Arriscamo-nos a avançar com uma afirmação que, para muitos amantes do romance negro, parecerá uma heresia – Pepe Carvalho é uma personagem mais conseguida do que a de Sam Spade ou a de Philip Marlowe. Naturalmente que a Hammett e a Chandler cabe a glória de ter criado investigadores que não humilham o leitor como Conan Doyle ou Agatha Christie, fazendo-os sentir-se pouco lestos de raciocínio com as suas reuniões apoteóticas onde desmascaram o criminoso – sempre a menos suspeita das personagens, aquela da qual nunca se desconfiou. O que, a partir da leitura de meia dúzia de livros, nos permite descobrir o assassino antes de chegar a meio do livro.
Os dois escritores norte-americanos (Hammett e Chandler), ao substituírem o raciocínio brilhante de Holmes e de Poirot, pelo trabalho intenso de investigação, noites dentro do automóvel vigiando movimentos, recurso a informadores «do meio», conclusões erradas antes do acerto, puseram os seus detectives ao nível do leitor – seres humanos e não super-crânios. Vázquez Montalbán partiu dessa base e criou uma personagem única, movimentando-se numa cidade, numa época e num contexto histórico mais ricos do que o de uma Califórnia nos anos que antecederam a II Guerra Mundial, em plena recessão económica. Georges Simenon, construiu o seu inspector Maigret numa base semelhante – um grande conhecimento da natureza humana. Aliás Maigret não deve ser esquecido quando se fala de romance negro. E de cinema negro, pois Jean Gabin foi um Maigret muito convincente e Jean Delannoy foi, talvez o realizador que melhor captou o espírito da personagem de Simenon.
Pepe Carvalho emerge nesta galeria de personagens cuja maior força é a consciência da própria fragilidade e, sobretudo, da compreensão para com as fraquezas alheias. Personagens cuja humanidade é a luz central da narrativa e crimes e criminosos pormenores irrelevantes.