EUGÉNIO TAVARES – A CONSAGRAÇÃO

etvr_top_3

A DEFESA DOS DIREITOS DO POVO DE CABO VERDE.

Visita de desagravo a Eugénio Tavares do Governador Guedes Vaz.

Em 5 de Outubro de 1910 é proclamada a República em Portugal. Eugénio, cheio de entusiasmo, regressa a Cabo Verde. Membro do Partido Republicano e maçon, não tem a temer agora qualquer acto de repressão. Entretanto, durante o seu exílio, fora julgado à revelia e declarado inocente da infame acusação de que fora vítima. Para ele, tem início um novo ciclo. Inicia a sua colaboração no Manduco, jornal editado por Pedro Cardoso Monteiro e que se publica na ilha do Fogo. Pelas autoridades republicanas, é nomeado director da Imprensa Nacional da Colónia, com a incumbência de criar um novo jornal. Com Gustavo Carlos da Fonseca, director, Abílio de Macedo, administrador, e João Maria Pereira, editor, funda o semanário democrático A Voz de Cabo Verde, cujo primeiro número sai em 1 de Março de 1911. No editorial (Fiat lux), Eugénio saúda o novo governador-geral da Colónia, Marinha de Campos, para o qual «não há ricos nem pobres, não há brancos nem pretos; há justiça e só justiça».

TEMPOS FELIZES.

Os doze anos que se seguem, são vividos intensamente, com uma grande actividade – no plano político, no jornalístico, no campo associativo e social, na poesia, na música. Em 1912 colabora no Correio Português, de New Bedford. No ano seguinte, escreve para a Tribuna, da Brava, editada por João José Nunes. Em 1914, compõe e publica uma Canção Republicana dedicada à recém-proclamada República. Em 1915, publica na Praia os opúsculos que designa por Cartas Caboverdeanas. Em 1916 sai a público o livro Amor Que Salva (Santificação do Beijo); neste mesmo ano é editado Mal de Amor: Coroa de Espinhos. Em 1922, regressando à Brava definitivamente, ao seio da família e dos seus conterrâneos, depois de várias idas e vindas à Praia, ao Mindelo, no quadro da sua actividade política. Esperam-no agora tempos tranquilos, embora precise de continuar a escrever para ganhar a vida. Com o seu grupo de amigos, funda a Troupe Musical Bravense. Por outro lado, com a ajuda de Hermano de Pina e de outros companheiros, impulsiona a criação da Escola Guedes Vaz, estabelecimento de ensino que vem preencher uma grave lacuna no sistema de educação da juventude da ilha. Exerce o professorado e, apesar de toda a sua actividade profissional, ainda guarda tempo para cuidar das flores do seu jardim. São tempos felizes.

Em 1927, o governador Guedes Vaz realiza uma visita de cortesia à Brava. Em nome do Governo, apresenta a Eugénio Tavares um formal pedido de desculpa pelo infortúnio e sofrimento causados por uma acusação injusta da Administração Central. Convida-o a visitar São Vicente. É uma viagem triunfal, pois Eugénio é recebido no Mindelo por uma multidão de admiradores que o conduz em ombros até à Câmara Municipal, onde o espera uma sessão solene e a consagração como figura cimeira da cultura cabo-verdiana.

«E CONTINUEI A SONHAR, A AMAR E A CANTAR.»

Três anos depois, agora com 62 anos, Eugénio está precocemente envelhecido, embora o seu espírito permaneça jovem e actuante. Escreve e compõe. Deste período datam duas das suas melhores composições – as mornas Bidjiça e Nha Santana. A primeira, segundo tudo o indica, é inspirada pela paixão serôdia que sente por uma muito jovem rapariga com a qual inicia um namoro que faz sorrir os seus amigos e conterrâneos. Bidjiça alcança uma grande popularidade, Nela se diz que sol de entardecer de idade, /sol brando é el, sol de sodade… Porém, a jovem abandona-o, partindo para os Estados Unidos com a família. Despeitado por essa decisão da amada, Eugénio cai numa mágoa profunda, refugia-se no isolamento. Passado tempo, a rapariga faz-lhe saber que está disposta a voltar para ele. Mas Eugénio, num arroubo de orgulho ferido, recusa aceitá-la de volta. Pega na guitarra e compõe Nha Santana. Outro grande êxito popular.

No dia 1 de Junho de 1930, cerca das 11 horas da manhã, Eugénio Tavares está sentado numa cadeira de baloiço da sua casa de Nova Sintra. Recebe amigos e familiares. Discutem a política da Colónia, os fait- divers que se relatam nos jornais da Metrópole. A propósito, um deles, conta uma história engraçada. Estoira uma enorme gargalhada geral. Eugénio Tavares acompanha os amigos na risada. Depois, inclina-se e tomba, mortalmente fulminado por uma angina de peito.

Diz Eugénio na sua Autobiografia: «Os aspectos exteriores que emolduraram a minha infância, o sonambulismo taciturno das montanhas em cujos socalcos sonhei os meus primeiros voos, solidões misteriosas e enevoadas, semearam no meu espírito sentimentos que em breve não cabiam na estreiteza do meio em que vivia. Mais tarde um outro factor preponderou: a formosura das filhas dos crioulos, minhas irmãs, seu caminhar harmonioso, erectas e plácidas na linha das paisagens perpendiculares, suas vozes argentinas ou veladas elevando-se nas toadas tristíssimas, suas frontes trigueiras e puras, romperam-me na alma a intuição melodiosa do idílio e continuei sonhando, amando e cantando – com a fronte em sangue, com a alma em luz. No declinar da Primavera, açoutado de maus ventos, alanhado de injustiças odiosas, a poesia religiosa envolveu-me numa plúmbea atmosfera de paz e de saudade. E continuei a sonhar, a amar e a cantar.»

INAUGURAÇÃO DO BUSTO DE EUGÉNIO TAVARES NA BRAVA

Leave a Reply