Henrique, é levado para Portugal. A pequena Henriqueta fica entregue aos cuidados de um familiar de sua mãe, João José de Sena. Eugénio é tratado como um verdadeiro filho pelo casal Vera Cruz. Pode dizer-se que o pequeno, apesar de órfão, tem uma infância normal, feliz.

Cedo, os pais afectivos e os amigos se apercebem da inteligência excepcional daquela criança. Por isso, a formação cultural do jovem não é descurada, pois para além do exame em matérias básicas que vem noticiado no Boletim Oficial de Julho de 1876 (leitura corrente, escrita, subtracção, multiplicação e divisão de números inteiros, gramática e doutrina cristã), recebe lições de Filosofia, Língua Latina e Teologia… – apesar da grande cultura que o escritor virá a adquirir, este é o único diploma oficial que se lhe conhece, pois todo o saber que acumula não será documentalmente oficializado.

O contacto com os mais destacados intelectuais da Brava, nomeadamente os poetas Guilherme Dantas, Augusto Barreto, Maria Luísa de Sena Barcelos e José Rodrigues Aleixo, «o filósofo, o pensador da ilha Brava», enriquece culturalmente Eugénio Tavares e vai abrindo caminho para que o caudal do seu talento se converta na torrente criativa que dará lugar à sua polifacetada obra. Como diz o professor brasileiro Genivaldo Rodrigues Sobrinho, «Mesmo não tendo frequentado o Liceu de São Nicolau nem tido oportunidade de estudar em qualquer outro estabelecimento de ensino fora de seu país, Eugénio Tavares era possuidor de uma formação cultural que viria a se refletir em sua produção escrita. Apesar de ser autodidata em sua formação, como jornalista e prosador,» (…) «dominou o cenário cabo-verdiano nas primeiras décadas do século XX»

A seguir – OS PRIMEIROS PASSOS NA POESIA

E mais uma morna de Eugénio Tavares, agora cantada por Maria Alice no Teatro da Trindade – Morna nha santaAna

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